Sérgio de Castro Pinto
Quem
conhece o Salomão ensaísta há de diferenciá-lo do poeta, pois se aquele prima
pelo racionalismo, o segundo investe numa linguagem menos atrelada à realidade
objetiva para criar admiráveis mundos novos. Mas não ao ponto de a linguagem se
bastar a si mesma ou de ganhar vida própria, independente, abolindo os
referentes externos.
A dicção
poética de Salomão, longe de ser ininteligível, procura resgatar um mundo
apenas intuído, pressentido pelo receptor. E, nesse diapasão, o eu lírico
inclui um mundo também à parte: o dos restolhos, o dos resíduos, o dos restos
que sobram e que ele os reaproveita e os recicla através de seu discurso
poético. Ou seja, tudo aquilo que sobrevive apesar das condições adversas e
persiste à margem do reconhecimento – insetos, larvas, lêndeas, lodos, restos
orgânicos etc. – integra um campo semântico que adere aos temas recorrentes de
sua poesia: a memória, a infância, a terra natal, os questionamentos políticos
e as reflexões sobre a condição humana e o seu breve frêmito de vida sobre a
terra. Assim, o microcosmo e o macrocosmo se fundem e se articulam
continuamente em sua obra.
Nesse
excelente “A Selva escura dos cristais perdidos”, Gráfica Serafim, Brasília,
2026, a poesia de Salomão Sousa roça as fímbrias do indizível.
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