Biografia do poeta Salomão Sousa

Interlúdio para lembrar –

    A casa da família era típica das construções goianas. De adobe rústico, piso no saibro, banco de champrão de madeira na cozinha, tralhas dependuradas nas traves da sala, com curral de tábuas, bica passando no quintal e paiol ao lado. A casa ficava a uns dois mil metros do riozinho Calvo e a uns quinze quilômetros das cidades de Silvânia e Vianópolis. À frente, o fundo vale de onde escorria o rego até à porta. O parto foi assistido pela prima Mariinha (Maria Abadia dos Santos), jovem sem nenhuma experiência para lidar com o nascimento de uma criança, pois não houve tempo para João Miguel Bento, seu pai, chegar com a parteira. Era 19 de setembro de 1952, com uma manhã ensolarada de ensaio para a primavera. Houve saudação da chegada de Salomão Sousa com tiros de espingarda.

   Mariinha e Geraldo Brasil, seu marido, viriam a acolhê-lo quando se transferiu para Brasília. Residiam em Taguatinga Sul, numa rua esburacada pelas enxurradas onde ficava a casa de tábuas, com água de cisterna.

   A alfabetização iniciada em casa pelo andarilho José Ribeiro da Silva continuou numa turma de estudantes formada na fazenda do tio Pedro Miguel e no grupo rural da fazenda do José Arnaldo, no município de Vianópolis (GO). Mudou com a família para Silvânia em 16 agosto de 1964. Nessa cidade, concluiu o primário no grupo Moisés Santana e cursou todo o ginasial no Ginásio Anchieta.

   Começou o contato com a literatura na zona rural através de folhetos de cordel guardados a sete chaves pelo avô numa canastra entre as roupas de cama e os vestidos da avó Cândida, que eram verdadeiros sacos. Além dessa experiência mais evidente, a cultura popular continuou a alimentar seu imaginário através de raras parlendas, advinhas, repetitivas litanias religiosas, a música caipira, e as quadras realizadas de improviso em meio à plantação do quintal. O andarilho Agenor, que fazia poucas visitas à casa de seus pais e de seus avós, desafiava-o para esse jogo. Findos os momentos de disputa poética, esse andarilho ia se divertir sobre pernas de pau ou montar engrenagens hidráulicas idênticas aos moinhos medievais. Agenor foi um dos muitos talentos desperdiçados pelo País.

   Na zona rural, nada mais existia para leitura além dos livretos de cordel, a não ser um ou outro almanaque e as descartadas folhas da folhinha Coração de Jesus. Mesmo que Salomão Sousa quisesse escrever, não havia disponibilidade de material. Chegou a recortar nalgum tronco de árvore as iniciais do próprio nome. Era mais fácil trocar berros, rosnados e chiados com animais do que alguma expressão cultural da Civilização. Na ausência de brinquedos, revirava pedras, troncos podres e folhas mortas para localizar insetos. Aprisionava-os na bacia que servia tanto para lavar roupas como para banhos e manipular produtos alimentícios. Lacraias, besouros, joaninhas, diversos espécimes de baratas, minhocas, percevejos, escorpiões, aranhas…

   O avô materno, Sansão Fernandes de Sousa, foi quem mais o influenciou na infância. Ao contrário dos demais familiares, era alfabetizado. Hábil artesão para trabalhar a madeira, o couro, as embiras, as tabocas e o buriti, o que o tornava um homem sereno, pacato e paciente. Com ele, naquele silêncio concentrado, desenvolveu a prática silenciosa de observar e ouvir os interlocutores e a ser paciente, apresentando, raramente, respostas abruptas a diálogos agressivos. Por mais que seja desastrado na lida com o trabalho manual, não se livrou de ter de lavrar um amassador de feijão em cerne de vinhático, que a mãe usaria até o amarelo da madeira ficar escurecido pela fumaça do fogão a lenha.

   Em Silvânia, o acesso a material de cultura e a interação humana se ampliariam. Apesar de ser isolada, a cidade era a Atenas de Goiás, com biblioteca, que tem até os dias atuais um acervo invejável. Na época, tinha três escolas, sendo uma para o ensino primário, que ia até a 4ª série, e duas para o ginasial, que ia até a 8ª; além de um cinema com muitos lugares, que acompanhava a programação nacional e servia para eventos e apresentações teatrais. Foi farto o contato com livros, revistas, filmes e jornais.  Publicou o primeiro poema aos dezesseis anos num jornal fundado na cidade por outro andarilho. O poema é um protesto contra a derrubada da praça histórica para erguer uma moderna, com fonte luminosa. A água colorida, interminável, em ondas ao som da Jovem Guarda. Salomão Sousa ficava circulando sobre o piso de paralelepípedos, rodeado pela multidão de jovens, imaginando que a sua vida não podia circunscrever-se àquela praça.

   Com Luiz Alberto Tavares, atravessava noites debatendo filmes, as questões relacionadas à Ditadura e à Guerra do Vietnã e, claro, as incertezas do futuro. O seu pai não acreditava que o homem pisou na lua. O Luiz Alberto morreu insistindo para que Salomão Sousa não o contradissesse, pois o pai podia estar com razão.           

   O melhor espetáculo que assistiu na vida desenrolava nas horas em que acompanhava o pai nas visitas ao amigo Jeroni. Aquele trabalho de mecânico inseria em seu conhecimento a primeira experiência desligada da natureza. Aqueles motores desossados entre as bananeiras do quintal.           

   Transferiu-se para Brasília em 6 de janeiro de 1971 com sua experiência de enxadeiro, candieiro, entregador de marmitas, balconista, porteiro e bibliotecário. Fez o Científico no Colégio de Taguatinga Sul (DF), onde teve como professores o poeta Anito José Steinbach e Dad Squarisi, e deixou implantada a primeira biblioteca dessa escola. Formou-se em Jornalismo pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB), período em que fez o Curso de Pesquisa de Campo (1974), que, por sua indicação, teve a coleta de dados toda captada em Silvânia. O trabalho final do curso resultou na publicação de um livro. Teve como professores os escritores Almeida Fischer, Esaú de Carvalho, Zita de Andrade Lima, Aluísio Valle e Luiz Beltrão, que o estimularam a frequentar a Associação Nacional de Escritores (ANE) desde os tempos de estudante. A professora Zita foi sua amiga até 2004, ano em que faleceu.          

   Fez estágio de jornalismo no extinto Correio do Planalto, monitorado na redação pelos jornalistas Archibaldo Figueira, Rachid Rachid e Mário Eugênio. Archibaldo Figueira seria um de seus grandes amigos. Com Archibaldo, Antônio Beluco e Marlan Rocha, todos falecidos, permaneceria infindáveis momentos no cafezinho da Câmara dos Deputados na companhia do jornalista Orlando Tejo, autor do livro Zé Limeira, o poeta do absurdo.

   Ingressou no serviço público em 1973, inicialmente na Fundação Educacional do Distrito Federal (exerceu atividades no setor central de pessoal, em zeladoria e em secretaria de escolas). A partir de 1977, no Ministério da Fazenda (esteve cedido por alguns períodos para os Ministérios do Bem-Estar Social e do Trabalho e Emprego). Nunca exerceria o jornalismo, pois, em razão de ser lotado na área parlamentar do Ministério da Fazenda, especializou-se no acompanhamento das atividades do Parlamento sem ter curso ligado às Ciências Políticas. Aposentou-se pelo Ministério da Economia em 1º de junho de 2021.

   Nos primeiros anos de atividade no Ministério da Fazenda, teve início a amizade com Ronaldo Peixoto Alexandre e Wil Prado, com os quais frequenta lançamentos, encontros de escritores, ouve os lançamentos da Música Popular Brasileira com o ímpeto do protesto contra a Ditadura. Esses laços de amizade nunca se romperiam, e continuam a render entrelaces de cultura e de laços familiares.

   O seu primeiro chefe (Dr. Gilberto), na Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Fazenda, instalou-o na sua própria sala de trabalho. Só no futuro entenderia que essa decisão visava vigiá-lo e orientá-lo, protetoramente, para não ser atingido por algum ato de represália da Ditadura por sua atuação literária. Esse chefe foi um dos seus grandes mentores, não só de incentivo à literatura, mas de conhecimento da história do Brasil, sobretudo do período da Era Vargas.

   Nos corredores do Congresso Nacional, era frequente o contato com algum escritor em visita a Brasília. Foi o caso de Lygia Fagundes Telles, que ele encontrou perdida nos corredores e ela encontrou nele o guia para localizar as pessoas que estava a procura. Pela segunda vez, os dois passaram uma tarde juntos. A primeira foi num simpósio de escritores em Caxambu, oportunidade em que ela pediu para ele ficar ao seu lado durante uma sessão de autógrafos. Saiu envaidecido desse evento, pois Lygia Fagundes Teles e Selmo Vasconcelos lhe disseram que ele era muito inteligente.

   Nesse simpósio de Caxambu, Salomão Sousa ouviu uma palestra de Adélia Prado e passaram a tarde conversando com escritores e estudantes. Lamenta que lhe tenha sido roubado o gravador em que se encontravam os depoimentos do encontro. Restam os registros fotográficos.

   A resenha que Salomão Sousa escreveu sobre o livro Bagagem, de Adélia Prado, publicada no Suplemento de Minas Gerais, foi citada na tese A invenção de um modo: movimentos líricos na poesia de Adélia Prado, de Silvana Athayde Pinheiro, na Universidade Federal do Espírito Santo, dentro do programa de pós-graduação, em 2019. Outras teses e trabalhos escolares citam seus artigos, sobretudo no ano de 2013, quando o livro Poesia, de José Godoy Garcia, com introdução de sua autoria, foi indicado para o vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG).

   Na década de 1970, participou, lateralmente, do movimento Poesia Marginal com Esbarros. Ao enviar um exemplar desse livreto a Jorge Amado, assim ele autografou no livro em que acusou o recebimento: Salomão Sousa, um poeta de primeira ordem — original e humano, sensível e consciente. Poesia que não é cera, é chama. Ao longo de sua carreira literária, vem publicando artigos, resenhas e poesias em revistas (sobretudo das instituições a que pertence), jornais, zines e páginas da web. Mantém os blogs Safraquebra, Literatura Goiana, Salomão Sousa. Procura manter-se conectado com aqueles que dão vivacidade à literatura do país.

   Como não há local conveniente para encaixar alguns tópicos das memórias, ficam aqui deslocados como os livretos de cordel na canastra. Primeiramente, o registro do encontro de Salomão Sousa, Renato Matos e Gustavo Dourado numa feira de livro de Brasília com o poeta Manoel de Barros. Puderam desfrutar a tarde toda de sua companhia, pois, além dos três, não compareceu vivalma ao lançamento! E também o caso das noites em que Salomão Sousa e Wil Prado ficaram à mesa com Jorge Amado. Esses fatos podem ser fakes. As fotos com Manoel de Barros existem, mas podem muito bem ter sido manipulação do IA; no entanto, o IA ainda não conseguiu reunir Salomão Sousa e Wil Prado num registro com Jorge Amado, Wander Piroli, João Antônio ou Ignácio Loyola Brandão.

Existir! Passar um dia à beira da piscina, sob a monguba, saudando o sol em companhia de Yêda Schmaltz! (mas se estendesse a mão,/tocaria, de novo, sua face). Pequenas interrupções nos interlúdios de não fazer nada para Yêda ir ao computador concluir algum retrato para a exposição das cem principais personalidades goianas. Retornar a Goiânia para a exposição das cem obras de Yêda Schmaltz e voltar para casa com o próprio retrato onde aparece ladeado por uma florida touceira de copos de leite.

Existir! O poeta José Godoy Garcia visitá-lo às vésperas da Páscoa, embebedar-se com rum e, enquanto o bacalhau é preparado, amassar os ovos de páscoa que aguardam o dia seguinte sobre a mesa. Almoçar e dormir no sofá. Acordar horas depois, perguntar quando o almoço será servido e ninguém conseguir convencê-lo de que já almoçou. Senta-se à mesa e serve-se uma segunda vez, fartamente. Existir! O poeta Cassiano Nunes repousar na rede da sua sala depois de ler o pequeno zine Chuço, que exigia receber cada número que circulava.

Existir! Invadir as casas de Herondes Cézar, de Brasigóis Felício ou de Nilto Maciel e a conversa fluir enquanto as crianças brincam de esconde-esconde atrás dos armários e debaixo das camas. Bate na porta e entra o irmão Goiamérico Felício. Ninguém se preocupa se alguém escarafuncha as narinas.

Existir! Invadir a biblioteca de Miguel Jorge e, com Tagore Biram, vararem a noite dançando inúmeros vezes o Bolero, de Ravel!  Cara a cara no quadrilátero afundado no centro da biblioteca como se vivessem milenarmente na tumba de Tutancâmon. Há dúvidas se o poeta Pio Vargas participava dessas invasões, mas fica aqui dançante para animar essas memórias. Tagore Biram desapareceria, pelos Andes chilenos, em seu eterno delírio etílico-poético, deixando perdida por lá a urna de cristal com seus últimos poemas.

Existir! Visitar Oswaldino Marques em Taguatinga e na Asa Norte e ficarem sós com quatro enormes caixas de som (uma em cada canto da sala) e ouvirem nos últimos decibéis existentes A sagração da Primavera, de Stravinsky. Os livros tinham sido deslocados para uma estante que atravessava toda extensão da cozinha. Foi a única vez que Salomão Sousa sentiu o exército de Napoleão avançar sobre ele.

Existir! Decidir não retornar ao trabalho para passar a tarde no gabinete de trabalho do Antonio Miranda, diretor da Biblioteca Nacional de Brasília. Assistir a reunião que ele promoveu com os funcionários. Antonio Miranda interpretou um texto para esclarecer as formas de atuar para alcançar resultados positivos no trabalho. Cada funcionário e também Salomão Sousa merecia certificado de participação dessa reunião.

 

Existir! Invadir a casa do poeta Esmerino Magalhães Jr. para revisar o novo livro e o trabalho se prolongar por dias, pois ele quer que as visitas sejam apenas para jogar conversa fora. Ouvir o elogio do Esmerino depois de ele ler o poema sobre o cavalo obrigado a trabalhar no asfalto da cidade: “Não faça poemas assim, senão fica difícil pra gente escrever!”. Toda vez que terminava a revisão de um poema, pegava o violão e entoava a canção “Barroquinha”, de sua autoria.

Existir também é desconhecimento. Nunca saber qual poema de sua autoria foi trabalhado numa escola da comunidade do Rio de Janeiro, no Dia da Poesia, junto com um poema de Carlos Drummond de Andrade. Um aluno, numa escola de Cametá, à beira do rio Amazonas, sentar-se num stand para representá-lo numa feira de Literatura. Existir!

Existir! Visitar o cemitério de Taguatinga de madrugada com estudantes da escola onde trabalhava — Chico Simões, do grupo Mamulengo Presepada, entre eles — para coletar impressões in loco e fazer uma matéria para o jornal da universidade. A deputada Manuela D´Avila lhe confessar que, após o expediente, descansa no gabinete lendo seus poemas, aos prantos — ela que não conseguiu visitar Mário Benedetti antes que ele viesse a falecer. O poeta também se descontrai como uma rês quieta no campo só balançando o rabo para espantar as moscas!

Existir! Deslocar-se de casa aos sábados para passar as tardes na livraria Literatura, que José Salles Neto mantinha num shopping do Plano Piloto. Auxiliava no atendimento da livraria pelo prazer de conversar com os clientes e saber que alguém estaria em casa lendo um livro indicado por ele. Quase sempre A crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso. Esmerino Magalhães Jr. e Wil Prado eram companhias certas. Dessa época, guarda o poema O corvo, de Edgar Alan Poe, na tradução de Machado de Assis, que o Salles lhe presenteou. O poema está datilografado pelo próprio Salles em papel A3 e guardado num tubo desses de armazenar plantas de arquitetura. O Salles só não foi com Salomão Sousa ao cemitério de madrugada porque ainda não se conheciam à época da visita. 

Existir! Ir ao supermercado comprar frutas e uma dama, de semblante tecido de olhares resplandecentes, desejar-lhe bom dia. Retribuir a saudação e afastar-se sentindo o dia mais encorpado de certezas. Depois notar que a dama ia cumprimentando todos que cruzavam por seu caminho. Não era a mesma dama que saudou várias vezes Salomão Sousa e o irmão José Aparecido de Sousa em outro supermercado. Essa outra mulher talvez tivesse esquecido de trocar de roupa quando saira de casa. Ou, simplesmente, decidira deixar o mundo mais exposto à alegria. Quando se abaixava e se elevava para arrumar as compras no carrinho, o baby doll a cobria e a descobria. A sociedade deveria designar algumas pessoas para se postarem nas ruas e nas praças só para cumprimentar todos que transitam. Um mover de mão, de um lenço, gestos quase despercebidos pelo rastrear dos olhos — e os dias se purificam de toda rudeza! Ninguém iria mais se preocupar com o ruído do ar condicionado, se há deserto ou o ódio armado do inimigo.

Existir! Você estar em casa almoçando e um astrólogo entrar porta adentro para ler seu mapa astral. Saiu de Goiânia (GO) até a Ceilândia (DF) para conferir se Salomão Sousa era realmente a pessoa de alto astral que ele sentiu ao ler um seu artigo. Diante de toda a família, saca o mapa astral e faz a leitura plena de vaticínios animadores. Existir! Você transitar pela Via W3 e uma estudante lhe botar a mão no peito, interrompendo o seu percurso, e recitar um poema de sua autoria. O astrólogo e a garota partiram, num relâmpago, sem deixarem cartão de visita. Poderiam os três, nesse momento, estarem no mesmo palco num recital eterno de boas previsões. Ou visitando uma das dezenas  de luas de Saturno.

Existir! A Francisca reclamar: Você não tem família? Não vai contar que começamos em quartinhos de fundos, e que amamos sobre as areias do rio Corumbá com o gado bufando em nossas orelhas de madrugada? Se não contar, vai ter de tirar os livros das cadeiras e da escada!

   Poucos fatos se assemelham a eventos assombrosos de uma narrativa de Edgar Alan Poe e ficam agourando sobre a porta como o corvo do poema. Um ou outro indivíduo não deve entrar para a história quando deixa de compreender que a liberdade não pode ser retirada de nenhuma ambiência, seja da ambiência da literatura ou da vida privada e social.

    Em certo aniversário da poeta Yolanda Jordão, Salomão Sousa foi parar na festa arrastado por um convidado. Ao entrar na sala, Antonio Carlos Osório, que já tentara impedi-lo de ler um poema de José Godoy Garcia num sarau, valeu-se de seu modo peculiar de agredir com expressões inconvenientes: Chegou o tártaro indesejado. A expressão contém a intolerância de todo aquele que deseja erguer muros e becos em torno de si para viver atrás de uma barreira por julgar que o universo está sob seu domínio. São as personalidades inconvenientes. Exigem dos outros aquilo que elas mesmo não praticam. Depois de impressas ou ditas, as expressões entram na memória, tornam-se lendas e não mais se extinguem. Antônio Carlos Osório chegou a censurar a publicação de um poema de Salomão Sousa na Revista da Academia Brasiliense de Letras por não concordar com um verso de conotação sexual.

    As figuras bizarras julgam com maledicência que os outros serão sempre tártaros — preferem mencionar civilizações perdidas para se desobrigarem do acolhimento. São personalidades doentes, que enxergam e exigem dos outros aquilo que negam em si mesmas, e muito menos praticam. Ao contrário da perdida civilização tártara, Salomão Sousa teima em existir, visivelmente, sem desaparecimento.

 

Entram as bisnetas na sala

e trazem um bode.

O poeta dá saltos e berros

para brincar como pode.

 

   Com a experiência do zine Chuço, que manteve nos anos 1990, Salomão Sousa passou a refletir sobre as mudanças das relações humanas e dos meios de comunicação em razão do avanço da tecnologia e do crescimento do uso das redes sociais. Em carta ao amigo Herondes Cézar de Siqueira, em 1992, antecipa discussões que passariam a ocupar o dia a dia dos cientistas sociais:

    Não sei quando escrevi a última carta. Também isso não me apavora nem me entristece. É a contingência de um mundo que traiu o homem pela eletrônica. Só me entristeço ao sentir a ameaça à memória. Num futuro já em vivência, será muito difícil reconstruir a história individual e até mesmo a história de um povo. Vivemos sem registro, ou então de forma fragmentada. E, no instante da montagem, faltarão várias peças. As decisões, os sentimentos, terão passado por fios, células. O homem cada vez mais se escondendo nas facilidades da comunicação. (…) É uma maré que nos integrou em suas ondas, e não permite ao menos vislumbrar uma praia, uma enseada, em que possamos ficar esquecidos ao menos como destroço. A via é sinuosa, onde, cambaleantes, bambos, vamos de forma definitiva. (…) Precisamos continuar com nossa ternura, mas sem rostos, integrados na massa fria, para não permitir a derrocada maior.

   Basta ver a previsão de que o universo da divulgação e discussão da literatura deixariam de passar pelas cartas e pelas colunas dos jornais, mas não poderia entender que parte dessa questão migraria para o ambiente virtual, pois as redes sociais só surgiriam depois de décadas. No mesmo período, em outra carta, improvisou um poema que repassa paisagens da infância e as intercala às paisagens da época. Um trecho desse poema inédito, que exalta a paz com que conduz a própria vida:

Está tudo ordenado. Tudo na mais santa claridade.

Quanto sol na goiabeira acentuando a poeira fina sobre as folhas!

Estou imerso numa ausência de tudo,

numa sensação de que nada perdi, apenas temporariamente

sem encontrar um terreiro, assim como na fazenda do Zequinha,

cheinho de gabiroba e gravatás.

Não há lembrança maior do que de uma touça de gravatás,

com suas flores vermelhas, suas bagas quase doces.

Há desesperos que funcionam como vidro

– assustam-se ao menor clamor, partindo-se

ao menor toque. Todo movimento retesado

não suporta o peso de um corpo.

Onde estarão as quadras que fiz aos nove anos?

Haverá um depósito delas num paraíso de Dante?

   Mereceu breve carta do poeta Carlos Drummond de Andrade na oportunidade da publicação de A moenda dos dias, de 1979, seu primeiro livro. Receberia outros dois cartões do poeta itabirano. Na carta, de 23.8.1980, Drummond menciona o poema Ladainha da cidade dura, que trata da Ceilândia (cidade satélite do Distrito Federal onde Salomão Sousa residia à época em que o escreveu dentro dos ônibus no percurso de volta do trabalho para casa). Merece melhor estudo para identificar se o poema de Salomão Sousa serviu de gênese para a elaboração da parte 19 (Confronto) do poema Favelário nacional, inserido no livro Corpo (1984), no qual Drummond também confronta a posição da Ceilândia diante da Capital Federal.

   Manteria correspondência com diversos escritores, tais como Armindo Trevisan, Carlos Nejar, Djami Sezostre, Fábio Lucas, Francisco de Carvalho, H. Dobal, Henriqueta Lisboa, Ilma Fontes, João Antônio, Jorge Amado, Jorge Medauar, Leila Miccolis, Oswaldino Marques, Otávio Afonso, Sérgio Campos, Tanussi Cardoso, Uilcon Pereira, Urhaci Faustino, Wander Piroli.

   Além de citações em artigos e cartas de distintos autores, a obra de Salomão Sousa vem merecendo exposição em escolas e abordagem crítica de diversos autores, aos quais reconhece a honra da distinção de suas palavras. Certamente, a lista aparece incompleta.

Adalberto de Queiroz

Adelto Gonçalves

Aidenor Aires

Alexandra Vieira de Almeida

Alessandro Eloy Braga

Altimar Pimentel

Ana Ramiro

Anderson Braga Horta

André de Leones

Antônio da Costa Neto

Astier Basílio

Cleonice Rainho

Esmerino Magalhães Jr.

Euler Belem

Fernando Py

Geraldo Lima

Gerson Valle

Goiamérico Felício

Hildeberto Barbosa Filho

João Carlos Taveira

José Fernandes

José Godoy Garcia

José Guillermo Vargas

Kori Bolivia

Leo Barbosa

Ligia Cademartori

Lina Tâmega Peixoto

Lívio Oliveira

Marcos Fabrício Lopes da Silva

Manoel Hygino

Naomi Hoki Moniz (EUA)

Nilto Maciel

Raul Christiano Sanchez

Ricardo Alfaya

Rogério Salgado

Ronaldo Cagiano

Ronaldo Costa Fernandes

Selmo Vasconcelos

Sérgio de Castro Pinto

Sônia Elizabeth Nascimento Costa

Teresinka Pereira

Whisner Fraga

Wil Prado

Valdivino Braz

Vassil Oliveira

Zanoto

 

Destaques

Vencedor do certame de recitação de poesia do Ginásio Anchieta, realizado no Cinema Municipal de Silvânia, em 1969, com o poema A vingança, de Fagundes Varela. Trata-se do único evento literário de que foi participante assistido por seu pai João Miguel Bento. O prêmio foi um corte de brim azul para confecção de uma calça. Nessa mesma época, atuou em duas peças teatrais apresentadas para a população silvaniense também no Cinema Municipal, dirigidas pela professora Nair e por Tadeu Tallon.

Bibliotecário na Biblioteca Pública Municipal Coronel Pireneus de Silvânia, em 1970. Nessa época, recebeu o primeiro elogio por seus poemas. A professora Glorinha, que era a moça mais elegante da cidade, entrou na biblioteca com o namorado de Goiânia, e perguntaram a ele o que estava escrevendo na máquina de datilografia. Ao saberem que estava produzindo poesia, pediram uma para ler. Cochicharam perto das estantes que o poema não podia ser dele, que devia ter sido copiado de algum livro do acervo da biblioteca.

Emissão do Certificado de Bons Antecedentes por Francisco Herculano Lobo — o Biú —, delegado de Polícia de Silvânia (GO), em seu nome, em 4.1.1971. (Era necessário, nos anos 1970, que, ao se transferir de cidade, o cidadão brasileiro fosse portador desse documento para evitar possíveis dissabores com os órgãos de repressão da Ditadura.)

Participação do seminário promovido em 1974, pela Fundação Cultural do DF sobre “Semiologia”, sendo debatedores os intelectuais Décio Pignatari, Mônica Rector e Guilherme Merquior.

Curso de “Pesquisa de Campo”, extracurricular, pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília, de 10.04 a 10.7.1974.

Entrevista o escritor Bernardo Élis na oportunidade de sua controversa eleição para a Academia Brasileira de Letras, publicada no Correio Braziliense, edição de 15.8.1976.

Participação do VII Simpósio de Literatura da Fundação Cultural do Distrito Federal, Brasília-DF, de 20 a 23.4.1976. Debatedores: José Aderaldo Castello, Dirce Cortes Riedel, Leyla Perrone Moisés e Nelly Novaes Coelho.

Participação intrusa no Encontro Nacional de Escritores da Fundação Cultural do Distrito Federal de 1977 para se manifestar contra o excesso de formalismo dos debates.

Participação do Curso de atualização de Professores para a utilização do livro didático, promovido pela Divisão de Cursos de Aperfeiçoamento, Treinamento e Extensão da Fundação Educacional do Distrito Federal, Brasília - DF.

Inclusão de poemas de sua autoria na peça Aos trancos e barrancos, de Esmerino Magalhães Jr, apresentada em 1980.

Participação de quatro ciclos de palestras da FUNARTE/UnB — 1) O olhar, em 1980; 2) Tradição e contradição, em 1986; 3) Os sentidos da paixão, em 1987; 4) O desejo, em 1989 — perfazendo um total de mais de 80 palestras de intelectuais brasileiros.

Participação do ciclo de palestras com Frederico Morais sobre “Criação atual”, em 1975.

Participação, nos anos 1980, de recitais públicos em praças de Brasília contra o apartheid da África do Sul.

Resenha publicada na revista da Universidade de Harvard/EUA sobre A moenda dos dias, seu primeiro livro, por Naomi Hoki Moniz (EUA), na Revista Ibero-americana, vol. 50, de março de 1984.

Participação do Encontro de Escritores em Goiás “Independência ou Morte?”, promovido pela União Brasileira de Escritores (UBE), Seção de Goiás, em Goiânia, de 13 a 16.6.1985.

Debatedor da Mesa Redonda “A Poesia Nova Brasileira: Corpo Físico Social”, abordado pelo escritor Mário Chamie, no Encontro Nacional de Escritores da Fundação Cultural do DF, de 5 a 9.9.1985.

Participação do Seminário Nacional “Brasil: A cultura em questão”, em Batatais (SP), 1987.

Participação do seminário “Falando em Leonardo”, nos dias 17 e 18.8.1987, realizado no Teatro Nacional de Brasília, numa promoção da IBM/Museu Nacional de Belas Artes. Palestras, entre outros, de Antonio Callado, Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant”Anna.

Participação do II Encontro Nacional de Escritores em Goiás – Centenário Cora Coralina, em 1989.

Publicação do zine Chuço, xerocopiado em papel A4 (dezenove números entre 1995 e 1998).

Participação do I Encontro Estadual de Escritores, realizado em Caxambu (MG), em 1996.

Debatedor do tema “O escritor e o Editor”, apresentado pelo jornalista e escritor Ivan Ângelo, no 2º Encontro Estadual de Escritores, São Lourenço (MG), 1997. Mais de 150 professores assistiram ao debate, que foi coordenado por Adolfo Maurício, da AMAG (associação das prefeituras da região das Águas).

Participação da reunião na Associação Nacional de Escritores com o poeta Pedro Tierra, Secretário de Cultura do Distrito Federal, que exigiu “participação social” das obras produzidas pelos escritores.

Prêmio Capital Nacional do Ano 98 de Crítica Literária, reconhecimento Público da Resistência ao Ordinário pela edição do zine Chuço, do jornal O Capital, de Aracaju (SE).

Participação do seminário “Idioma e Soberania – Nossa língua nossa Pátria”, promovido pela Câmara dos Deputados, em 2000.

Depoimento na Academia Piracanjubense de Letras e Artes, em Piracanjuba (GO), em 20.10.2007.

Homenageado pelo grupo Novo Palas em evento realizado em junho de 2007, na Biblioteca Pública Municipal Coronel Pireneus, com banners que ficaram expostos na agência da CAIXA e correram pelas escolas públicas do Município de Silvânia. Escritores presente ao evento: Antonio Miranda, Fábio Coutinho, Euler Belem, Robson Corrêa de Araújo e Vassil Oliveira, que fez a apresentação do homenageado.

Artigo em formato de diálogo em coautoria com o poeta Victor Sosa, que faleceu no México depois de contribuir com experiências para a poesia neobarroca. Com apresentação de Ronaldo Costa Fernandes, o artigo foi publicado no Rascunho e na revista do PCdoB.

Homenageado do aniversário dos dez anos do projeto Noite Cultural T-Bone, ocasião em que foi batizada a biblioteca do ponto de ônibus da 713/14 Norte com seu nome. Evento realizado em 28.2.2008.

Integrou o corpo de jurados do Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade, em 2008 e em vários outros anos.

Palestrante das quintas literárias da Associação Nacional de Escritores com os seguintes temas: 1) O Sal que nos tempera e o Insosso que nos Vela, em 20.10.1998; 2) Recorte sobre a poesia brasileira contemporânea, em 13.5.2003; 3) A centenária vitalidade de Pablo Neruda, em 20.4.2004; 4) Poesia Neobarroca ou a Pós-Vanguarda, em 10.5.2006; 5) A gênese de um poema de Joseph Brodsky, em 16.5.2006; 6) Panorama da Poesia Goiana, em 7.8.2008; 7) Análise da relação da Poesia com a Modernidade de Brasília, em 3.11.2009.

Entrevistado por Antonio Miranda em canal do Youtube, em 2010. A entrevista permanece disponível na rede.

Participação da 6ª. Feira do Livro de Bom Despacho e Cidades Vizinhas, nos dias 29 e 30.9.2011, com debates e recitais em companhia dos escritores Jacinto Guerra, Napoleão Valadares, Alaor Barbosa, Cláudia Coutinho Bernardes e Nilce Coutinho Guerra e de diversos autores da localidade. Da viagem, produziu a crônica Viagem com Guimarães Rosa a Bom Despacho, que foi publicada em Brasília e em Belo Horizonte.

Homenageado no trigésimo Primeiro Sarau do grupo Poemação na Biblioteca Nacional de Brasília Leonel de Moura Brizola, em 4.12.2012.

Participação da Quinta Literária da Associação Nacional de Escritores, de 28.10.2013, destinada ao lançamento do livro Brasilianas, antologia de 30 poetisas. Debate com os organizadores: José Vargas, Antonio Miranda e Salomão Sousa.

Representante da língua portuguesa, em 2014, do VI Festival las Lenguas de América/Carlos Montemayor, do Centro Cultural Universitário, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Visita às pirâmides dos maias dentro da programação do evento.

Convidado, em 2016, do evento de Poetas José López Coronado, realizado na cidade de Chota, região e Cajamarca, Peru, com participação de mesas de debate, saraus poéticos e visitas a entidades culturais.

Participou de dois eventos em homenagem ao poeta José Godoy Garcia: 1) palestrante do Tributo ao Poeta na Biblioteca Nacional de Brasília Leonel de Moura Brizola de Brasília, em 2008; e 2) depoimento na mesa do evento dedicado ao centenário do poeta realizado em Jataí (GO), sua terra natal, em 2018.

Conferência no projeto Tributo ao Poeta, da Biblioteca Nacional de Brasília, em homenagem a Jamesson Buarque, com participação especial de Anderson Braga Horta e Margarida Patriota, em 30.3.2017.

Participação em Quito (Equador) do II Festival Internacional de Poesia Equinoccial, de 18 a 20.6.2017. Depoimento na Faculdade de Comunicação da Universidade Central de Quito; leitura de poemas no tradicional Café Livro de Quito; apresentação na Unidade Educativa Municipal “Eugenio Espejo” e na Faculdade de Filosofia da Universidade Central; na UNASUR, ao lado do Monumento “Mitad del Mundo”, em Quito, apresentou alguns autores da moderna Poesia Brasileira, tais como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Hilda Hilst, Luci Collin, Antonio Moura e Jamesson Buarque.

Expositor na mesa-redonda “A poesia goiana sob a perspectiva crítica”, do I Colóquio de Poesia Goiana, na Universidade Federal de Goiás, com Antonio Miranda e Heleno Godoy, sob moderação de Rogério Canedo.  Evento realizado nos dias 12 e 13 de junho de 2017.

Expositor do painel “A poesia paraibana entre a formação docente e o cenário brasileiro”, com Expedito Ferraz Jr. e mediação de Danilo Peixoto, no evento Agosto das Letras, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa (PB). Em seguida, acompanhou a apresentação, no mesmo palco, do poeta Sérgio de Castro Pinto. 20.8.2017.

Convidado da edição do Coletivo realizada no Visconde Café, em homenagem ao poeta Mário Faustino. Fez uma mini conferência e leu poemas. Brasília (DF) — 25.8.2017.

Participação do desfile do aniversário de Silvânia, em 2017, como representante, junto com a escritora Cida Sanches, dos escritores da cidade, como convidado da escola Dulce Alves.

Participação do Encontro Internacional de Poesia Ibagué em Flor, em Ibagué, Colômbia, em fevereiro de 2018, participação de mesas de debate, saraus e visitas a entidades culturais.

Debatedor no Seminário “Os caminhos da Literatura do Distrito Federal”, do Sindicato de Escritores do DF, em 9.8.2019.

Depoimento concedido ao poeta Sérgio de Castro Pinto publicado na Revista Correio das Artes, Ano LXX, nº 10, de dezembro de 2019, encartado no jornal A União. de João Pessoa (PB).

O canal “A Voz Literária — Histórias, Vivências, Livros”, de Cristiane Tolomei, apresentou resenha pelo YouTube sobre o livro Poéticas e Andorinhas., em 21.2.21.

Debatedor em live do canal Tome Poesia, Tome Prosa, de 21.9.2021, de Jéssica Iancoski, ao lado de Paulo Sandrini e Vanessa Alves e mediação de Antônio Mariano.

Encenação do poema Primeira biografia da borboleta, no canal “Do InVerso a Toda Prosa”, de ator Antonio Cunha, disponível no YouTube.

Na terceira edição do livro A Poesia em Goiás, de Gilberto Mendonça Teles, Goiânia : UFG, 2019, é mencionado no novo prefácio preparado pelo autor entre os poetas goianos que “não podem ser ignorados”, pois a primeira edição é de 1964 e não foram feitas alterações nas edições posteriores.

Palestra na Academia Goiana de Letras (AGL), em 30.5.2019, sobre o tema “Argumentações a partir de Byung-Chul Han.

Participação de mesa redonda no Museu Frei Canfaloni, na antiga Estação Ferroviária de Goiânia, a convite da poeta Maria Abadia Silva, que moldou os eventos do museu e da AGL.

Inclusão de material de sua autoria na Mostra Visual de Poesia Brasileira — Poesia em Movimento — curadoria do poeta Artur Gomes, na Biblioteca Municipal de São Francisco de Itabapoana-RJ, em 2.12.2023.

Debatedor na live da Academia de Letras do Brasil, com Anderson Braga Horta, Marcos Freitas, Kori Bolívia, Márcio Catunda e Flávio Kothe. Apresentou pequena introdução sobre poesia e leu quatro poemas novos sobre o atual tempo de conflitos. 8.3.2023.

Homenageado em 25 de julho de 2023 pela Academia de Letras de Brasília (ACLEB) pela passagem do Dia do Escritor. Foi veiculado banner nas redes sociais com seu nome ao lado de João Almino, Nicholas Behr e de Maria de Lourdes Borges. O texto do banner diz que “Salomão Sousa é popular pela lírica e reflexiva”.

Convidado da live produzida pelo jornalista e poeta Antonio Carlos Queiroz para o programa República Popular das Letras, com abordagem de três temas: a) trajetória de vida e experiência literária; b) a importância da poesia de José Godoy Garcia) e c) breves observações sobre a poesia de Brasília.

Expositor convidado do ciclo de lives realizada pela poeta Noélia Ribeiro, com Reynaldo Damazio e Iracema Ribeiro, para leitura de poemas e manifestação sobre o ato de escritura poética. A live permanece disponível no Youtube. Em 4.4.2023.

Participação da Maratona de Poesia, iniciativa do Sindicato dos Escritores do DF (Sindescritores), em parceria com o Instituto Fazer o Bem e com o Museu de Arte de Brasília, em homenagem a Anderson Braga horta. A ação contou com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF (SECEC). 20.5.2023.

Leitura de poemas de sua autoria no canal Toma Aí um Poema, de Jéssica Iancoski, disponíveis no Spotify.

Participação do 11º Mexidão Cultural do Condomínio, Asa Sul, Brasília/DF, em 2025 e em anos anteriores, com leitura no sarau e participação nas antologias poéticas disponibilizadas na Amazon Prime. O poeta Marcos Freitas é organizador do evento e das antologias.

Convidado do encontro poético, em 12.3.2025, com Antônio Moura, evento que traz apresentação da trajetória dos poetas e leitura de poemas pelos próprios autores. O canal Encontro Poético visa disseminar a literatura, idealizado pela poeta Chris Resplande, em parceria com o Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás.

Debatedor, com a poeta Kamilly Barros, da live promovida pela Academia de Letras do Brasil destinada a abordar o tema “Alteridade e consciência que ama”, em 14.3.25.

 

Honrarias

 

Núcleo Bandeirante – honra ao mérito concedido pela Administração Regional

Silvânia – título de Cidadão Silvaniense concedido pela Câmara Municipal

Ministério da Fazenda – Diploma de Desempenho Funcional

Governo do Estado de Goiás – Diploma de Destaque Cultural do Ano de 2019

UBE/GO – Troféu Tiokô como personalidade goiana que mais se destacou fora do Estado no biênio 2010-2011

Brasil Escola — Por ocasião da comemoração do Dia do Poeta, em 2023, o site Brasil Escola divulgou matéria sobre a Poesia Brasileira, com a inclusão de seu nome numa lista de 30 “mais renomados poetas brasileiros”, com breve comentário sobre cada um deles.

 

 

Entidades a que pertence

 

Associação Nacional de Escritores

Academia de Letras do Brasil (ALB)

Academia Flor do Vale de Ipaussu (correspondente)

Academia de Letras Artes e História de Silvânia (ALHAS)

Academia Mundial de Letras da Humanidade

Academia Itaperunense de Letras (correspondente)

 

Obras individuais

 

A moenda dos dias, ed. Coordenada, Distrito Federal, 1979.

A moenda dos dias/O susto de viver, convênio INL/ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980.

Falo, Thesaurus Editora, Distrito Federal, 1986.

Criação de lodo, edição do autor, Distrito Federal, 1993.

Caderno de desapontamentos, edição do autor, Distrito Federal, 1994.

Estoque de relâmpagos, prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, Brasília-DF, 2002.

Ruínas ao sol, prêmio Goyaz de Poesia, São Paulo: Ed. 7Letras, 2006.

Safra quebrada (reunião dos livros anteriores e de dois inéditos: Gleba dos excluídos e Marimbondo feliz), publicado com recursos do FAC, Brasília-DF, 2007.

Momento crítico, de textos críticos, crônicas e aforismos, Brasília: Thesaurus Editora/FAC Fundo de Apoio à Cultura, 2008.

Vagem de vidro, edição do autor, Brasília-DF, 2008;

Despegues y ressonancias, plaquete de poesia, Peru, Lima: Maribelina, Casa do Poeta Peruano, org. e apresentação de José Guillermo Vargas.

Descolagem (poemas éditos e inéditos e algumas traduções para o espanhol), edição do autor, Goiânia: Editora Kelps, 2016.

Desmanche I, edição do autor, Brasília-DF, 2018.

Poética e andorinhas (artigos), edição do autor, Brasília-DF, 2018.

Cascos e caminhos, edição do autor, Brasília-DF. 2020.

Bifurcações (artigos sobre literatura e de Psicologia Social), edição do autor, Brasília-DF, 2022.

Certezas para as madressilvas, capa com linoleogravura de Beto Nascimento, edição do autor, Brasília-DF, 2024.

Poesia e alteridade (artigos sobre literatura e de Psicologia Social), edição do autor, Brasília-DF, 2024.

A selva escura dos cristais perdidos, edição do autor, Brasília-DF, 2026.

 

 

Obras coletivas

 

Esbarros, vols. 1 e 2, edições mimeografadas, com Ronaldo Peixoto Alexandre e Wil Prado, apresentação de Ary Quintela, Brasília-DF, 1979.

Em canto cerrado (org.), Coordenada, DF, 1979.

Conto candango (org.), Coordenada, Brasília-DF, 1980.

Horas vagas, org. de Joanyr de Oliveira, Senado Federal, DF, 1982.

Mutirão de poesia, Cultura Contemporânea, Rio de Janeiro – RJ, 1983.

Mostra visual de poesia brasileira, Centro Cultural, Campos – RJ, 1983.

Fala satélite (em conjunto com Menezes y Morais), Núcleo Bandeirante, Brasília, 1986.

Versos e traços, prêmio Poema Cartaz, promoção do restaurante Moinho, Brasília-DF, 1987.

Lauréis, Vol. II, João Scotecci Editor, São Paulo, 1987.

Enciclopédia de literatura brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa; Rio de Janeiro: Ministério da Educação, Fundação de Assistência ao Estudante, 1990.

Antologia da poesia brasileira, org. de Olga Savary, Fundação Rioarte, ed. Hipocanpo, Rio de Janeiro, 1992.

Caliandra – poesia em Brasília, org. de Alan Viggiano, André Quicé Editor, Distrito Federal, 1995.

Via verso, Prefeitura Municipal de Ourinhos-MG, 1995.

Catálogo da produção poética impressa nos anos 90, editora Blocos, Rio de Janeiro, 1995.

Valores da poesia – antologia poética, João Scorteci Editora, São Paulo-SP, 1996.

Cronistas de Brasília, Vol. II, org. de Aglaia Souza, Thesaurus, Brasília-DF, 1996.

A poesia goiana no século XX, org. de Assis Brasil, Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira/Editora Imago, Rio de Janeiro, 1997.

In/sacando a poesia, org. Rogério Salgado, Belo Horizonte (MG), 1997.

Goiás, meio século de poesia, org. de Gabriel Nascente, editora Kelps, Goiânia-GO, 1997.

Anto, edição comemorativa dos 500 anos de descoberta do Brasil dedicada à Poesia Brasileira, Portugal, 1998.

Poesia de Brasília, org. de Joanyr de Oliveira, editora 7Letras, patrocinada pelo FAC/Secretaria de Cultura do DF, 1998.

A literatura brasiliense, de Wilson Pereira, Universa Editora, da Universidade Católica de Brasília, 1999.

Pensamentos da literatura brasileira, org. de Napoleão Valadares, Brasília, 2002.

Sob o signo da poesia – Literatura em Brasília, Anderson Braga Horta, Brasília: Thesaurus/FAC, 2003.

Geografia poética do Distrito Federal, org. Ronaldo Alves Mousinho. Brasília: Thesaurus Editora, 2007.

Tributo ao poeta, vol. I, (organizador). Biblioteca Nacional de Brasília, Brasília/DF : Thesaurus Editora, 2008.

Deste Planalto Central – poetas de Brasília (Org.), FAC/Ed. Thesaurus/ Biblioteca Nacional de Brasília/Câmara do Livro do Distrito Federal, 2009.

Poetas de Brasília, oficina de Dulcinéia Catadora, Biblioteca Nacional de Brasília, s/d (2009).

Da poética candanga – poesia sobre poesia, de Climério Ferreira, Brasília-DF, Casa das Musas, 2010.

Poesía en transito, org. de Sylvya Long-Ohni, Argentina, 2010.

Fincapé – coletivo de poetas, org. Menezes y Morais, Brasília DF: Thesaurus Editora, 2011.

A arquitetura verbal de Nilto Maciel, org. João Carlos Taveira, IMPRECE Editorial, Fortaleza - CE, 2012.

Poemas de Salomão Sousa em cartões para o Natal (caixa), edição especial de Edson Guedes de Morais, editora Guararapes EGM, Jaboatão dos Guararapes-PE, 2012.

Dicionário de escritores de Brasília, org. de Napoleão Valadares, Brasília: André Quicé Editor, 2012.

A fortuna poética de João Carlos Taveira – lições de poesia, org. Alan Viggiano, Editora Ideal Ltda., Brasília-DF, 2012.

Delirium Tremens – tríade poética: Antonio Miranda, Zenilton Gayoso, Salomão Sousa. Brasília, DF: Poexílio, 2014. Edição alternativa de 12 exemplares.

O amor no terceiro milênio. Organização de Vilmar Silva. Belo Horizonte: Anome. 2015.

Sublimes linguagens.  Org. de Elizabeth Caldeira Brito. Goiânia, GO: Kelps, ilus. 2015.  

Linguagens - Lenguagenes /Edição bilíngue Português / Espanhol. Org. Menezes y Morais; tradução Carlos Saiz Alvarez, Maria Florencia Benítez, Lua de Moraes, Menezes y Morais e Paulo Lima. Brasília, SD: Trampolim, 2018.

Do medieval das beiras do rio Calvo à hipermodernidade de Brasília. Discurso de posse na Academia de Letras do Brasil. Cadeira nº 10. Precedido pelo discurso de recepção da acadêmica Kori Bolivia. Brasília, DF: 2019.

Poemas. Jaboatão. PE:  Editora Guararapes EGM, 2014.  58 p; ilus. col. Texto de apresentação: João Carlos Taveira. Editor: Edson Guedes de Moraes. Edição artesanal, tiragem limitada.

Imagens Literárias: a realidade e o sonho. Antologia 2020 – UBE – PB: autores    paraibanos e convidados.  Itabuna, Bahia: Mondrongo.

Provérbios da lama. Antologia poética. Org. Rodrigo Starling.  Belo Horizonte:  Starling, 2020.

Almanaque calendário 2020 - agenda Poética. Editor: Edson Guedes de Moraes. / Jaboatão, Pernambuco: Editora Guararapes.

Novo Decameron. Antologia poética. Org. Rodrigo Starling, Belo Horizonte: MG; 2021.

Cinco poemas. / Jaboatão, PE: Editora Guararapes, s.d. 30 p. ilus. Editor: Edson Guedes de Morais. 

Cena poética 8, incluindo contos.  Editor: Rogério Salgado.  Belo horizonte, MG:  RS Edições & Baroni Edições, 2022.

Poesia salva, salve poesia. Org. Valter Silva. Brasília: Tagore. 2022.

Brasilidade: poesia e crônica para una sexagenária desamada. Menezes de Moraes (organização e micro ensaio). Edmilson de Figueiredo (fotografias). Brasília, DF: Trampolim Editora e Eventos Culturais Eirelli, 2022.

Tempos adversos. Celeiro Literário Brasiliense Leia-me. Brasília: Artletras. 2022.

Poemas e poetas da Ilha da Magia. Florianópolis: Artecultura. 2022.

Contraste da América: antologia de poesia brasileira. Organizador Djami Sezostre. São Paulo, SP: Editora Laranja Original, 2022.

Candangoianos, na poética brasiliense/org. de José Sóter. Brasília, DF: SEMIM, 2024.

ABH e a metafísica de Orfeu. Textos de Márcio Catunda (org.) Danilo Gomes, Edmilson Caminha, Flávio Kothe, Napoleão Valadares, Salomão Sousa em homenagem a Anderson Braga Horta. Brasília: Tagore Editora, 2024.

1100 tercetos filosóficos, científicos e poéticos, org. Antonio Miranda, poexílio, 2024.

Poetas Brasileiros de todos os tempos e contos, antologia organizada por Wanderley Beraldo, Clube dos Autores, 2024.

Antologia selvagem: um bestiário da poesia brasileira contemporânea. Org.de Alexandre Bonafim. São Paulo: Editora Cavalo Azul, 2025.

Coletivo de Poetas — Trinta e cinco. Org. Menezes y Morais. ACE Editora, Brasília-DF, 2025

 

Iconografia

Eu e Francisca com a comadre Luiza e Ronaldo Alexandre
Marcos Fabrício
Wil Prado

 Lina Tamega Peixoto saudades eternas

Discurso de recepção na Academia de Letras do Brasil

 Kori Bolivia

Neste momento eu gostaria de ter alguns anos a menos para poder brincar como o fazia antigamente. Não que eu agora não brinque, mas a brincadeira era bem outra.

Hoje gostaria de brincar de apresentar a vocês as coisas bobas com as quais eu me distraía e que, de repente, tornaram-se matéria-prima e já não consigo vê-las como bobas, mas sim como ideias que se tornam pensamentos e pensamentos que se convertem dentro da mente em mecanismos que acabam funcionando como parte de sistemas complicados que, por meio das mãos, se depositam em papéis como palavras, que formam poemas que acabam sendo parte de poemas em livros, em jornais, boletins e discursos.

Hoje não vou brincar, minha palavra tem outra missão, que é a de apresentar uma pessoa que há alguns anos conheci pessoalmente, quando ouvi falar de um jornalzinho de literatura ainda no último ano do século passado: o zine Chuço, do qual viram a luz 18 números. Ele foi editado pelo poeta Salomão Sousa, para resistência, segundo ele, a um editorial do editor do caderno de cultura do principal jornal de Brasília, que disse ser “desanimador ver uma cidade concebida de forma tão original gerar não talentos compatíveis com a criatividade de suas linhas e sim um punhado de poetas bisonhos e escritores medíocres”.  No primeiro número do Chuço, Salomão Sousa, através de pequenos tópicos, faz um balanço cultural da relação entre imprensa, literatura e política em Brasília. São questões que perduram até hoje:

              

“Os meios de comunicação como podem ser comprados pelas forças políticas e pelos domínios econômicos, são pagos para silenciar os intelectuais. As forças políticas e econômicas são inimigas dos formadores de opinião. Onde há conhecimento, esclarecimento público, não pode haver domínio do político e do econômico como forças desvinculadas do social. (...)”.

 

               No último tópico desse primeiro número, Salomão Sousa já enfatizava a questão que dominará os debates que até hoje se desenrolam: “O homem, ao perder a ética e a educação artística, não tem outra forma de se expressar a não ser pela violência.” Gostaria de salientar que, entre os vários seguidores, o Chuço contava com o entusiasmo de poetas como Cassiano Nunes e Antonio Miranda. A pequena publicação foi ganhando visão pelo Brasil, consolidando as relações de seu autor com uma rede de editores de zines e teve como irmão em Brasília o chamado Jornal do Alan. Em1998, o Chuço mereceu o Prêmio Capital de Resistência ao Ordinário, do zine O Capital, editado em Aracaju por Ilma Fontes, e a Biblioteca da ANE recebeu neste momento, por solicitação da saudosa Zita de Andrade Lima, uma coleção do Chuço, doada pelo autor.

               Mas, tantas vezes citei o nome do poeta Salomão Sousa e, talvez, perguntam-se os senhores com razão: quem é o novo escritor que hoje nos preparamos para saudar? Pois nada menos que um menino que nasceu em 19 de setembro de 1952, recebido com uma salva de tiros de espingarda pelo senhor João Miguel Bento, na fazenda Calvo, município de Silvânia, do sul de Goiás, que assim anunciava o segundo filho que a senhora Maria Delmira de Sousa Bento lhe dava: Salomão Sousa.

               Aos dez anos, o menino Salomão foi alfabetizado pelo andarilho José Ribeiro e, em meados de 1964, a família transferiu-se para a casa própria em Silvânia. Lá recebeu a influência do avô materno, Sansão Fernandes de Sousa, que mantinha literatura de cordel escondida em uma canastra. Salomão leu permanentemente esses poucos livros, recebendo também a experiência cultural de parlendas, cantos religiosos, música caipira e tentou a composição de pequenas quadras desafiado por outro andarilho. Há muito para se dizer sobre essa etapa que alimentou o seu espírito poético e de contato com a natureza, mas ficará para outra ocasião. Diga-se  agora que ajudou os pais na carpina, levou comida para os peões na roça, descaroçou algodão, cuidou, na falta do irmão mais velho, dos irmãos mais novos, brincou com facão e juntou insetos na bacia de lavar roupa, objeto que deu origem a um poema de seu próximo livro:

A morte da bacia de Flandres começa

quando a atacam os furos e ninguém a recolhe

para a hora de alvejar. Enche-se de húmus

para o poejo, a hortelã. Floreira num jirau.

               Em Silvânia trabalhou como balconista numa loja de secos e molhados, e aproveitava qualquer trabalho que pudesse lhe render alguns trocados para ir ao cinema. Em um desses trabalhos, como moleque de recados para a mulher do primeiro gerente de banco da cidade, teve acesso a uma edição ilustrada da Divina Comédia. Aquela senhora permitia que tivesse acesso ao livro, na mesa da cozinha. Antes de se transferir para Brasília, trabalhou como porteiro e bibliotecário da Biblioteca Pública. “O balcão” também aparecerá em seu próximo livro:

               Moscas quietas a lamber sobras

               de açúcar, gotas que não couberam

               na taça do peão com o embrulho

               de arestas para a cerca antes de uma restinga.

               Superfície para a embriaguez, e garrafas

               que serão espatifadas. Aprendizagem

               de que há exigência de ordem para existir.

 

               Afirma que, para fugir da solidão e se esconder da própria miséria, passava longas horas na biblioteca ou lendo em casa. Entre os seus escritores estavam Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo. Publicou seu primeiro poema sem rimas ao redor dos 16 anos no jornal da cidade, e encheu um caderno com sonetos para demonstrar aos amigos que ele era capaz de escrevê-los: isto lhe serviu para a compreensão da mecânica da poesia, segundo ele. Ao ler jornais usados, cortava e colava poemas publicados em O Dia e Correio da Manhã que chegavam pelo correio, para que um comerciante os usasse como papel de embrulho. Assim, montou uma coleção aleatória como um caderno de 400 páginas. Ainda em Silvânia, ganhou um concurso de redação sobre D. Bosco, que, em 1968, o levou até São Paulo; e um concurso de declamação com um poema de Fagundes Varela; além disso desempenhou-se como ator em uma peça teatral, tendo sido essa sua experiência cultural até os 18 anos.

               Conta-nos o poeta que a Brasília chegou em 6 de janeiro de 1971, “com uma malinha de roupa, uma caixa de livros e poemas, e o Atestado de Bons Antecedentes tirado em Silvânia, sendo acolhido por seus padrinhos. Estudava à noite no Centro de Ensino de Vila Matias e aos domingos trabalhava numa banca na feira de Ceilândia. Durante o dia montava o jornal estudantil e a Biblioteca do estabelecimento, que deixou com mais de 3.000 exemplares de livros ao terminar o curso Científico. Ali iniciou suas relações com os artistas da cidade, tendo sido aluno da conhecida professora Dad Squarisi e de Anito José Steinbach, poeta que, à época, trabalhava no Itamarati.

               Ingressou na Fundação Educacional do Distrito Federal, hoje Secretaria de Educação, por concurso público, e estudou jornalismo no Centro de Educação Universitária de Brasília, CEUB, ampliando seus contatos com os escritores da cidade. Foi aluno de nosso fundador o escritor Almeida Fischer, e outros, que lhe abriram o caminho para seu acesso à Associação Nacional de Escritores, ANE, mesmo não tendo, ainda, livros publicados. Os Ministérios da Fazenda, do Trabalho e do Bem-Estar Social o tiveram como funcionário. Ao alugar um quarto para morar em Taguatinga, conheceu a jovem Francisca Andrade Menezes, hoje de Sousa, aqui presente. Casaram-se e três filhos selaram o amor: Carlos Alberto, Saulo e Vítor, que lhes deram seis netos: Laura Beatriz, Maria Clara, Davi, Murilo, Lyra e Felipe.

               Em 1978, lançou os livretos Esbarros I e II, com a apresentação de Ary Quintela.  Comenta que não tinha vocação para a poesia Marginal, apesar de Caderno de desapontamentos e Criação de lodo, livros posteriores, terem sido afetados por ela, pois o período reclamava comunicação agressiva, de resistência.

               Seu primeiro livro publicado foi   A moenda dos dias, em 1979, que (completa este ano 40 anos). Publicou com recursos próprios e pela Thesaurus. Este livro teve mil exemplares vendidos de mão em mão no transporte público e em repartições. Também mereceu uma resenha na Universidade de Harvard entre outras manifestações. A Dra. Naomi Hoki Moniz, hoje Diretora de Estudos Portugueses na Universidade de Geogetown, diz em texto que foi publicado na Revista Iberoamericana;

“Sua utilização (de Salomão Sousa) de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e “espontaneísmo”, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas. ” (Vol. L, 126 de 1984)

 

               Ao comparecer para um lançamento em Brasília, Mário da Silva Brito declarou, ao receber o livro das mãos do autor, que já o havia lido na sala de recepção da editora Civilização Brasileira. Drummond acusou o recebimento, dizendo “eu, de Itabira, lendo o poema sobre Ceilândia”.  Fazemos notar que, em muitos momentos, o livro perpassa a história da mãe do autor.

               Salomão Sousa, no ano seguinte, publicou pela editora Civilização Brasileira, com patrocínio do Instituto Nacional do Livro (INL) hoje extinto, em um único volume, O susto de viver e reeditou de A moenda dos dias. Nova resenha, desta vez assinada pela poeta e professora Teresinka Pereira, saiu à luz em Harvard e o saudoso escritor Nilto Maciel saudou o livro com estas palavras:

“ A cronologia sentimental de Salomão Sousa obedece a uma lógica do pessimismo. O universo pode ser desigual no tempo e no espaço, porém o indivíduo é apenas um dado, ‘pedra atirada dentro do rio’. Se antes ‘entendia cada silêncio que estivesse por perto”, agora ‘é impossível passar ileso por qualquer despensa do vazio ou do silêncio’. Se antes conservava ‘um medo leve’, agora ‘o gume da tristeza não fende o medo’ “.

 

               Ao aproximar-se o Séc. XXI, Salomão Sousa sentiu a necessidade de fugir da poesia parente do Tropicalismo ou das vanguardas dos irmãos Campos. Adotou a pulverização do verso, sem ser, necessariamente, puro neobarroco ou poesia de invenção ou surrealismo.

               O poeta atuou também exerceu o cargo público não só nos colégios, mas como assessor parlamentar no Congresso Nacional. Acompanhou mudanças de ministro, CPIs de impedimento, palestras, reuniões e relatórios confiantes em mudanças para o país. Declara que começou a trabalhar em 1976 de forma enclausurada, quando o Congresso Nacional tinha pouca importância.  O primeiro chefe, Dr. Gilberto, manteve-o por alguns anos dentro de sua sala, e na despedida dos colegas de trabalho, usou versos de Walt Whitman para sinalizar o novo momento de sua vida. Hoje, Salomão Sousa está aposentado do serviço público, depois de 45 anos de trabalho.

               Em 4 de junho, dando continuidade às comemorações dos 40 anos de seu primeiro livro, lançará no Beirute os livros Desmanche I, e de poemas, e Poemas e andorinhas, que traz textos híbridos em que aborda questões sobre comportamento social e dá prosseguimento à montagem de uma compreensão da poesia brasileira, estando todos agora já convidados.  Sobre o primeiro, o poeta Sergio de Castro Pinto, no jornal Contraponto, da Paraíba, diz que o poeta “Salomão Sousa submete a desmanche a máquina do mundo a partir de uma linguagem que, para muitos pode soar como uma sintaxe invisível, mas que, na verdade, está a exigir do crítico, do ensaísta, uma exegese mais apurada, livre de postura cartesiana com que costumamos administrar a realidade. Desmanche I situa Salomão Sousa num espaço à parte no âmbito da poesia brasileira contemporânea. ”

Desde a juventude nosso escritor foi um grande missivista e lamenta que as redes sociais tenham restringido a comunicação a simples gestos mecânicos. Diz ele que é a “contingência de um mundo que traiu o homem pela eletrônica”. Em uns fragmentos de um poema endereçado por ele a Maria Inês, de quem diz não recordar quem foi, em julho de 1996, e cuja cópia o autor guardou e à qual tivemos acesso, pergunta:  “(...) onde estarão as quadras que fiz aos nove anos? /Haverá um depósito delas num céu de Dante? /Hoje não tenho nenhum sentimento de angústia. ”  

Participou de encontros internacionais no Méxíco, no Peru e no Equador e em 2011 ganhou o troféu Tiokô como personalidade goiana que se destacou fora de Goiás.

Como tudo o que se inicia deve ter um fim, termino esta oração de acolhimento ao escritor e poeta que ocupará a cadeira nº X cujo patrono é Manuel Bandeira, e cujo último ocupante é o escritor e professor Carlos Alberto dos Santos Abel. Salomão Sousa, cuja poesia não deixa de estar presente nos dias críticos pelos quais passa esta bela terra brasileira, recebeu as seguintes palavras de Jorge Amado sobre sua obra: “Original e humano, sensível e consciente. Poesia que não é cera, é chama.” Com este poema, parte do livro Vagem de vidro, de 2013, os deixo:

O homem definitivo

Não insana com ausência,

Com justiça cerrada,

Encontros ao acaso.

 

Qual o encontro

Não se desenlaça

Se o ata o furor,

Se o cheque compra

Na praça o parceiro?

 

O homem definitivo

Não traz coágulos

Do desabraço,

Da sementeira

Em despedaços

 

 

 

 

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Biografia do poeta Salomão Sousa

Interlúdio para lembrar –      A casa da família era típica das construções goianas. De adobe rústico, piso no saibro, banco de champrão ...