A imagem no vidro

 José Fernandes 

               A poesia é uma arte de linguagem, em que a palavra é vergastada, a fim de sangrar novos significados, obtidos, principalmente, através da imagem, definida por Octavio Paz, como a cifra da condição humana. O papel desempenhado pela imagem se reveste de singular importância no discurso poético, no momento em que transfere a palavra da esfera da denotação para a esfera da conotação, e ela ascende a uma dimensão metafisica, por intermédio da fusão de suas essências, responsável pela instauração do caráter polissêmico e estético próprio do poético. É com essa visão do belo estético que lemos Vagem de vidro (Brasília, Thesaurus, 2013), do poeta Salomão Sousa, uma vez que a despeito de suas imagens ensejam um discurso original, singular, pautado por jogos semânticos e interculturais que proporcionam verdadeiros dribles na esfera da linguagem. 

               Não fosse sua conformação imagética sui generis e não teríamos a beleza da viagem empreendida pela história da poesia através da poesia e do entrecruzamento com a intertextualidade e, muitas vezes, com a interculturalidade, uma vez que se lê uma verdade histórica sobre a outra, em inusitado palimpsesto. Assim, na primeira estrofe, as imagens, muito bem construídas, remetem-nos a Shakespeare, nomeadamente à peça Macbeth, como sugerem as referências à luz, às ervas e ao bêbedo, em imagens que lembram bem o estilo maneirista praticado pelo dramaturgo: “Em meio ao espelhamento das escolhas/acontecerá o excesso de luz a ressecar as ervas,/ideias que se ligam ao soco, às intrigas,/o cervo a assistir a velocidade dos bêbedos.” Além disso, a estrutura da tragédia, típica de Shakespeare, na palavra intriga, uma vez que, nessa peça, o trágico nasce dos limites da condição humana e do destino, fugindo um pouco da trama peculiar à tragédia grega.

               Mas, na segunda estrofe é que se encontra o móbil do poema de Salomão e da peça, uma vez que, ao nomear a palavra, está, além de referir-se à instauração do trágico, mediante a pronúncia de uma palavra, também lembra a carta escrita por Macbeth dizendo que permanecerá no castelo, ato que ensejará o assassinato. É exatamente por isso que a palavra “se precipita” e procede-se “a reabilitada confiança de volta ao conflito”.

                Sintomaticamente, às imagens construídas para lembrar Shakespeare, seguem-se, na terceira estrofe, em apenas dois versos, as que lembram Poe, com seu poema, "O Corvo": “No momento que temos a satisfação do pássaro,/do estrangeiro na sacada a traquinar feliz. Feliz.” Exatamente pelo tema do destino, entendido como tragédia do homem, acoplam-se à intertextualidade de Poe imagens marítimas montadas sobre A divina comédia, de Dante, em que os dois últimos versos são lapidares, ao referirem-se à viagem prefigurada pelos remos e à chegada ao “porto do encalhes”: “Com o movimento dos remos, os comandantes./ A esquadra perfilada no porto dos encalhes.”

               Sabiamente montada, a sua viagem pela poesia é, também, aquela viagem própria do homem peregrino, do homem que mergulha dentro de si mesmo, como se verifica na quarta estrofe, constituída de apenas dois versos que resumem essa parte do poema: “Ah! a luz que resseca as ervas não perdoa o corvo;/invade os limites, danifica as trevas.” Ademais, na sequência do poema, temos imagens que lembram a figura de Ulisses, em sua conturbada viagem de homem e de semideus, a marcar a duplicidade do homem, que é ora sublime, ora miserável. A capacidade de síntese dessa estrofe, só possível mediante o uso de imagens, é realmente lapidar, em termos de discurso poético, pois encerra os aspectos físicos e metafísicos da aventura de Ulisses e a dimensão ontológica da fidelidade de Penélope. As imagens, nesse caso, tecem o texto, como a mulher tecia o amor intransferível, em seu fio de permanência e de fragilidade: “Ulisses, depois de ti, instaurado o fim das aventuras;/na antessala, extintos o bulício e a castidade dos amantes.”

               Muito significativamente, quase no centro do poema, opera, em uma espécie de cadinho alquímico ou de baricentro, a interação entre o passado e o presente da literatura e das artes, em que Homero dialoga com Quintana, com a simbólica Aldebarã e com a guerra fingida de Findley. A partir dessa estrofe, as imagens se tornam altamente irônicas, à medida que os elementos imagéticos e imaginários do ontem são utilizados para satirizar as mazelas do presente. Desse modo, as imagens náuticas usadas para se falar das aventuras de Ulisses e do amor fiel de Penélope, por exemplo, convertem-se em sátira aos costumes hodiernos, reflexos dos males que assolam a humanidade.

               Desses males de que Ulisses não escaparia, ressalta-se a imagem dupla da navegação, agora transferida para a internet, que estila forte ironia às viagens pelas redes sociais, que se desencontram “no led do papel”. A representação desse desencontro se faz mediante imagem poética singular que envolve tecnologias modernas, que nos levam a denominá-la imagem cibernética, ou ciber-imagem. Ulisses, dentro desse mundo, conformado em “costas dos encalhes”, revelar-se-ia impotente, porque, ao contrário das navegações antigas, as máquinas do presente perturbam “as noites de tua cidade, de tua mãe insone.” 

               Na ambiência do moderno, até o amor e seus símbolos, que o convertem em sentimento metafisico, desfazem-se, porque, como já dissera Albert Camus, tudo perde a importância. Se não se flerta mais um rosto à porta, até a noção de herói se desintegra, porquanto, repetindo Gaston Miron, o homem se transforma em restolho, porque, desprotegido como o calcanhar de Aquiles, o mundo se torna perigoso, como vemos na última estrofe desse poema ímpar: “O edema, o sequestro relâmpago. É a ausência do fluir./ Se não há herói para ir a Ítaca, à Esplanada,/ os homens a enrijecer-se. Secas as mãos de virar/a próxima página e de desnudar Eurídice.” 

               A leitura desse poema constitui uma amostragem de quanto é rico, esteticamente, Vagem de vidro, pois, nele, o poeta trabalha a linguagem em imagens que cifram a condição humana, como se vê no contraste entre o passado e o presente poético e humano. O presente, pautado por transformações de valores nem sempre positivos, constitui uma nova forma de aventura revelada mediante refinada ironia, em que a imagem do corvo funciona como deglutição cultural e como matéria de um tempo sinistro. Confiram! Parabéns, Salomão. Deo gratias et Mariae! 

Resenha Naomi Hoki Moniz

 SALOMAO SOUSA: A moenda dos dias. Brasília: Editora Coordenada, 1979.

Este é o segundo livro de Salomão Sousa, que nasceu em Goiás, em 1952. O poema “Tempo de Agouro”, que serve de prefácio às três séries de poemas do livro, é a meditação inicial do autor sobre a funcionalidade da poesia, seu objeto e/ou instrumento, a palavra. A sua proposta é a de um “lutar com palavra” drummondiano para realizar uma poesia que não se quer “só como renda / os berloques / raminhos de flor”, mas “trapos / que cobrem e contém / o pudor” (p. 5).

As séries que perfazem este volume, “Ladainha da Cidade Dura”, “O Ser ao Ser” e a “Moenda dos Dias”, estão impregnadas da paisagem rural goiana. Usando o tema Província-Metrópole, o autor descreve a trajetória de um mundo rural, claustrofóbico ―Ceilândia, para o Mundo lá fora ―Brasília, meca de tantos severinos do país inteiro. E difícil, e poucas vezes conseguida em termos de lírica a abordagem poética da questão social. Em Salomão, ela irrompe plenamente, mas numa linguagem poética contida, áspera e carregada de uma consciência social firme e incômoda, mas nunca estridente.

É preciso um esforço para deixar de ver as alusões a Drummond, a Fernando Pessoa, este último evidente nos versos “aguardo o enterro desse cadáver / para nascer / na árvore / que irá fazer o navio / que não pude sair” (p. 31). Os poemas da terceira serie descrevem a vida popular rural, o namoro, e a existência frugal e resignada de sua mãe. Tanto na temática como na técnica (repetições, reduplicações, paralelismo) estes poemas lembram o tom cristalino e pungente das cantigas medievais.

Sua utilização de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda e superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e espontaneismo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estáticas.

MONIZ, Naomi Hoki. 1984, Revista Iberoamericana. University Library System, University of Pittsburgh. USA

Artigo de Euler Belém

 Morre Herondes, o Cezar da crítica de cinema, aos 79 anos


Poema de Emily Dickinson

Dizem, “com o tempo se esquece”,

Mas isto não é verdade,

Que a dor real endurece,

Como os músculos com a idade.

O tempo é o teste da dor,

Mas não é o seu remédio —

Prove-o e, se provador for,

É que não houve moléstia.

(Tradução de Aíla de Oliveira Gomes)

É o Herondes, o Cezar do cinema? Era assim que, eventualmente, eu abordava Herondes Cezar, um dos melhores críticos de cinema do país.

Herondes Cezar era um mágico das palavras, dado seu amplo conhecimento da Língua Portuguesa, do cinema e da literatura. Era uma espécie de Google do cinema. Tanto que, antes de consultar o site de buscas, às vezes eu entrava em contato com o Glauber Rocha da crítica. Com sua memória prodigiosa — derivada da paixão pelo cinema, com que, digamos, se casou para toda a vida —, não precisava consultar nada. Dizia na lata: “Billy Wilder fez o filme “Quanto Mais Quente Melhor”, com Marilyn Monroe e Jack Lemmon, em 1959. É imperdível. Diversão de primeira linha”.

Herondes Cezar escrevia como estilista da Língua Portuguesa | Foto: Facebook

Há cerca de 10 anos, ou um pouco menos, eu e Candice Marques de Lima, minha companheira, almoçamos com Herondes Cezar em Brasília. Ele fez questão de pagar o almoço, num restaurante por quilo; muito bom, por sinal. Depois, fomos para seu apartamento. Lá, escolheu o filme “O Discreto Charme da Burguesia”, do cineasta espanhol Luis Buñuel. Com aquela sua nobreza característica, não disse uma palavra durante a exibição. Depois, perguntou nossa opinião e a escutou atentamente, como era de seu feitio.

Há pouco tempo, em companhia de Candice e do poeta Salomão Sousa — um de seus melhores amigos e amparo —, nos encontramos na Livraria Travessa, no Shopping Casa Park, em Brasília. Herondes Cezar me deu um DVD de um filme sobre a Irlanda e eu lhe presenteei com um livro sobre o jornal “O Pasquim”. Ele agradeceu, certamente por gentileza, porque as cousas da esquerda, naquela quadra da vida, não lhe interessavam mais.

Durante o encontro, Herondes Cezar quase não falou. Porque um crítico de música, chatíssimo, não parava de falar e de fazer declamações. Eu observava o rosto de Candice, Salomão e Herondes e via certo descontentamento. Porém, por educação, não reclamavam. Não fosse pelos três amigos, eu teria dormido ante a vaidade doentia do sabe-tudo bolsonarista.

Poema de Rudyard Kipling

Se

Se és capaz de manter tua calma, quando,

todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.

De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,

de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,

tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,

em armadilhas as verdades que disseste

E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,

a dar seja o que for que neles ainda existe.

E a persistir assim quando, exausto, contudo,

resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.

Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,

e — o que ainda é muito mais — és um Homem, meu filho!

Herondes Cezar, que não era de esquerda, relutou em comparecer para a resenha exatamente por causa do “chato de galochas” (ele morreria de rir da expressão). Mas, em respeito a mim, a Salomão e a Candice, decidiu comparecer.

Recentemente, Herondes Cezar, que morava sozinho — ou melhor, com suas centenas de filmes, verdadeiros filhos —, caiu numa rua, em Brasília. Aceitando recomendação médica, recolheu-se numa casa de idosos. Lá, de acordo com uma pessoa da família, parecia satisfeito, falando de cinema para os novos companheiros de jornada. Aos velhos amigos, sugeriu que havia virado monge e, por isso, rompera com o passado. Não tinha mais passado. Era a senha: não quero contatos. Só a família o visitava (sempre me falou com orgulho de uma filha cantora lírica).

Na quinta-feira, 24, Herondes Cezar — com “z”, insistia, quando enviava algum texto sobre cinema — morreu aos 79 anos. Fui avisado por Salomão Sousa, que teve a delicadeza de me enviar uma reportagem de Danylo Santos, do jornal “Mais Notícias”.

Nascido em Piracanjuba, Herondes Cezar era apaixonado pela cidade goiana — sua Ítaca. Falava com orgulho e lirismo das coisas e pessoas do município, conhecido como a Capital das Orquídeas do Cerrado.

O que Herondes Cezar tinha? Por certo, uma tristeza profunda na alma, uma desconexão com a superficialidade do mundo atual, com suas amizades e ideias, por assim dizer, “líquidas” (na verdade, liquidadas). Havia uma inadequação entre este homem culto e delicado — amigo dos amigos (como Lisandro Nogueira, Lourival Belém e Salomão Sousa) — e a brutalidade do presente. Ele falava baixinho, com seu português escorreito, mas não pernóstico. Era um ser agradável. Parecia um mago… um mago nobre. E era um mago (do cinema) e nobre.

Herondes Cezar, como bem disse Danylo Santos, era crítico de cinema e escritor. Sobretudo, era um intelectual refinado. Porém, modesto, não se considerava como tal. Havia uma cultura sedimentada em Herondes Cezar, por isso parecia natural, e não constituída, durante anos, por vastas leituras e reflexões.

Quando os textos de Herondes Cezar chegavam à redação do Jornal Opção, no qual colaborou por algum tempo, era um prazer editá-los. Primeiro, porque eram muito bons, com alto espírito de síntese. Eram artigos ponderados, meditados. Segundo, porque não havia erros de português. Sua preferência era pela língua cultura, precisa.

O crítico não perdia as cerimônias do Oscar e apreciava mandar as informações a respeito. Aos poucos, porém, foi desanimando. Deixou de postar no Facebook. Talvez estivesse esperando a hora final, que, para um homem de cultura, que deixou livros — como os ótimos “Era Uma Vez no Cinema” e “Becape da Memória” —, só chega em termos físicos. Herondes Cezar permanece vivo pelos livros, por sua crítica de cinema aguda e na memória dos amigos. Entendia tanto de cinema que, quando via um filme recente, era capaz de arrolar as “citações”, sutis ou não, de películas clássicas.

Nós, os amigos, como Salomão Sousa, eu, Lisandro e Lourival Belém (que, como psiquiatra, cuidou dele por certo tempo), amávamos Herondes Cezar, aquele homem magrinho e baixinho, com ar refinado e levemente sardônico. Parecia um lorde britânico nos trópicos.

Herondes Cezar na fala de Salomão Sousa

O poeta, prosador e crítico literário Salomão escreveu no jornal “Mais Notícias”: “Grande amigo. Há ausência física, mas permanece seu espírito ativo, de amizade, conhecimento rígido, quase cético, mas de ilustração de nossa cultura. Visitei a Academia de Piracanjuba sob seu convite, onde fiz palestra. Serei eternamente fiel à nossa amizade”.

Mensagem do poeta Nirton Venâncio

O CORPO DA POESIA

Caro Salomão,

há uma semana que estou mergulhado no seu livro. Fazia tempo que não lia ensaios tão fascinantes.

Deito e acordo com ele. Demoro pelo prazer de saborear cada página. O seu texto é precioso, suas reflexões pertinentes, suas informações valiosíssimas. O ensaio inicial, "A compreensão da poesia", já voltei duas vezes.

Sublinho tudo, dialogo com as menções, anoto as citações. Uma das melhores leituras deste ano.

"Como os corpos, as palavras se agarram, se abraçam e infiltram-se umas nas outras ao serem incorporadas à poesia".

"Vivemos para produzir memória, e a forma de gastá-la ou validá-la se dá ao nos aproximarmos do terreno onírico organizado pelas palavras "

"A poesia não se satisfaz em ser noticiário, receituário e muito menos missiva para a transmissão de conteúdo egocêntrico ou de espavento cínico."

“Só é possível compreender a poesia se esforçamos para nos empoderarmos com a riqueza das sensações, do conhecimento da realidade, do domínio da memória ou se invadimos os interstícios obscuros da linguagem. A poesia se realiza através do equilíbrio das palavras, das sonoridades, da fuga das expressões de óbvias definições."

"Ora a Poesia nos funde; ora, nos confunde. Com a Poesia, fundamos o que é humano."

"Poesia e alteridade", do poeta goiano-brasiliense Salomão Sousa, edição do autor, Gráfica Serafim, 2024.

Artigo III de Marcos Fabrício Lopes da Silva

TRABALHO DURO

O trabalho e a produção são uma parte fundamental e básica da atividade e da cultura humanas. Mais que um homo faber, a pessoa é capaz de atividades superiores e modos de ser mais altos (amor, conhecimento). Na vida, além de trabalho e seriedade, existe lazer e diversão. Sem eles, o trabalho não se entende. Inclusive, ele mesmo pode converter-se em uma maneira de se divertir. O trabalho, em sentido objetivo, constitui o aspecto contingente da atividade do homem, que varia incessantemente nas suas modalidades com o mudar das condições técnicas, culturais, sociais e políticas. Em sentido subjetivo, se configura, por seu turno, como a sua dimensão estável, porque não depende do que o homem realiza concretamente, nem do gênero de atividade que exerce, mas só e exclusivamente da sua dignidade de ser pessoal. A distinção é decisiva, tanto para compreender qual é o fundamento último do valor e da dignidade do trabalho, quanto em vista do problema de uma organização dos sistemas econômicos e sociais respeitosa dos direitos do homem. A subjetividade confere ao trabalho a sua peculiar dignidade, que impede de considerá-la como uma simples mercadoria ou um elemento impessoal da organização produtiva.

A pessoa é o parâmetro da dignidade do trabalho. Hoje mais do que nunca, trabalhar é um trabalhar com os outros e um trabalhar para os outros: torna-se cada vez mais um fazer qualquer coisa para alguém. Também os frutos do trabalho oferecem ocasião de intercâmbios, de relações e de encontro. O trabalho, portanto, não pode ser avaliado equitativamente, se não se leva em conta a sua natureza social. Conforme sublinha o escritor e jornalista Salomão Sousa: “sou dependente de todos que estão ao meu redor para completar as minhas ações e para que o futuro de meu trabalho tenha algum significado. O que sou veio do ensinamento e do exemplo de todos aqueles que passaram pela trajetória de minha vida” (Bifurcações, 2022).

O capital mais de uma vez sufocou o mundo do trabalho, reduzindo os trabalhadores a condições extorsivas e contrárias à dignidade humana. “Pecamos pela gula de riqueza e pela indiferença aos princípios de ordenamento da sociedade. Soma-se a isso a perda da razoabilidade, que é a decisão do indivíduo de pensar e agir de forma injusta, apesar de estar ciente de que segue na contramão da moralidade. A prática da maldade (ruindade consigo e com a sociedade) passou, então, a ser praticada de forma deliberada. Há horizontes em todos os lugares, mas a falta de razoabilidade obstrui todos eles” – lamenta, com pesar, Salomão Souza, em Bifurcações. Convém frisar que as sociedades não são sistemas livres de contradições; sua organização pode vir a tornar-se extremamente irracional. Nesse sentido, no atual momento político e econômico, os construtores da sociedade pluralista devem superar a lógica perversa do lucro. Precisam buscar uma efetiva sustentabilidade, necessária para se alcançar o equilíbrio social.

O conjunto de recursos, atividades, instrumentos e técnicas que permite a cada pessoa o exercício adequado de suas tarefas não pode sobrepor-se ou minar a dimensão subjetiva do trabalho humano. O respeito a esta perspectiva é a consideração insubstituível de cada ser humano e de sua vocação pessoal. “É urgente reaprender a viver em companhia (do latim cum – com + panis – pão, isto é, companhia significa comer o pão junto). Se insistirmos nessa fúria de consumirmos sozinhos o pão, sem nos preocuparmos com a injustiça da pirâmide social, o Homem corre séria ameaça de voltar a nascer com rabo” – argumenta Salomão Souza, em Bifurcações. Trabalhar refere-se ao respeito moral ao próximo e, por desdobramento, é reverência à própria família e à sociedade. Abominável, pois, é o enquadramento do trabalhador na condição de escravizado. Trata-se de um verdadeiro atentado contra a dignidade, com ferida na cultura solidária e civilizada.

A necessidade do trabalho não se refere apenas ao sustento familiar e pessoal, prioridade incontestável, mas, particularmente, ao bem que promove a cada pessoa. Trata-se de direito fundamental. A propósito, à frente da banda Legião Urbana, Renato Russo (1960-1996) compôs e cantou a música Fábrica (1986): “Nosso dia vai chegar,/Teremos nossa vez./Não é pedir demais:/Quero justiça./Quero trabalhar em paz./Não é muito o que lhe peço/Eu quero trabalho honesto/Em vez de escravidão./Deve haver algum lugar/Onde o mais forte/Não consegue escravizar/Quem não tem chance/De onde vem a indiferença/Temperada a ferro e fogo?/Quem guarda os portões da fábrica?/O céu já foi azul, mas agora é cinza/E o que era verde aqui já não existe mais/Quem me dera acreditar/Que não acontece nada de tanto brincar/com fogo./Que venha o fogo então./Esse ar deixou minha vista cansada./Nada demais”.

Com o avanço das tecnologias da informação e comunicação (TICs) não foram poucos os que acreditaram que uma nova era de felicidade se iniciava: trabalho on-line, digital, era informacional, finalmente adentrávamos no reino da felicidade. O mundo do labor enfim superava sua dimensão de sofrimento. Mas sabemos que o mundo real é muito diverso do seu desenho ideal. O mundo das grandes corporações globais não existe sem o trabalho brutal e manual em seus rincões e grotões. As transversalidades entre classe, gênero, etnia, geração, tudo aparece nas complexas fábricas e faz desmoronar o mito dos trabalhos brandos, tecnologizados e assépticos. Ora, como é impossível que todos se beneficiem do modo de vida dos mais ricos, a insatisfação maltrata os indivíduos que teriam podido se satisfazer com sua sorte sem essa comparação. A felicidade, a paz interior, a serenidade vêm da supressão dos desejos ou da conversão a um querer racional, o que não é pouca coisa. “Nossa grande e gloriosa obra-prima” – como bem disse Montaigne (1533-1592) – “é viver adequadamente” (Os ensaios, 1580).

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* Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023) e integrante do Coletivo AVÁ desde 2018.

** Jacob Lawrence (1917-2000): The Builders (Family), 1974.

Artigo II de Marcos Fabrício Lopes da Silva

 SABEDORIAS DE SALOMÃO

O objetivo da crítica é penetrar na obra enquanto lugar de abertura do mundo. Assim nos aproximamos de Bifurcações (2022), escrito por Salomão Sousa, por desejo e necessidade: “Fomos buscá-la/e as luas estavam em órbita/Não conseguimos sequer chocar/com tetos deslocados/Mas quem poderia esperar/que houvesse um ajuste/como as pétalas superpostas?/Retornaremos inúteis/se não pudermos postar/um pouco de ouro no mundo”. O ativismo empático do autor expressa a vontade de que podemos viver em dias melhores para as relações humanas: “A pluralidade de vozes cria a harmonia, desde que a civilidade e a razoabilidade não sejam ofendidas. Em outros países, em outras cidades, em outras casas, as pessoas são idênticas a nós em desejos. Se somos todos idênticos nos desejos, as mãos não podem sair sujas de sangue do abraço”.

O esforço para olhar através dos olhos do outro pode ser pessoalmente desafiador – e por vezes extremamente divertido – , mas tem também extraordinário potencial como uma força para a mudança social. No livro de Salomão Sousa, predomina uma voz autoral que se corresponde nas evidências de que somos Homo empathicus, o que ultrapassa a sombria definição dos seres humanos como criaturas egoístas, preocupadas em se autoproteger, voltadas para seus próprios fins individualistas. Como disse o próprio escritor, questionando o nosso sistema determinista errático, com humor e ironia: “Em época de egocentrismo, com todo mundo se proclamando eu pra cá eu pra lá, o eucalipto deve estar renegando o próprio nome”.

Um conjunto de circuitos da empatia se encontra presente em Bifurcações, livro no qual Salomão Sousa realiza um experimento de viagem bastante proveitoso. Seu estilo “inclusivo” ou “universal” traz notícias de um mundo animado por saltos imaginativos e aventuras experienciais. Expandir nosso potencial empático inspira um novo modo de pensar sobre o que realmente precisamos para nosso bem-estar pessoal, incluindo ampliar a nossa participação na qualidade de vida em sociedade. “Cuidar de si mesmo” está se tornando uma aspiração ultrapassada à medida que começamos a perceber que a empatia está no cerne do ser humano. Estamos no meio de uma grande transição da era cartesiana de “Penso, logo sou” para uma era empática de “Você é, logo sou”.

“Quem destoa do amor gera rubis de sangue seco”, adverte Salomão Sousa. Na esteira sugerida pelo autor, deveríamos falar mais sobre nosso “déficit de empatia” – nossa capacidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa, de ver o mundo através dos olhos daqueles que são diferentes de nós. Percebendo uma “epidemia de narcisismo” pairando no ar, Salomão Sousa defende a sensibilidade empática agindo pelo princípio do verbo: “Escrevemos e lemos para organizar novos arranjos para as palavras, onde surgem novos significados, novas propostas de relações sociais, onde os indivíduos, as comunidades e as nacionalidades passam a se (re)conhecer, a se respeitar e a enriquecer. A leitura é um gesto solitário, mas acumula no indivíduo a compreensão dos espaços que deseja ocupar. A manifestação de argumentos agregadores estimula a concórdia e a sobrevivência da liberdade”.

Há que se aprender o sentido da gratidão por quem veio antes de nós e a generosidade pelos que virão depois. Uma surpresa no caminho nos lembra a razão de caminhar. Ler Salomão Sousa nos oferece uma sabedoria bifurcada, desconfiada da álgebra do conquistador, onde a unidade é a única medida que conta. O conceito de pureza perde também o contorno exato de seu significado. É notório o desencanto hegemônico diante da poética da diversidade. Para Salomão Sousa, as culturas não são, mas estão dentro do processo da Relação, e a função exploratória das artes e das literaturas coloca-se como urgente e necessária no árduo trabalho de fazer emergir a complexidade, tendo em vista pensar os caminhos possíveis para a preservação da diversidade dentro da confluência das culturas.

Os deslocamentos e as errâncias tornam-se constituintes da Poética Bifurcada de Salomão Sousa, que coloca em xeque o atalho das conclusões dualistas para traçar um “rizoma com o mundo”, numa delicada busca de deciframento do real, tanto no campo estético, quanto nos campos histórico, político e ideológico. Diante da bifurcação que se impõe entre poesia e prosa, o autor vai de miscelânea, combinando literatura e filosofia, sem deixar o “ser” voando com uma só asa. O fôlego ensaísta e acadêmico do autor nos oferece gás de maratonista, na contramão dos apressados de plantão que só querem bater recordes e deixar logo a pista do acontecimento.

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* Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023) e integrante do Coletivo AVÁ desde 2018. Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF).

Artigo I de Marcos Fabrício Lopes da Silva

 INTELIGÊNCIA ALTERITÁRIA

Aceitemos, por enquanto, essa versão da história: a década de 90 do Século XX consolidou uma tendência – a presença de computadores nos ambientes de praticamente todas as áreas do trabalho e do conhecimento – a qual, nos 40 anos anteriores, vinha sendo silenciosa e talvez involuntariamente semeada, uma vez que estes equipamentos eram inicialmente vistos apenas como ferramentas de pesquisa científica e de uso militar. Seu uso pessoal não foi um projeto acalentado de forma planejada pela comunidade científica e tecnológica, e acabou explodindo pela ação de jovens estudantes californianos entusiasmados pela computação, alguns dos quais com afiadíssimo senso de oportunidade empresarial, aliado a enorme criatividade, como foi o caso de Steve Jobs (1955-2011), desenvolvedor do padrão de interface de janelas, no pioneiro Macintosh; e de Bill Gates, que apropriou e disseminou a ideia de Jobs, associando-a a disseminação de softwares dirigidos a várias atividades profissionais, através do hoje onipresente sistema operacional Windows.

Falemos agora do surgimento e consolidação do sistema operacional Linux em um contexto marcado pela hegemonia de sistemas operacionais comerciais, sendo o Windows/Microsoft o exemplo paradigmático. O idealizador do Linux optou por abrir o seu código-fonte e oferecê-lo, gratuitamente, na Internet. Desde então, pessoas de diversas partes do mundo têm participado do seu desenvolvimento. O sistema Linux, simbolizado pelo pinguim de bico e pés alaranjados, foi escolhido a dedo pelo finlandês e cientista da computação Linus Torvalds, autor da façanha no mundo da tecnologia. Ao contrário de sistemas “proprietários”, como o Windows/Microsoft, essa forma de produção de software – cooperativa, descentralizada e “anárquica” – foi chamada, por Eric S. Raymond, de “método bazar”, como contraponto ao “método catedral”, “forma centralizada e controlada de se desenvolver software” e que “necessita de um arquiteto central” (A Catedral e o Bazar, 1999).

Ao tentar reconhecer as boas intenções da inteligência colaborativa, os projetos open source (código aberto) particularmente me animam, não só pelos avanços tecnológicos, mas principalmente por discutir um dos grandes nós do capitalismo informacional ou cognitivo: os encontros e os desencontros entre propriedade intelectual e liberdade criativa. Existe autoria puro-sangue no mundo, aquela capaz de separar o joio (cópia) do trigo (original) perfeitamente? Não é a leitura do outro que promove especialmente a escrita de si? O que dizer do novo se ele parte da velha vontade de mudar? Como lidar com o plágio incômodo e o autêntico trabalhoso? A tese defendida por Harold Bloom (1930-2019), sobre “angústia da influência”, qualifica o debate pela criação. A ânsia de invenção pode nos levar à euforia da “visão profética” ou da “imaginação visionária”, o que deprime a honestidade intelectual e a humildade sensível profundamente. Como indica a leitura segura de João Cabral de Melo Neto (1920-1999):

“Um galo sozinho não tece uma manhã:/ele precisará sempre de outros galos./De um que apanhe esse grito que ele/e o lance a outro; de um outro galo/que apanhe o grito que um galo antes/e o lance a outro; e de outros galos/que com muitos outros galos se cruzem/os fios de sol de seus gritos de galo,/para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo, entre todos os galos” (Tecendo a manhã, 1966). Uma leitura popular do poema já nos avisa da importância do trabalho em equipe para a realização de uma empreitada. Deveríamos saber que a leitura é individual, mas a autoria é coletiva. Os iluminados me cansam. Os ilustrados têm meu total apoio. Se hoje estamos sentindo o som e a fúria da Inteligência Artificial (IA), fazendo um barulho ensurdecedor, não foi por falta de aviso prévio. A Inteligência Humana vem perdendo o interesse pela realidade. Ficando com a virtualidade, alimentamos o conto da autossuficiência relacional que atende aos desejos e às necessidades de uma civilização baseada em controlar a energia erótica das pessoas. O desempenho é pornográfico; o encantamento é erótico.

“Numa época em que o único pendor do homem é para o egocentrismo, que o único verdor do mundo é a supremacia da máquina –, só poderíamos contar com a alteração dos processos de memorização. A memorização visual que ainda existe acaba ocorrendo com parcialidade. O indivíduo não quer mais intimidade, passeia com indiferença e, se manifesta alguma interação, a agressividade tem predomínio na hora de ele aproximar-se da natureza”. Essa declaração foi dada pelo escritor e jornalista Salomão Sousa, em livro super-recomendado. Momento crítico, publicado em 2008, revela o olhar arguto de um pensador fundamental para identificar o fácil enganoso e o difícil atraente. Além de honrar as melhores tradições ensaísticas, o autor investe na bela combinação entre literatura e filosofia para acolher achados e perdidos. O lado tóxico da Inteligência Artificial, por exemplo, nos afasta da Inteligência Afetiva e nos coloca diante da acídia contemporânea:

“Só no confronto com a natureza e com outras pessoas há a construção da consciência de que não somos o centro do universo. De que outro também constrói seu espaço, onde todos nós teremos de nos mover. Só o solitário acha que o mundo é todo dele. Ele acha que a corda está sobre o abismo só para ele. Temos de compreender: quando a corda partir, e a ela estivermos agarrados sobre abismo, só o outro para arremessar outra para nos soerguer”. Diante de tamanhas palavras, expressas por Salomão Sousa, proponho mais atenção e carinho aos princípios da Inteligência Alteritária, atitude que permite que a igualdade e a diferença deem um sentido mais feliz ao encontro entre as pessoas.

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* Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (NEIA/FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Comunicador Social formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Jornalista e autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023), além de participante do Coletivo AVÁ desde 2018.

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