Poesia que percorre caminhos e encontra miragens

Sônia Elizabeth

 Um poeta que inicia seu livro com versos assim: “Enganou-se quem partiu/para legar-me ao abandono. /Uma caravana de formigas/entra por minha porta” é merecedor do cheiro bom das folhas de eucalipto sacudindo perfume pelo seu rosto. Ou então da brisa suave resvalando por entre os capins, ainda que insetos voadores procurem abrigos na garagem comum de qualquer casa, em especial a casa do vate, ficando ali inertes, à espera do último suspiro.

A poesia de Salomão Sousa, nesse livro Certezas para as madressilvas, é um oceano de procuras e achados, descobertas, constatações. Nunca se desprega da aba do cotidiano, o existente, experimentado, visto e palpável. Então, muitas vezes beira a dureza, justamente porque os versos são reais e batem, martelam o calcário da vida, porém abertos a preocupação constante com os bichos que o cercam, o seu habitat: “…Não salvei o meu quintal, os ovos de meus pássaros…” E a estilística dos quintais: “…Folguemos com o tema de amadurecer amora…” (“O tema de amadurecer a amor”). Imagens bonitas, a observação dos frutos, suas entranhas: “…ou cajás grátis/só porque são ácidos e de entremeadas nervuras…” (“Dourada sineta”). As dores que naturalmente surgem das incertezas, ferindo corpo e alma. É preciso remédio: “…O pote de unguento posta-se sobre a mesa/para quando minguarem as certezas… (“Rumos de Siracusa”). Salomão recria a linguagem com inteligência solta e livre, um toque natural em tudo: “…Há a obediência da terra/quando acertamos a charrua,/experiência antiga de revolver,/talos convenientes, espigas…” (“Ares dos Césares”). Versos bem elaborados, ricos, ouro puro.

A vida é calabouço, regras, principiados. Opaca luz onde o martírio se impõe, a letra morta: “…não fez a contagem, quem implantou a cerca/não sabia como deixar uma madeira solta/e no instante da fuga aprisionou-se…” ou “…não há como negar o DNA da bala/se a lataria prova, se o sangue coagula/e a medula imobiliza a fala e a retina…” (“A mútua negativa”). “Oratio fascio” é um poema magnífico, antológico, evocativo. Firme propósito de ser o que se é, acreditar naquilo que sopra nos ouvidos de maneira forte e persuasiva, manter-se firme. O poeta expressa sua personalidade em versos assim: “…O diabo não amassará o meu pão/pois terá de enfrentar outro tridente em minha mão…” Encantamento puro esse cotidiano por onde o poeta passeia, inebriado, saudando a palavra, o verbo, a laranja e o fungo. Aplausos, Salomão, aplausos efusivos!

Isso de observar e valorizar insetos, larvas e acidentes tais, é mais ou menos como garimpar riquezas no chão, o olhar voltado para o que passa desapercebido. Papel digno do poeta auscultar silêncios que são vozes, ritmos que se perdem na pressa das metrópoles. Falo do poema ”Bom dia”. Em “Festejos do mofo”, Salomão saúda o que o mundo tem de imundo, desidratado, roído. Um soneto moderno em “Casca de casulo”. A percepção nítida de declarar que o poeta não se aliena, não enfia a cabeça no buraco, vê, revê, indigna, vocifera, em um poema singularíssimo. Eis: “…Por que a minha casa/tem dois metros de altura?/Não tenho a aptidão da formiga/para habitar dentro do chão…” (“Inaptidão”). Encontro elegância, gênio e estilo nos versos de “No coração de Terra”, dedicado a Kori Bolívia, assim como em “Rebrilho”, quando diz: “…E ainda há tempo de cobrir as sementes…/E ainda há tempo para juntos/vermos o rebrilhar da resina numa folha.” Loucura um poeta que destila um verbo dessa maneira: “…Vou me integrando como um camundongo/à toca quente, quando devia ser a antena/à espreita sobre o telhado, ao sol inclemente… (“Grão seco”). Isso de liberdade conquistada, até pelo submisso amigo do homem: “…Livra-se de nós um cão, um companheiro/quando arranca a vedação de uma porta...” (“Abdulrazak Gurnah”). Isso de terra, frutos, junção de vida e palavra: “…A amora soube amadurecer. Soube a semente achar a fertilidade com o húmus…” (“Leme nas mãos”). Isso de amoras e bichos da seda, isso de criatividade e elegância verbal: “…Se não pomos os casulos na bojuda tina/seremos poupados da organização da seda…” (“A seda”).

Salomão tem a dizer e diz, com incrível propriedade: “…Tenho de encontrar outro que ria,/o que acenda o fogo após a alforria…” (“Quando nasci”). Até para falar de sentimentos o poeta insere a natureza e seus frutos, insetos etc. Feito o que clama: “…Traga-me cestos amarelos/para eu encher de cavalos azuis/goiabas furadas por lagartas/e pincéis famintos de verde e vermelho…” (“Casa de bonecas”). Salomão trabalha a palavra numa modernidade única, original, feito o que observamos em “Cansaço do ouro” e “Brisa”, numa consciente visão e observação do mundo e suas coisas, seus tons dourados ou nem tanto. Uma capacidade sem precedentes para falar das faíscas, fuligens, sujeiras que se misturam aos objetos, conforme o poema “O vento colhe amoras”. A magia está nisso de venerar os pequenos seres, embriagar-se com eles, imaginar até (sim, Salomão pode) um coró envolto em anel torto e sujo sobre a calçada (aqui a imaginação é minha, leitores, feito alegoria) e encantar dessa forma: “…Quando eu for uma formiga/escaparei de uma ponta de rua…” (“A paisagem da formiga”). E por falar em madressilvas, a bela trepadeira que em flor se ilumina, que pode ser cerca viva e esplendorosa, mas a dos ramos, das folhas, das flores, da paz, não a cerca que limita e esconde. Assim diz o poeta: “…O que o colibri quer de um cacho de madressilvas/não é o que o homem quer/com a construção de uma cerca.” (“Destino óbvio do que somos”). O conceito poético de liberdade: “…Mas ser livre não é dissimular/ser uma libélula morta/É ser arrastado para ser servido /numa refeição de formigas/ou desfazer-se vivo na brisa de bálsamo.” (“Rodar onde?”)

O formato do amor é musical, pelo menos nesses versos de abundante magia: “…O que finda é a vontade de saber/ou a luz que incide sobre o piano,/que permanece no espaço/com todas as notas para animar o amor…” (“O amor não finda). E mais ainda, altissonante e belo: “…Para que os delírios/para que a infâmia!/Entrego-me ao que abraças/ao que guardas. Aos teus lírios.” (“Enxergo em ti”). Com discreta disciplina (própria dos que sabem bem escrever), o poeta pasma, poeticamente pasma diante dos desatinos, dos loucos desalmados. E brada: “…E em mim há urgência de reclamações vivas,/de afugentar loucos/acampados em nossos palácios./Há urgência de igarapés,/ de formigueiros e lanternas amigas.” (“Igarapés”). E esse desfecho honroso, sábio: “…Rastreio quem entra em minha cidade/com uma lanterna amiga/Não há desfecho, há jornadas.” (“Não há desfecho”).

Empolgo-me tanto com a poesia de Salomão Sousa que aquilo que deveria ser um texto de apresentação acabou se transformando em tentativa de ensaio, estudo mais aprofundado da obra. É que a boa poética faz a gente viajar, sem regras, sem limites, sem hora para colocar termo. Fui navegando, remando, fui indo. Desse jeito. Abraço, poeta especialíssimo Salomão Sousa!

 Goiânia, setembro de 2023

Apresentação de Wil Prado

                                                   SEGUINDO OS PASSOS DO POETA

                                                                               I

                                                         Na estrada com Salomão.

    Conheci Salomão Sousa no início de 1977, no extinto Correio do Planalto, quando ele, no último semestre do curso de Jornalismo, chegava ao jornal para fazer seu estágio, e fora lotado na editoria de polícia, onde eu trabalhava há algum tempo como repórter. Eram anos de chumbo, repressão e censura, mas, jovens e idealistas, achávamos que poderíamos mudar o mundo. E a literatura era a única janela que tínhamos para flertar com essa mudança.

               Nosso trabalho de repórteres de polícia não era nada romântico. Visitar delegacias, locais dos crimes, entrevistar bandidos e vítimas — uma rotina tenebrosa mesmo para repórteres experientes, que dirá para “focas”.  Contudo havia uma válvula de escape: “O grito da Cidade.”— espaço que o jornal reservava para crônicas, aberto a todos os membros da redação. Salomão e eu terminaríamos usurpando a tal coluninha. Era lá que fugiríamos da bruta realidade dos crimes para dar vazão à fantasia. E ali Salomão e eu publicamos nossas primeiras prosas literárias.   

               Concluído o seu estágio, Salomão, que, desde 1973, era funcionário da Fundação Educacional do Distrito Federal, mudou para Ministério da Economia. O Correio do Planalto iria à falência e eu passara a me virar como freelance.  Mas nossa relação de amizade continuaria através de lançamentos de livros, revistas literárias, encontros de escritores — e tudo o mais que se referisse à Esquiva Dama.   Amizade que nos ligaria para sempre, ainda que com alguns hiatos, uns largos, outros nem tanto, por conta e culpa dos calços e percalços da vida.

Sua passagem pela redação fora breve, contudo, dela Salomão levaria para toda vida a amizade de Archibaldo Figueira, repórter político e um dos primeiros tradutores de Agatha Christie no país.                        

               Um terceiro amigo — Ronaldo Alexandre — também tirado a poeta, viria se juntar a nós, formando o trio que, apropriadamente, Salomão intitularia de “Os três mosqueteiros”. Amizade que seria cultivada entre encontros e saraus, e que pariria dois números de Esbarros, um folheto artesanal, xerocado e grampeado por nós mesmos, reunindo poemas de Salomão e Ronaldo aos contos desse escriba.

               Trindade, todavia, que não resistiria por muito anos às agruras literárias:  o terceiro mosqueteiro, mais dotado de juízo do que os outros dois, não demoraria a abandonar o circuito literário para se tornar funcionário ministerial. No que, temos que reconhecer, agiu com a mais pura sensatez. Contudo, a amizade entre os três permanece até os dias de hoje.

               Em uma cidade nova e ainda sem pontos culturais definidos — a Brasília da década de 70 —, descobríamos a Associação Nacional de Escritores (ANE) — funcionando provisoriamente em uma sobreloja da SQS 415. Lá manteríamos os primeiros contatos com a intelectualidade local: Almeida Fischer (fundador e primeiro presidente), Cassiano Nunes, Anderson Braga Horta, Domingos Carvalho da Silva, Fernando Mendes Viana, Napoleão Valadares, Alan Vigiano, Danilo Gomes, Esmerino Magalhães Jr. e tantos outros que a memória me rouba.

               Outro achado da época foi o Encontro Nacional de Escritores.  Promovido pela Fundação Cultural do Distrito Federal, anualmente reunia escritores em torno de palestras e debates, quando eram anunciados os vencedores dos prêmios de poesia, conto e romance.  Ali tivemos a oportunidade de conhecer celebrados nomes da nossa literatura.

               Num desses Encontros iríamos conhecer Inácio de Loyola Brandão, que nos autografaria o seu premiado Zero, recusado por quatro editoras nacionais, e publicado com estrondoso sucesso na Itália. Anos depois, sairia no Brasil, infelizmente censurado, logo em seguida, por “atentado à moral e aos bons costumes”. Nesse breve encontro, em uma suíte do Hotel Nacional, ele, indignado, anteciparia para nós parte do discurso que faria logo mais ao receber seu prêmio.  Em cima da hora, na azáfama, Loyola se deu conta de que não havia trazido um paletó. O que fazer? Olhei bem para ele, tinha mais ou menos o mesmo corpo que eu, calculei. Não tive dúvidas, tirei meu paletó e emprestei para ele. E assim, os três, atrasados, descemos para o auditório.     

               Mas esses Encontros, por vezes polémicos, também tinham o seu lado glamouroso. E um deles seria a recepção oferecida por Dinah Silveira de Queiroz, na sua residência, onde teríamos a oportunidade de conhecer a lendária mansão “A Muralha”, título de um dos seus sagrados romances.      

               Jorge Amado veio à Brasília lançar seu Tieta do Agreste. Na fila de autógrafos — quase dobrando o quarteirão —, o poeta, eu e Esbarros 2, folheto com capa do cartunista Siroba, colega de redação. Não podíamos perder a oportunidade de empurrar o livreco, ainda que soubéssemos que o festejado escritor recebia dezenas de livros e manuscritos por onde passava; e aquele seria apenas mais um a entulhar sua estante, quiçá o cesto de lixo.

                Qual não foi a surpresa ao recebermos, pelo correio, livros do autor com generosas dedicatórias.  “Para o poeta Salomão Sousa, admirador da sua poesia que não é cera — é clama!” “Para Wil Prado, com os votos de um feliz ano-novo com paz, liberdade e bom trabalho literário, do leitor (e admirador) dos seus contos publicados em Esbarros 2. Gostei; realmente!”  

               Noutra oportunidade, João Antônio, que acabava de lançar Leão de Chácara, veio a Brasília, convidado pelo diretório acadêmico de uma Universidade local. Durante a palestra, dele nos aproximamos, tornando-nos amigos, ocasião em que aproveitamos para convidá-lo a fazer outra palestra na UnB, onde eu estudava à época e tinha certa ligação com o diretório estudantil. Só que, na empolgação, esquecemos de alertar ao palestrante sobre o momento conturbado que a universidade atravessava:  protestos contra o regime, assembleias estudantis, pairava a ameaça de greve geral, a essas alturas já com todos os acessos bloqueados e cercada por policiais militares e civis. 

               Foi nesse clima de guerra que João Antônio, Salomão e eu penetramos pela ala sul do minhocão, até o anfiteatro onde se realizaria a palestra. Lembro-me que logo ao chegar ao campus ele estranhou a situação. Explicamos que não haveria problema, pois tínhamos a autorização do Departamento, e havíamos nos comprometido a não falar de política. Ele nos olhou meio incrédulo e desabafou: “Porra, vocês estão me levando para dentro da toca dos leões!” Contudo não se intimidou; e, para felicidade dos três, a palestra ocorreu sem maiores contratempos. Teoricamente, o João não era um escritor engajado, contudo não fugiu às inevitáveis perguntas políticas dos estudantes — que esse pequeno episódio fique aqui anotado para uso de algum biógrafo de plantão.

      Por competência e mérito, no Ministério da Economia, com os anos Salomão galgaria os devidos postos até chegar ao cargo de assessor; ao passo que eu, acomodado no IBGE, subalternamente, me empenhava em levantar dados estatísticas que, a contragosto do establishment, revelavam as carências sociais da população brasileira, cada dia mais acentuadas, embora o ufanismo do regime insistisse em dizer que “Esse é um país que vai pra frente!”

               Contudo, mesmo agora em regime de tempo integral, sempre achávamos um jeito de contribuir, com matérias literárias, para revistas e jornais. Eu, como sempre, em navegações de pequena cabotagem, ao passo que ele já se lançava além-mar, inclusive selecionado pela revista Anto, de Portugal, sob o título de 47 poetas brasileiros.

               A essas alturas, Salomão já com vários livros publicados, era partícipe de importantes antologias regionais e mesmo nacional, como A nova poesia brasileira, selecionada por Olga Savary e a Poesia goiana do século XX, organizada por Assis Brasil.  

      Faço aqui um parêntese para revelar um episódio à parte. Ora direis: e o que tem isso a ver com o caso? Eu explico. Pode que talvez sirva de matéria a futuros exegetas do poeta; senão que pelo menos de consolo a alguma alma solitária.

       Era um furioso fim de tarde, desses que só ousam acontecer em Brasília. Íamos à cata de alguma livraria ou de uma mesa de bar. (À época, havia uma boa simbiose entre ambos, como foi o caso da livraria Leitura, do bibliófilo José Salles Neto, onde passamos algumas tardes de sábado).  Ele ia cheio de planos e poemas, vazando versos dos bolsos; eu, casmurro e cabisbaixo, de veio e vida vazios. Ele vinha de livro recém-publicado, eu de uma paixão mal resolvida. De repente, não mais que de repente, como um soluço, larguei a frase no ar: “Ando no mundo da lua e sem ver estrelas.”. Na hora, ele nada disse. Mas, dias depois me mostrou um poema intitulado “Roubo dos Versos”:  “Estou no mundo da lua/e sem ver estrelas. //Roubo estes versos/ de alguém que os disse/na rua. /Roubo como se rouba/os olhares da moça/debaixo dos braços do moço. //Ficarão para serem teus, /para com eles/recolher estrelas/de ti perdidas.”.

               O que mais dizer de um cara que flagra a alma da gente, rouba nossas inquietações mais íntimas e cristaliza tudo isso num poema tão singelo?!

               Só posso acrescentar que, entre encontros e desencontros, percorremos juntos um dos trechos mais belos da nossa existência, até que a “força” da vida — como ela sempre faz — se encarregou de afastar-nos, brandindo as armas da sobrevivência: trabalho, casa, família, obrigações à torto e a direito! E cada um seguiu o seu caminho. Ele, contudo, embora encarcerado em funções burocráticas, permaneceria fiel ao seu mister poético, participando de lançamentos, palestras e lançando seus próprios livros, colhendo admiração dos seus pares e o respeito dos críticos; enquanto eu me dispersava por outros desvãos, nada literários, ainda que nunca perdesse o fito da literatura. 

               Com a licença do poeta (pois bem sei que não estou aqui para isso!), mas termino por meter o bedelho aonde não fui chamado. Prestei-me a dar mero depoimento sobre nossa ciranda literária — já que amigos fomos de juventude literária — e agora extrapolo, invadindo gleba que não me diz respeito, posto que não sou poeta nem crítico nem nada. É que muito toucou-me a leitura do denso manuscrito, e não pude conter-me.  Não tenho qualquer dúvida de que é o mais ambicioso e abrangente dos livros do poeta.

               Em uma linguagem estranhamente trabalhada, com metáforas invertidas (pervertidas?), a biografia poética resgata o que viu/viveu, mas também o que não viveu nas suas lembranças interioranas pelos charcos e calvos dos rios da sua infância. Mas também é a biografia do imaginário, do que nunca existiu, mas existe no memorial da imaginação.   

               No Evereste da carreira literária de Salomão Sousa, olho para cima um tanto pasmo. Aqui está o homem-poeta, com toda a sua carga de emoção e espanto. E, mudo, só posso dizer que é com imenso júbilo que recebo esse presente: o privilégio de puder ajuntar minhas palavras superficiais e passageiras a análises profundas e duradouras de críticos abalizados.

                                                                    II

                                                          O REFÚGIO DO GUERREIRO

 

               Agora quero falar da casa do poeta. Quem já teve o privilégio — entre os quais me incluo — de frequentá-la há de concordar comigo que ela merece um capítulo à parte na sua biografia.       

                 Começo destacando a sua emblemática proximidade com a linha do trem, dando-lhe um romântico ar de casa do interior (em plena capital da república), e favorecida ainda por ser a última do conjunto, que acaba em uma área verde querendo se fazer de bosque. É aí que o poeta — saudoso das suas remotas origens rurais, talvez — ultimamente tem retomado o contato com as pequenas coisas da natureza, aguçando seu faro botânico-biológico.  Já o ouvi por mais de uma vez contar da sua proximidade com pássaros — sabiás, sanhaços, joões-de-barro —, borboletas, libélulas e outros insetos, minunciosamente investigados pela sua curiosidade poética. Influência de Manoel de Barros, um dos seus poetas prediletos? Talvez.

               Agora vamos deixar o bucolismo da paisagem e adentrar à casa propriamente dita.

               Desde que lá estive pela primeira vez, que muito me impressionou a quantidade de livros lá armazenados. Uma verdadeira biblioteca particular. É sabido que escritores gostam de livros — faz parte da nossa formação — e pude constatar isso na casa de muitos que conheci. Mas nada semelhante ao que encontraria na casa de Salomão. São milhares de volumes a transbordarem das estantes, escalando paredes, invadindo desvãos de escadas, garagem, mesas e sofás — como as águas de um rio a transbordar por todos os lados. E a auto pergunta era insopitável: porque Salomão compra tantos livros, se tem consciência de que é humanamente impossível lê-los todos?

               Essa resposta eu só encontraria muitos anos depois, ao ler um dos seus mais belos e pungentes depoimento — “Reflexões do autor”, in Safra quebrada: “Até perto dos quinze anos, não tive outro livro entre as mãos além da pequena cartilha que meu pai buscou na cidade para que eu fosse alfabetizado...”.  A atitude de se cercar do maior número de livros possível não seria uma forma de compensar a carência deles na infância-adolescência?     

               Deixo a questão para exegetas e analistas, cuido aqui apenas de tentar recriar o clima acolhedor e aconchegante daquela que se tornaria um ponto de encontro. Lá o poeta, hospitaleiro e aglutinador, reuniria os amigos não apenas para falar sobre livros e literatura, mas para literalmente compartilhar a vida — e tudo isso, é bom que se diga, regado a umas boas doses de vinho ou cuba-livre, que também ninguém é de ferro, né? Para tanto, claro, ele sempre contou com a cumplicidade da sua companheira Tita, às vezes um tanto distante da ebulição vocabular de excitados convivas, mas sempre serena e atenta anfitriã.

       Nessa casa, eu teria a fortuna de conhecer interessantes personagens dos meios literários, como os poetas José Godoy Garcia, João Carlos Taveira, Nilton Maciel, Esmerino Magalhães Júnior, e, mais recentemente, o crítico de cinema e memorialista Herodes Cézar e o professor e poeta Antônio Miranda, amigos de sala, cozinha e biblioteca. Velhas amizades que o poeta — embora sempre angariando novas —, tem tido o cuidado de preservar. “As amizades são grandes ramas que temos que cuidar com claridade para impedir que parasitas depositem seus danos sobre elas”. É uma bela metáfora que ele, ao longo de toda a vida, vem cuidando de regar.

               Contudo, é bom que se registre que essa pacata casa não foi palco apenas de embates culturais. Também seria o picadeiro de um importante encontro político. Vou explicar isso melhor.  Embora não seja um homem partidário (ainda que sua poesia nunca tenha deixado de ser engajada, no bom sentido da palavra), por um acaso do destino Salomão iria se ligar à Cristovam Buarque.

               Sucede que o poeta estava organizando Conto Candango e o contista Cristovam fora indicado por um amigo comum para participar da antologia. (Anos depois, já reconhecido como político e escritor, Cristovam diria que Salomão foi o seu primeiro editor). Desse contato brotaria uma relação de amizade que se estenderia além da literatura, entranhando-se mesmo pela política, a ponto de podermos afirmar que foi na casa do poeta que ele realizaria uma das primeiras reuniões de sua campanha para governador do Distrito Federal.  Ele, que foi um dos primeiros a acreditar no seu potencial político de Cristovam, reuniu vizinhos, parentes e amigos para debate com candidato.

      Não se assustem. Para a felicidade nossa, e de todos os seus amigos e admiradores, Salomão não se deixou contaminar pelo vírus da política. Continuou a laborar seus poemas, dando-nos, de tempos em tempos, os belos volumes que hoje fazem parte da história da poesia brasiliense. Haja visto a sua inclusão — em ensaio crítico de Alessandro Eloy Braga, divulgado pela internet e com previsão de edição em 2021 — entre os mais significativos autores da cidade.

               Poeta do seu tempo, Salomão esteve sempre à crista do novo, e, com o advento da internet, foi um dos primeiros escritores a criar seu próprio blog. “Safra-quebrada”.

       Para finalizar. Ainda que os versos não estejam à altura, é com eles que faço minha derradeira homenagem:

                                               

                                             CANTARES A UM ARTESÃO

                                                             Para Salomão Sousa

 

                                          Com as ferramentas da intuição

                                          e a argila do dia-a-dia,

                                          vais moldando a tua poesia.

 

                                           Como o padeiro amassando o pão,

                                           as palavras vão brotando

                                           uma a uma das tuas mãos.

                                          

                                           Artesão de matéria indefinida,

                                           Sopras no barro sem formas

                                           o fôlego infindo da vida.

 

                                            Uma pitada de angústia,

                                            uma gota de solidão:

                                            plasma o orvalho em canção.

 

                                            Sabedoria de Salomão,

                                            teus salmos transcendem à matéria:

                                            a poesia — é a tua religião.

Carta do poeta Valdivino Braz

 Caro Salomão Sousa

Que bom falar com você! Auguro-lhe saúde e paz interior, se ela nos seja possível após o caótico alvoroço dos quadrúpedes que, volta e meia, assolam o solo em que pisam, e a poeira dos escombros, com suas infectas partículas, ainda mal se abaixou ao chão sob o ar insalubre que respiramos.

J´Acuse recebimento, na recém-sexta-feira do dia sexto deste agosto em curso, de exemplares dos seus dois novos livros: Certezas para as madressilvas e Poesia e alteridade, endereçados a mim, extensivamente ao meu dileto amigo Delermando Vieira; ele e eu que compomos um “duo”, como você diz, e diz a bem da verdade, e vou aqui rimando com amizade. Delermando anda quieto (e quieto ando eu); há meses que não o tenho visto; entrei em contato para ele vir pegar os exemplares que você autografou para ele.

Logo peguei a ler e terminei de ler suas emblemáticas madressilvas, alusivamente diretas para serem (redunda dizer) alegóricas. Um refino poético, como lhe é próprio ao estilo. Apontam-lhe influências de João Cabral, Drummond, entre outros; a mais captamos alguma ressonância formal de Alfred Tennyson (pelo qual você nutre manifesta simpatia, pois não?) e de Eugene Montale (Ossos de sépia), com um certo hermetismo, finura formal e poeticamente imagética. Ou não?

Do ódio aquartelado (bem-entendido) para as ruas da turbamulta enceguecida em alvoroço, resulta uma poesia de contraponto a tudo que nos afeta, direta e coletivamente, em face do quê, um poema não deixa de ser uma forma de ato público. É quando as palavras se fazem iluminuras imagéticas pelo som, pela pictórica tonalidade e epifania de seus desenhos, no sentido de entendimento ou compreensão da essência de algo pertinentemente implícito. Inerentemente, in essentia, a oportuna pronúncia do sentimento ante as explícitas verdades então reveladas em seu maldito reduto.

Prezado Salomão, em seguida, e, claro, por referir-se a Goiás, logo li seu ensaio sobre quando a poesia goiana houve de dar combate aos “tumores” do “matadouro do dia”, alusivamente aos “anos de chumbo” em nosso escolado país de sofrimentos de ordem política. Faltou, no passado, da parte de doutos estudiosos (se é que isso interessava tanto quanto louvar a vanguarda estética do GEN); uma visada mais alentada com atinência à vertente sociopolítica nos versos de poetas locais, a exemplo mesmo, dentre outros, de um Brasigóis Felício, Delermando Vieira, Tagore Biram (com influências de Maiakóvski e Bertolt Brecht, além de Neruda, os três sempre referidos por ele). De minha parte, bem antes de um “simbolismo tardio e demoníaco” e dos meus avanços com a metalinguagem, vinha eu com As faces da faca, A palavra por desígnio e O animal político de Aristóteles, marcas primeiras do explícito viés sociopolítico em meus escritos.

Quando o editor José (Zezinho) Oriente leu os originais do meu livro As faces da faca, me disse que teria que “levá-lo à Censura”, então obrigatória, imposta ao país por repressora impostura de caserna e coturno. Eu disse ao Zezinho que, se o livro fosse ao Censor, não seria publicado (senão coisa pior), e assim ele não ganharia meu dinheiro pela edição, e eu não teria meu livrinho impresso. Argumentei que, se ele se arriscasse comigo, publicaríamos o livro; ele então ponderou e publicou, e não aconteceu nada de mal.

No mais, caro amigo Salomão, devo continuar lendo seus ensaios em Poesia e alteridade, e/ou, digamos assim, alteridade da poesia em questão; o “eu-individual” em relação ao outro. Em seu comentário sobre um poema de minha autoria, vem com destaque em itálico a palavra cuzido (que foi um cochilo meu, quando o certo é cozido, e do qual me dei conta na época, mas então o livro já saíra publicado --- lamentáveis cochilos. Na leitura, observo que, na página 59, se bem entendi (ou entendi mal?), você comenta “tumores” como sendo de um verso do poema “Matadouro”, do Brasigóis, e o verso é do poema “Prólogo”, de Tagore Biram: “eu viro as costas e não me importo / e abro as portas dos meus tumores.”

Eu aqui vou indo bem, 82 anos, apenas um pouco pênsil no equilíbrio, feito a torre de Pisa. Há meses que nem vou até a UBE; ando às voltas com a saúde, vezes várias indo ao médico, e já estive em três UTIs; na primeira delas, com inflamação generalizada, quase me fui, e tive até alucinações; cheguei a pensar que no Céu deviam estar precisando de um auxiliar de porteiro, lá com São Pedro. Mas não fui.

Agora pega aí o pássaro do meu fraterno abraço, extensivo à sua família.

Valdivino Braz (ainda).

Goiânia, 09/9/2024.

Apresentação de plaquete de poemas publicada no Peru

José Guillermo Vargas

 SALOMÓN SOSA (Salomão Sousa) - Nace en Silvânia (GOIÁS. Brasil) en 19.9.52. Desde su infancia inicia una batalla junto con la poesía, para defenderse y/o defender solidariamente al Hombre, a fin de encontrar y denunciar algún abuso a la dignidad humana. 

Pfeiffer, nos decía que la poesía, como sentimiento vital, tiene la fuerza de “abarcar de una aletazo la totalidad existente, conjurar lo más cercano y lo más lejano”. La poesía es entonces “… una manifestación de amor como vía de unificación amorosa entre los individuos y la entera sociedad”.

En este sentido, José Martí decía que la poesía tenía una función unificadora necesaria para los pueblos. Y se preguntaba: “¿Quién es el ignorante que mantiene que la poesía no es indispensable a los pueblos?”. Y  se respondía: “La poesía congrega o disgrega, que fortifica o angustia, que apuntala o derriba almas, que da o quita a los hombres la fe y el aliento, es más necesaria a los pueblos que la industria misma pues ésta le proporciona el modo de subsistir, mientras que aquélla da la fuerza y la vida”.

 La poesía de Salomón es vital, fortificante o un dínamo social de importante envergadura. Por que da fe, congrega y unifica. Entonces, sus textos parecieran estar emparentados con la tierra y escucharan permanentemente los gritos de los más desprotegidos.  Es pues una poesía de resonancias, puesto que todo lo humano y su entorno le afecta y más aún, cuando se perfila sobre la piel de la amada, para exhibir un erotismo tierno, cálido y sutil. Nada le es indiferente?  Nada. Es decir: emerge de lo real y contestatario, para conseguir resonancias en la conciencia de los pueblos. 

Si nos preguntáramos - dentro de su función social- para qué sirve la poesía? podremos encontrar una respuesta contundente en la poética de Salomón.

Para terminar nos place citar a su comentarista el poeta João Carlos Taveira, quien dice que Salomón Sosa "es un poeta moderno en estado puro, en su uso extensivo de lo real, es el momento presente, sean los fragmentos de la memoria. Consciente intelectual, sabe enriquecer este orden de ideas con una crítica mordaz de los males humanos y el contexto social en el que aparece. Su poesía se alimenta a veces de esta visión del mundo, para establecer una resistencia estructural muy cerca de la estética posmoderna, con sus vanguardias posteriores. Su lenguaje se construye en impulsos más fragmentados que una forma gramatical predeterminada. Su verso es libre y por lo general corto, frases rara vez son completas; la puntuación no siempre está presente y las estrofas no tienen ningún compromiso con la uniformidad".

La Casa del Poeta Peruano aprovechando la presencia en Perú, del aeda Salomón Sosa, lo edita en el idioma de Cervantes, como una bella metáfora de unión de nuestros pueblos. 

Así sea y así es. Salud.

Dr. José Guillermo Vargas

Presidente de la Casa del Poeta Peruano y 

Breve contextualização da vida e obra de Salomão Sousa

 João Carlos Taveira

O poeta Salomão Sousa nasceu na zona rural, onde passou a infância, foi alfabetizado e teve as primeiras experiências com o universo da poesia e profundas vivências com a natureza, que alimentam de maneira inequívoca o seu modo de expressão criativa. Em 1964, aos doze anos, transferiu-se para Silvânia, cidade do percurso de desbravamento do estado de Goiás, para continuidade do ensino fundamental. Ali, aprofundou o contato com a poesia brasileira no acervo da biblioteca municipal.

No início de 1971, transferiu-se para Brasília, onde concluiu sua formação secundária e superior. Formou-se em Jornalismo e, por concurso, ingressou no serviço público federal, e vem construindo “a poesia de consciência e a escritura de combate”, como bem destacou o escritor Ronaldo Cagiano em resenha definidora da obra de Salomão Sousa.

Na década de 1970, teve algumas incursões no movimento da Poesia Marginal, e publicou A moenda dos dias (1979), livro inaugural de “uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original, portanto moderna”, como aponta Cagiano em sua resenha. Safra quebrada, que reúne livros publicados até 2007, dá a dimensão humana e artística de quem soube amadurecer sem pressa e, ao mesmo tempo, manter-se consciente de cada etapa de sua carreira.

Salomão Sousa é um poeta moderno em estado puro, na sua exaustiva utilização do real, seja do tempo presente, seja dos fragmentos da memória. Intelectual consciente, ele sabe enriquecer essa veia com uma crítica mordaz das mazelas humanas e do contexto social em que está inserido. Sua poesia se alimenta, por vezes, dessa cosmovisão para fundar uma solidez estrutural muito próxima da estética pós-moderna, com suas vanguardas posteriores. Sua estética é construída mais de impulsos fragmentados do que de uma forma fixa preestabelecida. Seu verso é livre e geralmente curto, as frases raramente se completam, a pontuação nem sempre está presente, e as estrofes não têm compromisso com a uniformidade. Outra característica da poesia mais recente de Salomão Sousa é a ausência de títulos nos poemas. Quem não acompanhou a trajetória deste poeta, julga-o sempre jovem, pois ele se insere no contexto do tempo presente. E tem plena consciência de seu ofício.

A obra de Salomão Sousa dá seu contributo ao cenário da moderna poesia brasileira. Das muitas leituras já feitas sobre essa poesia, é importante destacar a observação crítica de Naomi Hoki Moniz – atualmente, diretora de Estudos Portugueses na Universidade de Georgetown –,  publicada na Revista Iberoamericana, sobre A moenda dos dias, quando a resenhista fazia mestrado na Harvard University: 

Sua utilização de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e espontaneísmo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas.

Ao resenhar Estoque de relâmpagos para o Correio Braziliense, Ligia Cademartori, respeitada tradutora e ensaísta, contextualiza a poesia que Salomão Sousa passou a praticar a partir desse livro:

... a particularidade de sua poesia não reside nos efeitos de som e, sim, na organização das imagens. A profusão delas provoca o leitor para que procure as relações que estabelecem e, por esse modo, descubra a mitologia autoral que as ordena. Ao extrair força poética do substantivo, Salomão Sousa compõe sua própria lição de coisas. Nem todas imediatas, é verdade. Algumas são inalcançáveis. Mas, no radical contraste entre certas imagens pode-se encontrar essenciais efeitos de sentido e o provável princípio que preside as expressões figuradas. Pois a linguagem não faz concessões. Concisa e avessa ao voo livre, essa é poesia de linhagem autorreflexiva.

Antonio Miranda, sobre Ruínas ao sol:

Não é uma leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de ideias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando, mas não necessariamente enunciado, numa espécie de neobarroco consciente. 


A trajetória de Cecília Meireles revisitada

 Adelto Gonçalves

                                                             I

               Um instigante texto que procura mostrar que a obra da poeta Cecília Meireles (1901-1964) ultrapassa os padrões originais do Modernismo e corrige várias informações a respeito de sua vida pessoal é o que o leitor irá encontrar, além de outros ensaios e artigos igualmente atraentes, no livro Bifurcações – memória, resistência e leitura (Cidade Ocidental-GO, edição do autor, 2022), do poeta e jornalista Salomão Sousa (1952). Trata-se de um “pequeno artigo”, na própria definição do autor, que prenuncia o que pode vir a constituir uma biografia que o poeta tem todas as condições de escrever.

               Na verdade, não há nenhum estudo biográfico mais alentado que abranja de forma aprofundada a existência da poeta, como reconhece o escritor, admitindo que são raras as informações sobre o seu cotidiano, relações familiares e com amigos, sobretudo com a intelectualidade, sua defesa de uma educação laica e universal à época da ditadura de Getúlio Vargas (1937-1946) e sua vasta produção poética, acadêmica e jornalística.

               Sem contar, como assinalou Salomão Sousa, que há em várias obras informações deturpadas, como a que aparece em O livro no Brasil: sua história (São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo - Edusp, 2023), do historiador britânico Laurence Hallewell (1929), tese de doutoramento escrita em 1975, que saiu no Brasil pela primeira vez em 1982 (tradução de Maria da Penha Villalobos, Lólio Lourenço de Oliveira e Geraldo Gerson de Souza), com segunda edição revista pelo autor e publicada pela Edusp, em 2005.

               Uma incorreção é que Cecília Meireles teria sido presa por ter traduzido As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain (1835-1910), quando, na verdade, apesar de suas divergências com o Estado Novo, trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) como editora da revista Travel in Brazil, de divulgação para turistas, entre 1941 e 1942.  

               Aliás, se o autor quiser ir adiante nesse possível projeto, este articulista gostaria de assinalar que não se pode deixar de mencionar a beleza física que Cecília Meireles deixava transparecer. Um testemunho disso é a menção que o professor, filósofo e ensaísta português Eduardo Lourenço (1923-2020) fez no ensaio “Orpheu e Presença”, que consta de suas Obras Completas. Tempo e Poesia, tomo III (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016), a respeito de uma visita que Cecília Meireles fez a Portugal, provavelmente, nos anos 30. Ali se lê: “(...) Essa senhora, além de ser uma grande poetisa, era uma estampa – como se dizia no meu tempo –, ainda passados muitos anos o poeta Afonso Duarte (1884-1958) falava de forma admirável das célebres pernas da Cecília Meireles. A senhora deixou um rasto de prestígio intelectual e de elegância, de fascínio, que ainda repercutia nos anos 40 quando eu estava em Coimbra”.

                                                             II

               A par de sua brilhante e sempre exaltada produção poética, Cecília Meireles foi também uma jornalista profícua, a uma época em que era rara a presença de uma mulher nas redações de jornais e revistas. Como lembra Salomão Sousa, a atuação jornalística da poeta rendeu só no Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, com a seção “Página de Educação”, mais de 750 artigos, que se encontram organizados em cinco volumes. Por sua página no jornal, a poeta defendeu um ensino laico e universal para a escola pública, contrariando a corrente de conservadores católicos, liderada por Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), que preconizava um ensino religioso e condenava o que entendia como escola “materializante e comunizante”.

               Essa oposição conservadora levou o jornal a acabar com a página de Cecília Meireles, sem nenhuma explicação, provavelmente por pressão do governo. Tudo isso, como observa Salomão Sousa, pode ser lido em A farpa na lira: Cecília Meireles na Revolução de 30 (Rio de Janeiro, Editora Record, 1996), da professora Valéria Lamego, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora também do recente artigo “A extrema liberdade em Cecília Meireles” (São Paulo, Opiniães - Revista dos Alunos de Literatura Brasileira, nº 20, jan.-jul. 2022, pp. 61-76).

               Neste artigo em que a professora faz um breve paralelo entre a intelectual brasileira e a pensadora e militante política francesa Simone Weil (1909-1943), há, inclusive, referência a um texto inédito encontrado entre os materiais enviados pela filha da poeta à autora. Como se vê, há ainda muito o que se pesquisar sobre a produção intelectual e a vida pessoal da autora de Romanceiro da Inconfidência (1953), sua mais aclamada obra.

                                                             III

               Se só se referindo a um “pequeno artigo” já se chegou até aqui, o leitor há de antever o que irá encontrar neste livro em que, além de poemas, há ensaios instigantes como aquele dedicado ao  filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han, professor da Universidade de Artes de Berlim. Neste texto, o autor, a partir de argumentações daquele pensador, reconhece que “vivemos um novo momento de extrema crise de identidade política, de desordem social e de ilegitimidade cultural, sem compreender onde iremos desaguar com a nossa solidão de Humanismo”.

               E lembra que, hoje, com a atuação nas redes sociais, não participamos da vida em sociedade nem da discussão política, pois só agregamos concordância: “Cada vez que curtimos, diz Byung-Chul Han, dizemos amém. Assim, a democracia se afirma com expectadores, pois damos a ela nossa subordinação e concordância e não nossa participação”.

               Neste livro, o leitor ainda encontrará artigos ou resenhas de livros de poetas não tão célebres como Cecília Meireles, mas que igualmente começam a se firmar no cenário literário brasileiro dos nossos dias, como Dheyne de Souza, Daniel Francoy, Renato Suttana, Ana Cristina Cotrim e Nirton Venâncio, entre outros, e, por fim, o discurso de posse do autor na Academia de Letras do Brasil (ALB), em Brasília.

Salomão Sousa e a importância da leitura

 Adelto Gonçalves

Em novo livro de ensaios, o poeta discute a linguagem poética e temas da atualidade.

Depois de lançar Bifurcações – memória, resistência e leitura (Brasília, Baú do Autor, 2022), o poeta, jornalista e ensaísta Salomão Sousa volta a contemplar seus leitores com outro livro de ensaios, Poesia e alteridade (Brasília, edição do autor, 2024). Nesta obra, reúne dez textos nos quais, entre outros temas, procura compreender a importância e o alcance da poesia, exalta a produção dos poetas Anderson Braga Horta e Alexandre Pilati, discute a recepção e o significado do romance Grande sertão: veredas (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967), historifica a trajetória dos principais integrantes da última geração de poetas goianos, da qual é ilustre participante, analisa os romances O castelo (1926), de Franz Kafka (1883-1924), e Sob os olhos do Ocidente (1911), de Joseph Conrad (1857-1924), e, por fim, discute o conceito de alteridade.

No primeiro dos ensaios, “A compreensão da poesia”, a reflexão de Salomão Sousa aborda a desestruturação política e a urgência de um novo olhar para a convivência humana, ressaltando a importância da leitura para as novas gerações, cada vez mais apegadas ao mundo digital, especialmente para a compreensão da poesia. “(...) quanto menos lemos, menos possibilidade temos de entender e aproveitar o encantamento encerrado numa obra literária”, observa.

“Quanto menos lê poesia, quanto menos a identifica nos textos, mais ignorante o indivíduo se torna. Quanto mais transita sem se integrar à realidade, sem aprendizagem de sua nominação e se nega a interagir com o diferente, mais o ignorante (aquele que não sabe) aprofunda a incapacidade de decodificar um texto”, acrescenta, ao constatar que o contato essencial com as manifestações culturais tem ficado cada vez mais raro entre os jovens, “o que gera uma falta de senso crítico e educação".

II

Já no terceiro ensaio, “Quando a poesia goiana teve de dar combate aos “tumores” do “matadouro do dia”, recupera uma trajetória, senão inédita, ao menos percuciente da última geração de poetas estabelecidos em Goiás, especialmente a partir dos tempos que se seguiram ao fatídico ano de 1964, quando os jovens deixavam as cidades humildes do interior e partiam para a capital goiana em busca de melhoria de vida, de acesso à escolarização e de alternativas de emprego, numa sociedade marcada pelo autoritarismo de uma elite que sempre procurou manter “à força uma parcela da população à margem da inclusão socioeconômica, distante da formação (educação e cultura), para manipulação, ao seu bel-prazer, em favor de seus interesses econômicos”.

Traça esse panorama a partir da experiência de vida do poeta Luiz de Aquino, mas analisa também os trajetos poéticos de Edival Lourenço, Delermando Vieira, Valdivino Brás, Brasigóis Felício, Gabriel Nascente, Aidenor Alves, Lourdes Teodoro, Maria Abadia Silva e dos saudosos Guido Heleno (1943-2017), Tagore Biram (1958- 1998) e Pio Vargas (1964-1991), todos, como ele, egressos de pequenas cidades goianas, dominadas por “velhas oligarquias, que nunca se envolveram com a aculturação, pois sempre estiveram satisfeitas em manter os trabalhadores agregados (regime misto de escravidão e servidão) às suas propriedades, reféns de uma herança escravocrata”. Segundo Salomão Sousa, esses poetas não chegaram a Goiânia com projetos socializantes para quebrar essa rede de abandono, “mas para afirmar o humanismo, para dizer que o homem estava destruído por uma estrutura de poder”.

III

Outro ensaio que prende a atenção é “A obra de João Guimarães Rosa tanto pode salvar ou morrer um”, em que o autor, ao situar o contista como “um dos gênios da Literatura”, comparando-o a Marcel Proust (1871-1922) e Ítalo Calvino (1923- 1985), recorda a sua atuação como vice-cônsul em Hamburgo, na Alemanha, no período de 1938 a 1942, quando ele e sua mulher, a diplomata Aracy de Carvalho (1908-2011), concederam passaportes a judeus para que pudessem ingressar no Brasil e escapar dos horrores do nazismo. No ensaio, lembra que, se como servidor do governo de Getúlio Vargas (1882-1954), que flertava com os regimes totalitários, Guimarães Rosa guardou para si sua crítica ao nazismo alemão, iria usá-la de forma velada, mais tarde, no monólogo de Riobaldo que consta de Grande sertão: veredas.

No último ensaio, “A desconstrução pela alteridade”, o poeta-ensaísta ressalta que esse conceito, o reconhecimento da individualidade e das especificidades do outro ou de um outro grupo, significa agir com empatia, respeito e tolerância. “É o caminho para que as pessoas resgatem o respeito mútuo e a cidadania num mundo fragmentado", indica. E reverbera: “Precisamos descer do pedestal. Não adianta ficarmos na sacada reclamando da praga que cresce na calçada. Temos de descer para eliminá-la. A omissão é adesão à praga”. Para o ensaísta, “sem alteridade, é indiferente a criança a estertorar de fome na calçada”.

Como se vê, o que o leitor vai encontrar nesta obra são ensaios que não só discutem questões literárias, mas que também trazem considerações fundadas na experiência do autor, em vez de elocubrações generalizantes ou abstratas que são constatadas com frequência em textos de pseudoliteratos. Pois nestes textos o que se percebe é a revolta de alguém que, como funcionário público lotado no Palácio do Planalto, contemplou com admiração, por mais de 40 anos, as obras de arte e objetos históricos que seriam vandalizados pelos inimigos da democracia no dia 8 de janeiro de 2023, em ataque golpista às sedes dos Três Poderes, em Brasília. E que se levanta contra essa barbárie que ainda ameaça o País.

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UMA POESIA QUE ROÇA AS FÍMBRIAS DO INDIZÍVEL

                                                                   Sérgio de Castro Pinto                 Fica difícil estabelecer até que...