Entrevista ao Pensar do Estado de Minas

1) Como você vê a evolução de sua poesia desde o primeiro livro, A moenda dos dias (1979), publicado há 25 anos, até hoje, com Ruínas ao Sol (2006)?
Salomão Sousa: Nasci em 1952. Os poetas que nasceram no período em que eram lançados Invenção de Orfeu (52) e Morte e vida severina (65) — livros que sintetizam as experiências dos diversos períodos da poesia brasileira —, terão de se ajustar a novas linguagens, se quiserem participar, de forma renovada, da modernidade poética. Morreram as vertentes da poesia marginal, da poesia processo e do concretismo, além da falsa poesia de protesto praticada na vigência do regime militar. O poeta que insistir nalguma dessas vertentes estará assinando o termo do próprio funeral. Para se inserirem no panorama atual, o poeta que nasceu naquela época terá de se ajustar às linguagens daqueles que nasceram até vinte anos depois. Isto não significa que a obra anterior desse poeta não tenha cumprido o seu papel ou que não tenha funcionalidade no presente, pois aquele que fez a poesia dos anos 70 a 2000 contribuiu para a abertura das portas das buscas que são feitas hoje. Vim dessas vertentes, e, para que satisfizesse de forma mais calorosa o processo crítico e mesmo para que dele me aproximasse, tive de buscar novas alternativas para a minha poesia, buscas estas que culminaram no livro Ruínas ao sol. Mas, para isso, tive escarafunchar muito, e me auxiliou bastante a descoberta do aspecto trágico da poesia inglesa e da sutileza de Ossip Mandelstam, Eugenio Montale, Rilke… Em sua trajetória, o poeta tem de se alimentar de todas as afluências poéticas que puder abarcar sob o risco de cair na secura da esterilidade. Ou para dizer de forma mais clara: produzirá abobrinhas o poeta que não estiver aberto a novas enxertações.

2) Ainda sobre os seus 25 anos de poesia, parece que você está organizando uma antologia com todos os seus poemas? Dá para adiantar alguma coisa?
Salomão Sousa: Safra quebrada, título do livro que já está pronto para edição, foge um pouco dos parâmetros de uma antologia, mas não contempla a totalidade dos poemas dos meus livros. Deve ser editado até o final do próximo semestre, se os recursos prometidos não forem abortados. Ainda que não seja publicado, só a sua organização contribuiu para que eu revisasse a minha produção e também tomasse conhecimento do conjunto daquilo que já escrevi. A cada poema dos meus dois primeiros livros, no momento em que eu fazia a nova composição, sentia me rondar o clima pesado, negro, ameaçador do regime militar. Muitos dos poemas eu revi com aquela dor antiga que eu carregava na espinha enquanto trabalhava nas repartições públicas, ali na Praça dos Três Poderes. Dos poemas dos demais livros, sentia as incertezas da poesia das décadas de 80 e 90, que ainda não vislumbrava saídas para o beco em que ela se encontrava. Assim, pude ter mais consciência daquilo que produzi, e consolidar uma objetividade mais consciente, que auxilia na formatação de uma obra.

3) Muita gente nova tem feito poesia atualmente, e parece que as editoras voltaram a investir no gênero. Você tem acompanhado este processo?
Salomão Sousa: O investimento atual ainda é insuficiente e beira o enganoso, pois o mercado editorial e as forças críticas, acreditando que a “facilidade e a superficialidade” são suficientes para a conquista do mercado, acabam investindo – em nome da Poesia – em textos do mais desbragado e inútil prosaísmo, que não servem para a formatação de linguagens e muito menos contribui como auto-ajuda. Há muitas contradições. A poesia brasileira avançou muito em termos de linguagens que recuperam a inteligência dos tropos, a mesclagem do urbano e rural, o delírio da criação, e as espertezas da sonoridade. A sonoridade voltou a ser necessária, através da invisibilidade das assonâncias e aliterações. E ainda assim vemos carradas de obras de falsidade lírica, de anotações inúteis de incidentes cotidianos e da intimidade dos poetas. É tanta a falsidade que muitas dessas obras não conseguem ficar dois dias em cartaz, mas servem para a momentânea projeção nos grandes prêmios. Salva a atuação das pequenas editoras, como Lumme Editor, e de títulos da Cosac. Destaco dos vários poetas atuais os nomes de Marcos Siscar e de Antônio Moura, este com o vivo Rio Silêncio.

4) Além da poesia você já se aventurou por outros gêneros literários, como a prosa, por exemplo? Já pensou em escrever algum romance?
Salomão Sousa: Não sou prosador, pois não tenho o domínio da fabulação. Talvez pudesse enveredar pela crônica ou pela crítica. Mas sai muito cara, atualmente, a prática da crítica. Ela se profissionalizou, com o gravame de desprezar o colorido pessoal. Fria, impessoal, hábil no resumo. Quem foge desse parâmetro, acaba apunhalado. Qualquer crítica mais vivaz provocará tréplicas intermináveis. Perdemos a humildade, pois a homem da modernidade é auto-suficiente e intocável. E acaba saindo ruim para todo mundo. É numa ambiência de divergências que surgem as descobertas, a proliferação das novas linhagens, a renovação genética da poesia. Já é famosa a frase de Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra. Certa vez fiz uns comentários para o Iacyr Anderson Freitas sobre a sua poesia, e ele me respondeu com satisfação, pois ninguém ousava questionar ou mesmo apontar rumos para que ele amadurecesse o seu processo criativo. E, veja bem, o Iacyr Anderson Freitas tem o domínio da composição poética desde o primeiro instante em que se lançou.

5) Ganhar prêmios literários, como o último que você faturou — o Prêmio Goyaz de Poesia — significa o quê na vida de um escritor? Ajuda a abrir portas das editoras?Salomão Sousa: O escritor só se constrói através da própria obra. A concessão de um prêmio pode abrir as portas da crítica, e até das editoras, principalmente quando o prêmio cuida do financiamento. Se não fossem os editores apaixonados por poesia, todos os poetas teriam de custear a edição de seus livros. Basta ver que há editores atuais que estão fazendo tiragens de duzentos/trezentos exemplares. Há livros de poesia que estão saindo em edição de cem exemplares. Só a paixão pelo livro para que um editor trabalhe numa edição de cem exemplares! Os poetas ainda são editados por outra razão muito simples: dão status ao catálogo das editoras. Se não fosse por status, o Brasil não conheceria as obras de Eugenio Montale, de Rilke e de tantos e todos os outros. Editor está atrás de autores que encham o cofre — mas o lucro é inerente a qualquer atividade econômica.

Luiz de Aquino

Proseando com o poeta

Salomão Sousa escreveu um belo poema, entre tantos outros belos, sob o título "Dar-se aos pregos e às léguas". Deliciei-me das fincadas e andanças do vate da histórica cidade de Bonfim (que o mau gosto de uns poucos, há mais de meio século, transmudou em Silvânia, sem que a bucólica cidade perdesse o encanto). Ele encerrou o poema com essa estrofe:"...perder-se para nascernas flores e nos olhos da terranão ser o ferrolho inchadoo caruncho na madeira das íris"Falei-lhe do meu encanto, e ele retrucou, em mensagem fraternal: "As nossas viagens são as mesmas, com as mesmas íris e o mesmo sol, o mesmo terreiro de chão goiano. O difícil, para nós, é abrir porteiras para fora de nosso rincão. Vamos manter viva a nossa infância, senão perdemos a nossa rebeldia."Perdemos, não, poet'irmão! Não a perdemos, pois exercemos essa teimosia de menino birrento, daqueles a quem os castigos da sobremesa não atingem, porque havia os quintais de múltiplas frutas, nem o cerceamento da liberdade por algumas horas, porque os córregos da meninice estavam ali, "de grito" (*); a toxina dos defensivos ainda não exterminara as piabas que colhíamos em anzóis miúdos, em linhas curtas de varas de bambu. Nosso grito de pirralhos embirrados ecoa não no espaço entre paredões, mas na lonjura do tempo que enevoa nossos cabelos e esturrica nossas peles. E que revéis, somos nós! Crescemos sob o tacão de um regime duro e cruel, mas não esmorecemos; não nos dobramos, como os caniços que nos valiam por varas de pesca, mas não enraizamos tanto que a ventania nos arrancasse do chão benfazejo. Altivos e livres, fechamo-nos por horas em leituras perigosas, mas capazes de nos fazer cidadãos. Cidadãos poetas, porque sem poesia não há liberdade (que o digam Agostinho, de Angola; José Martí, de Cuba; Federico G. Lorca, o espanhol; e Castro Alves, o nosso). Vimos Godoy Garcia, José Décio Filho, Ieda Schmaltz e Afonso Félix de Sousa a gritar por nossa gente ante o arbítrio; vimos José J. Veiga e Bernardo Elis a prosear coragem na escuridão ante as idéias não permitidas. Deles herdamos a bússola dos inquietos, dos insatisfeitos e insurretos. Temos sangue, Salomão, para a justiça decantada, sonhada e mal-exercida; sangue que tinge nossos solos e põe sal no nosso suor de andarilhos das letras. Deixamos que os dias polvilhem de lembranças nossas almas doces e ingênuas, mas bravas o bastante para não se curvar. Temos as cores das areias da Serra Dourada, o vigor das pastagens na vertente do Piracanjuba e o calor termal da Serra de Caldas, acalentado em serenatas de Pirenópolis e dourado de pôr-do-sol de qualquer paragem Goiás. Comemos pequi e genipapo, ingá e guapeva; bebemos cachaça quilombola; dançamos pagode de roça, dançamos catira e, se deixarem... Bem, se deixarem, contamos histórias de medo ao fogo do borralho, em noites de chuva. Mas não deixamos, não mesmo, de cantar poesia. Como não se fazer poeta sob o céu deste Planalto do cerrado, siô?
Luiz de Aquino jornalista e escritor.

Nilto Maciel

A LÓGICA DO PESSIMISMO

O Susto de Viver e A Moenda dos Dias, de Salomão Sousa, foram reunidos num só volume. No primeiro, o poeta, impossibilitado de conter as palavras, a poesia, anuncia o seu drama: a cidade, que o chamou do campo (e esse tema estará mais presente em outros poemas), o assusta, o persegue, o amedronta, como se ele fosse um cão vadio. Não sabe se se quede como árvore em descampado açoitada pelo vento que passa – a vida a fluir – ou se vá, sem rumo, embora. Constata: “Sua sina, menino,/ é de árvore/ em descampado”. O silêncio fala ao seu redor, amedrontador. O poeta pára, enquanto tudo se movimenta, corre. O poeta se assusta da própria imobilidade: “Estendo os olhos/ e há o pedido de não ver”. A cidade (a vida) estende-se como um rumo, caminho sem fim. Mas cadê coragem de enfrentá-la? “A valentia/ conhecida de mim/ arrefeceu”. Mais do que perigoso, o existir ofende. É o medo de viver. O título esconde a palavra e a constatação mais comprometedora. No entanto, não sendo possível escamotear a alma no poema, a confissão sai clara: “Compromete/ olhar sobre os muros”. Do outro lado podem estar escondidos o fruto proibido, a serpente enroscada na árvore, Eva desnuda. Os terrores infantis, ainda recentes, não se apagam facilmente. Por mais que tente trair o próprio medo, ainda assim será fatal o susto. Amarra-se para segurar-se: “Teço a corda com a própria pele”. O corpo (o ser) serve de prisão, de degredo. O mundo é um perigo, abismo onde se precipitam os seres. É preciso fechar-se em si, caramujo. Qualquer impulso irracional leva à queda, como se nunca houvesse dado um passo. Todo passo será falso: “Atiro-me às escondidas/ e os charcos/ me atiçam as quedas”.Na segunda parte – “Dados” – a mesma relação de forças: a pedra (o ser) que gira é atirada, sem destino. A vida é um jogo: o impossível esconde-se detrás das facetas do dado. O azar dorme nos esconsos do cubo. Em si mesmo o dado não fica, não se imobiliza: “A pedra/ atirada/ soa a queda”. É patente o sinal concreto da construção desses poemas, concretismo por metáforas: jogo-vida, pedra-ser.O segundo livro, antes publicado separadamente. também se divide em duas partes. Numa – “Ladainha da Cidade Dura” – o poeta, de forma mais objetiva do que nos poemas já focalizados, individualiza a cidade, dá-lhe nomes: Ceilândia, Brasília. Ocorre uma inversão ótica: em vez do indivíduo perdido nos meandros da cidade, agora a humanidade e a cidade aparecem na pintura poética ampliadas, obscurecendo o indivíduo. O pintor sobe aos céus e de cima vê o todo, e não mais o indivíduo apenas. Ainda assim, o mesmo medo de abrir os olhos, olhar sobre os muros, correr, soltar-se: “Resisto à vontade/ de soltar fora os sapatos,/ de soltar fora os cachorros,/ de soltar fora as ruas.Na segunda parte – “O Ser ao Ser”– o lado oposto dessa cidade de medo: o campo de onde proveio o menino assustado, em busca de si mesmo. Entretanto, apenas um reflexo do passado, porque são as ruas por onde passa que lhe despertam a necessidade de escrever. Nasce em seus ouvidos aquele silêncio antes visto nos outros. O silêncio das coisas é uma auréola protetora. Para onde o poeta for conduzirá consigo o silêncio.A cronologia sentimental de Salomão Sousa obedece a uma lógica do pessimismo. O universo pode ser desigual no tempo e no espaço, porém o indivíduo é apenas um dado, “pedra atirada dentro do rio”. Se antes “entendia cada silêncio que estivesse por perto”, agora “é impossível passar ileso por qualquer despensa do vazio ou do silêncio”. Se antes conservava “um medo leve”, agora “o gume da tristeza não fende o medo”.A linguagem pode mudar, porque mudam o tempo e o espaço, todavia ao personagem nenhum historiador poderá transfigurar. Passa o vento, não a arvore. Passam os dias, os dentes da moenda, não o homem triturado pela vida. Passam as nuvens, os pássaros e o rio, não o menino a quem o bicho-papão fez estremecer.E finalmente: tudo passa, menos o homem e a sua poesia.

Ana Maria Ramiro*

Ruínas ao Sol: alegoria e subversão na obra de Salomão Sousa

"As alegorias são no reino dos pensamentos
o que são as ruínas no reino das coisas".

(Walter Benjamin)


Da mesma forma como respiramos sem ter, na maioria das vezes, consciência de que o estamos fazendo, também somos levados, na rotina imposta pelo cânone já desgastado, a uma leitura embotada, automatizada, da obra literária, uma vez ausente o estranhamento, elemento fundamental e definidor da invenção poética. É a partir da desfamiliarização da linguagem, desse dito estranhamento, que renovamos nossas reações e sensibilidades habituais e adquirimos uma consciência dramática da linguagem, tornando-nos mais auto-conscientes do processo criativo.

Ruínas ao Sol (editora 7Letras), do poeta goiano radicado em Brasília, Salomão Sousa, vencedor do prêmio Goyas de Poesia de 2006, é um desses exemplos de obra renovada/renovadora, ainda raros no atual cenário poético nacional, e que levam o leitor para além da visão estático-linear, estimulando-o a vôos mais altos, a experiências poéticas mais profundas, através de um vasto jogo especular formado por fragmentos de imagens menores, à maneira de um pictograma.

Esta exuberância imagética, conseguida por meio da proliferação de significantes, bem como o emprego da tautologia estrófica ("Alimentamo-nos do mesmo sol e estamos sós/ Alimentamo-nos do mesmo sol e estamos sóis") e terminológica (gomos, tempestades, lenhas, desterros, estradas...) reiteram, como peças de um quebra-cabeça, o pendor fragmentário da obra ("Motivos para tecer o corpo/com pequenas sementes/matizes de feixes de anil/com o secreto desalinhar do novelo/das pequenas aranhas"), exigindo uma leitura em filigrana para total cognição do subtexto e interpretação do discurso poético.

O Sol, elemento simbólico por excelência, fonte máxima de calor e gerador de vida, é mimeticamente identificado com o signo lingüístico ("Só o que virar girassol/ só o que couber na palavra") e será uma das alegorias responsáveis, se não a principal, por reforçar o caráter dinâmico e subversivo da poesia de Salomão e de sua ars poética ("estarás em qualquer/ ilegível estrela ou estrada/ irei recolhendo tuas roupas/ toda em rasgos/ só eu posso te encontrar/ no instante em que fores louca"). O termo estrada também vai encontrar um correspondente sintagmático na idéia de trajeto, direcionamento ou linha (verso) e a própria epígrafe ao livro, do poeta sufi Rûmî, vai corroborar o teor alegórico e incitador da obra ("e vem o sol clarear minhas ruínas").

Esta citação constitui ainda a chave que revelará os artifícios de chiaroscuro e trompe l´œil, que permeiam o livro. Para Rûmi, na tradição mística do islã, o que existe, para além de todas as ilusões, é a unidade. Para ele, por exemplo, as cores enquanto símbolos da multiplicidade constituem uma ilusão, pois a realidade não tem cor e para ela, todas as cores retornam ("Mas quando a noite vela essas cores de ti, percebes que só são vistas por meio da luz"). É na intertextualidade (e aí, o escopo é grande, com referências clássicas, passando por Rilke e chegando em João Cabral e nas novas vertentes literárias), que Salomão se escora para desmascarar o próprio simulacro a que se propôs. Alegorias aos pedaços, ciclos de dissolução e florescimento, ruínas que na verdade buscam o seu antípoda, a reconstrução, o que Severo Sarduy denominou como "facetas de uma franja torcida sobre si mesma".

Ruínas ao Sol revela-se sobretudo como um manifesto contra o marasmo e a banalidade no fazer poético e condensa o engajamento estético do autor para com as constantes e renovadas apreensões artísticas de seu tempo ("Está morta a dinastia/de quem aguarda/sentado na soleira/ A lenha das palavras/ acende a festa/ na beira do meu pasto"), afinal em sua própria concepção, o poeta deve passar pela modernidade de seu tempo, pois a sua poesia tem que refletir o somatório da encruzilhada de suas experiências com as da sociedade em que se encontra inserido ("Sem intimidade com a natureza da vida, a vida fraqueja, a humanidade vira pó"). O novo livro de Salomão Sousa ilumina como uma pequena jóia emblemática, mas mais do que emblema, é um corpo vivo, palavra latente. Comova-se.

Ana Maria Ramiro, poeta de Brasília.

Ligia Cademartori

Força de imagens
Especial para o Pensa do Correio Braziliense

Na primeira composição do livro Estoque de Relâmpagos, de Salomão Sousa, o uso de aliterações — repetição de fonemas semelhantes — mostra cuidado com a sonoridade dos versos. Mas logo fica evidente que a particularidade de sua poesia não reside nos efeitos de som e, sim, na organização das imagens. A profusão delas provoca o leitor para que procure as relações que estabelecem e, por esse modo, descubra a mitologia autoral que as ordena. Ao extrair força poética do substantivo, Salomão Sousa compõe sua própria lição de coisas. Nem todas imediatas, é verdade. Algumas são inalcançáveis. Mas, no radical contraste entre certas imagens pode-se encontrar essenciais efeitos de sentido e o provável princípio que preside as expressões figuradas. Pois a linguagem não faz concessões. Concisa e avessa ao vôo livre, essa é poesia de linhagem auto-reflexiva.
O encadeamento de imagens, para muitos poetas, é mero jogo com o significante, quase um brinquedo. Não é o caso de Estoque de Relâmpagos. Nele observa-se dupla tendência. Uma, em direção ao cósmico, ao telúrico. Outra, ao nada, ao silêncio. Mira a grandiosidade, o espetacular, mas acolhe as faltas e as insignificâncias.
As composições sucedem-se sem títulos que, de algum modo, direcionem a leitura e cumpram a função de marco divisório. Deve-se prestar atenção a esse fluxo que tende a transbordar as margens habituais. O jorro de versos desafia as pausas e desestimula as interrupções. É como se fosse um único poema extenso.
No entanto, entre um poema e outro, há mudanças de tom e ritmo. Algumas, abruptas. Aqui, um discurso retesado a que servem consoantes oclusivas. Mais adiante, chega-se próximo à rarefação lírica. Às vezes, o peso do deserto desaba sobre o corpo. Noutras, ‘‘há tílias verdes esbarrando na aurora’’.
O estilo é modulado, embora prevaleça a condensação. Poeta sem derrames, demonstra respeito pela potência da palavra. Em versos livres, enumera a heterogeneidade dos elementos que compõem um mundo que pode ser adverso, mas não insuportável. O desafio, agora e sempre, é o sentido. Dele o poeta faz recortes com estilete ou cunha.
Como prenuncia o título, relâmpago é imagem recorrente nos poemas. A fulguração entre nuvens, clarão intenso mas breve, ao ser reiteradamente evocada, faz-se chave de leitura. Essa significação ascensional e luminosa, porém, tem seus contrapontos. Entre eles, o escuro seria o mais óbvio. Mas, mais elucidativo, talvez, seja levar em conta outro elemento também freqüente no imaginário poético. Como a madeira, tantas vezes evocada, que esteja em tora ou lascas, é sempre matéria sólida, tangível, duradoura. Mediante as duas imagens opera-se confronto entre fogo e terra, distante e contíguo.
A tensão, se não se esvai, encaminha o poeta a uma aprendizagem: ‘‘Posso esbarrar no escuro do silêncio de onde foram retiradas todas as aparas sem sair lanhado’’. E, provocando associações com a adaptação e a resistência da madeira, conclui: ‘‘Onde foi cortado todo amparo — ali posso me encostar todo em talhas’’. Há fecundidade nesses versos, ímpeto poético que percorre via mítica.

Ligia Cademartori é doutora em teoria literária e autora de Períodos Literários.

Carta a Soares Feitosa

Luiz Paulo Santana

El nuevo e-mail ya está en la agenda. Aquí hace un díanublado, frío, indefinido. Releo "En el Cielo tieneProzac": la misma enorme dramatismo de "El Relato delCapitán". En este, la culminância de la fotoavassaladora, derruindo el propio arte; en aquel, elverso "Madre, en el cielo tiene pan?" concentrando ensí todo el significado de la tragedia humana. La mismainercia vagarosa del movimiento del mundo entre lainocencia y la crueldad. Releo con un sentimiento dederrota, yo pretenso reformador del mundo,racionalista, positivista inconfesso, incapaz decaptarlo en su inmensa complejidad. Ni el envejecer meda la santa sabiduría evocada en el poema, aquella enque la persona se pone como un humilde instrumento yno como un demiurgo de 100ª. categoría: "Se aplazan-le los minutos,al gesto del amor,sacrificios y devociones:éxtasis de Margarita,éxtasis de Madre Teresa,éxtasis del Cura D’Ars,éxtasis de la hermana Dulce;" Pues no será pura sabiduría esa dedicación sinpreguntas, esa fe gratuita? En que horizontesrecogerán tales santas y santos — canonizados o no —la fuerza de su humilde retidão? Como gustaría desaberlo, o mejor, de lo sentís. Tal vez pudierasuperar esa oscilación angustiosa: euforia por elideal de justicia, derrota por la injusticiaflagrante. Y culpa, culpa, culpa. Yo, neurótico,necesito recurrir a la vuestra palabra poética paradisculparme. Porque en ella encuentro un sentimientomayor del mundo. O a la palabra poética de MoacyrFélix: "Sabemos del anzuelo sólo lo que va hasta elfácil blanco y el facílimo rojo de su boiazinha desuperficie; lo que el plomo lleva al fondo, el mar, elpez, la vida del pez, nuestro antojo prendido a lasgiratorias muertes del pez, el secreto céntrico de lapesca, esto nunca sabemos, porque en el mar del Marnada sabemos hasta el fin: somos siempre el inicio,como la plaza es siempre el inicio de otra plaza, comola plaza que, cuando aislada, es sólo un temporalespacio de agua y sal, juego de químicas y retortas,sin ningún movimiento capaz de conectarnos a lahistoria del mar, a su principio y a su fin." De tarde en tarde la barra pesa, usted sabe. De ahíque leo el Salomão Souza con el suyo "Recorte sobre lapoesía brasileña contemporánea" y una vereda se abre.Fina percepción de un movimiento que trasciende elanálisis de una escuela o "igrejinha" y o/sucomparación con otras. Ni siquiera es críticaliteraria, (por un momento, sólo por un momentoresbala para un casi revanchismo al referir un"fundamentalismo" y mencionar la Alexei Bueno yEspinheira Filho) pero percepción fenomenológica. Nohay demérito para nadie. Con su mirada panorámica haceobservaciones interessantíssimas. Salomão Souza me levanta el astral a lo hacermepercibir que ese vacío en la boca del estómago escompartido. Pero, claro que es compartido, que essufrido por todos, sin excepción, pero nonecesariamente incautado, detectado y finalmenteexpreso, por todos. Sólo las "antenas" de lahumanidad, pensadores, poetas y escritores, por deberde oficio. Asimismo la percepción completa, analítica,es posterior. El hecho es que la literatura (de entreotras antenas) emite señales, y los emitió antes de laprimera gran guerra, y entre esta y la segunda, porejemplo. Pues Salomão Souza detecta — como una fuertetendencia, capaz de caracterizar una originalidadexpresiva — en el panorama de la poesía brasileñacontemporánea la compleja y paradoxal expresión delvacío. Compleja como se puede incautar de laelaboración de los versos de los poetas citados.Paradoxal, porque lejos de una poética destituida debrillo, de hecho, por el contrario. Refiriéndose la tal tendencia, escribió Salomão: "...me atrae en la actual poesía de post-vanguardia esalibertad de que no quisiera nada — ni engajamento, nibordado de un texto estructurado en una formadefinida, ni la estructura sólida de los objetos de lanaturaleza y de la cultura.". Otras característicasson señaladas, como agresividad, densidad, sonoridad,sugerencia, interioridade, condensación, corte, que noson en absoluto extrañas al mundo de la poesía, razónporque separé, a mi juicio, la instantaneidade, ladesconstrução de forma y contenido y la ausencia designificado explícito como vetores más importantes deesa tendencia la que se refiere Salomão. Los tresvetores apuntarían para un "vacío" semántico que máscorresponde la una sugerencia, la una pregunta, que launa propuesta, o la una respuesta, ya que estas,incluso por la ausencia cada vez más pronunciada de lo"yo" en el mundo real, dejaron de tener sentido en ese"mundo en añicos" "en que lo yo ya no ocupa la figurade centro". El viaje se interioriza. El metalenguajese hace presente no para explicar fórmulas, pero paracorroborar en la pregunta, o realzar la perplejidad: yahora, en que nos hacemos? La palabra perdió su sentido habitual. Perdió susujeto. Está muda, vacía. Está la espera de unaressignificação. O la sugiere en un nuevo sentido noexplícito, para nueva fruición. No cabe preguntar si esa tendencia y sus poetas tieneno no razón. El hecho, para mí, es que sus versosreflejan una concepción poética que parece "escapar"de la encrucijada en que se mete el mundo, entre elideal gasto, esfarrapado, y el real fragmentado yanômico, a pesar de las marcas del desasosiego. Comoacentúa Salomão, refiriéndose a los versos de IacyrAnderson Freitas, "Entonces, es una vasta busca y unavasta duda.". Mientras eso, Salomão fotografía el mundo con la misma"neutralidad" de los santos y santas en éxtasis: mira,tiene coraje, asesta tu rostro. Vea como es bello. Veacomo es odioso. Vea como reímos y como lloramos. Veacomo somos humildes y cuanto somos pretensiosos. Veacomo la saga humana ten que fantástico lo que tiene elArte. Vea como nuestra historia podrá en los salvar elSiglo Cien, de Ésquilo! Pero, a las veces, a las veces, la barra pesa. Cambiando de palo para cavaco, gustaría de,oportunamente, sustituir (o retirar) en mi página elpoema "Cuando planté en la lata", por incompleto,inacabado, insatisfactorio, más que los demás. No séporque acabó yendo con los otros. Cuando fueraposible. Y ya que hablé de "vacíos" y de metalenguaje,aquí va este que bien puede ser el sustituto de aquel. Desandar Boli, bloque, libros, cenicero,los objetos están aquí,están inertes en su posturade objetos en sí. Nada los reúne, nada los convocapara un cambio existencial.Delante de ellos estoy perplejomudo, deflexo, convencional. No hay perfumes, no hay naufragios,nada me toma ni me liberay los objetos reposan tácitos,todo es silencio, nada se altera. Cansado y roto recojo antenasme acostuesto a las penas de no dormir.Veo carneros, cuento a los centenares,todos a balarme. Grande, gran abrazo, LPSantana

Por Rachel Moura

    Não sei nenhuma teoria literária para explicar os poemas do meu amigo Salomão Sousa. Contudo, creio que a poesia pode e deve ser uma janela pela qual vemos e experimentamos o mundo. Nesse sentido, meu ser entende muito bem quando Salomão diz que há “uma noite de pensamento”. Por que será? Talvez seja porque ainda haja “um sol longínquo” ou por que temos profundos motivos para “iludir a morte, “para tecer o corpo” e, ainda, “motivos para sedas nos casulos”.
    Também compreendo as infinitas tempestades do eu expostas nas palavras de Salomão: de amor, ódio, conflito, que surgem nas estrofes como arrebatadoras de algo. Tempestades essas que nos levam a navegar no dia-a-dia, ou que às vezes não aparecem: “a tempestade não veio”. Podem também retornar aos desertos, e então é por isso que ficamos a sombra?
Deparo-me, por fim, pelo convite de “sair da sombra das ruínas”, desejar o sol e deixar vir “ao sol as ruínas da pele”, sendo alguém em que “vivo de me mudar de caminhos” para finalmente concordar com o que diz Salomão “navego num mundo sem prumo e sem nauta”.
Em suma, li, reli, naveguei, e por isso viajei, no entanto efetivamente naufraguei. Sobretudo, caminhando olhos e pensamentos pelas estrofes (sua escrita difícil até me deu algum trabalho, mas já me acostumei) fiz sombras ao mesmo tempo em que as desfiz. Isso tudo foi resultado da beleza que é o livro Ruínas ao Sol de Salomão Sousa.

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UMA POESIA QUE ROÇA AS FÍMBRIAS DO INDIZÍVEL

                                                                   Sérgio de Castro Pinto                 Fica difícil estabelecer até que...