UMA POESIA QUE ROÇA AS FÍMBRIAS DO INDIZÍVEL

                                                                 Sérgio de Castro Pinto

              Fica difícil estabelecer até que ponto a linguagem de Salomão Sousa é procurada, construída deliberadamente, ou fruto das zonas nebulosas do inconsciente. Se ela mais se impõe ou se ele a submete ao seu jugo, ao seu bel-prazer, na tentativa de dizer o indizível ou ao menos tentear as fímbrias daquilo que a linguagem não alcança. Ora, mas para dizer o indizível, o poeta deve encontrar uma nova maneira de dizer. E é justamente isso o que Salomão faz. Tanto que o considero um caso à parte na lírica brasileira, não apenas de hoje, mas também de ontem. Com efeito, difícil encontrar na sua poesia as pegadas de um outro poeta senão as dele mesmo – pegadas que ele as vem firmando desde o início, espécie de sinete de um individualismo e de uma inventividade que se afirmam a cada livro.

            Quem conhece o Salomão ensaísta há de diferenciá-lo do poeta, pois se aquele prima pelo racionalismo, o segundo investe numa linguagem menos atrelada à realidade objetiva para criar admiráveis mundos novos. Mas não ao ponto de a linguagem se bastar a si mesma ou de ganhar vida própria, independente, abolindo os referentes externos.

          A dicção poética de Salomão, longe de ser ininteligível, procura resgatar um mundo apenas intuído, pressentido pelo receptor. E, nesse diapasão, o eu lírico inclui um mundo também à parte: o dos restolhos, o dos resíduos, o dos restos que sobram e que ele os reaproveita e os recicla através de seu discurso poético. Ou seja, tudo aquilo que sobrevive apesar das condições adversas e persiste à margem do reconhecimento – insetos, larvas, lêndeas, lodos, restos orgânicos etc. – integra um campo semântico que adere aos temas recorrentes de sua poesia: a memória, a infância, a terra natal, os questionamentos políticos e as reflexões sobre a condição humana e o seu breve frêmito de vida sobre a terra. Assim, o microcosmo e o macrocosmo se fundem e se articulam continuamente em sua obra.

         Nesse excelente “A Selva escura dos cristais perdidos”, Gráfica Serafim, Brasília, 2026, a poesia de Salomão Sousa roça as fímbrias do indizível.

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