Apresentação de plaquete de poemas publicada no Peru

José Guillermo Vargas

 SALOMÓN SOSA (Salomão Sousa) - Nace en Silvânia (GOIÁS. Brasil) en 19.9.52. Desde su infancia inicia una batalla junto con la poesía, para defenderse y/o defender solidariamente al Hombre, a fin de encontrar y denunciar algún abuso a la dignidad humana. 

Pfeiffer, nos decía que la poesía, como sentimiento vital, tiene la fuerza de “abarcar de una aletazo la totalidad existente, conjurar lo más cercano y lo más lejano”. La poesía es entonces “… una manifestación de amor como vía de unificación amorosa entre los individuos y la entera sociedad”.

En este sentido, José Martí decía que la poesía tenía una función unificadora necesaria para los pueblos. Y se preguntaba: “¿Quién es el ignorante que mantiene que la poesía no es indispensable a los pueblos?”. Y  se respondía: “La poesía congrega o disgrega, que fortifica o angustia, que apuntala o derriba almas, que da o quita a los hombres la fe y el aliento, es más necesaria a los pueblos que la industria misma pues ésta le proporciona el modo de subsistir, mientras que aquélla da la fuerza y la vida”.

 La poesía de Salomón es vital, fortificante o un dínamo social de importante envergadura. Por que da fe, congrega y unifica. Entonces, sus textos parecieran estar emparentados con la tierra y escucharan permanentemente los gritos de los más desprotegidos.  Es pues una poesía de resonancias, puesto que todo lo humano y su entorno le afecta y más aún, cuando se perfila sobre la piel de la amada, para exhibir un erotismo tierno, cálido y sutil. Nada le es indiferente?  Nada. Es decir: emerge de lo real y contestatario, para conseguir resonancias en la conciencia de los pueblos. 

Si nos preguntáramos - dentro de su función social- para qué sirve la poesía? podremos encontrar una respuesta contundente en la poética de Salomón.

Para terminar nos place citar a su comentarista el poeta João Carlos Taveira, quien dice que Salomón Sosa "es un poeta moderno en estado puro, en su uso extensivo de lo real, es el momento presente, sean los fragmentos de la memoria. Consciente intelectual, sabe enriquecer este orden de ideas con una crítica mordaz de los males humanos y el contexto social en el que aparece. Su poesía se alimenta a veces de esta visión del mundo, para establecer una resistencia estructural muy cerca de la estética posmoderna, con sus vanguardias posteriores. Su lenguaje se construye en impulsos más fragmentados que una forma gramatical predeterminada. Su verso es libre y por lo general corto, frases rara vez son completas; la puntuación no siempre está presente y las estrofas no tienen ningún compromiso con la uniformidad".

La Casa del Poeta Peruano aprovechando la presencia en Perú, del aeda Salomón Sosa, lo edita en el idioma de Cervantes, como una bella metáfora de unión de nuestros pueblos. 

Así sea y así es. Salud.

Dr. José Guillermo Vargas

Presidente de la Casa del Poeta Peruano y 

Breve contextualização da vida e obra de Salomão Sousa

 João Carlos Taveira

O poeta Salomão Sousa nasceu na zona rural, onde passou a infância, foi alfabetizado e teve as primeiras experiências com o universo da poesia e profundas vivências com a natureza, que alimentam de maneira inequívoca o seu modo de expressão criativa. Em 1964, aos doze anos, transferiu-se para Silvânia, cidade do percurso de desbravamento do estado de Goiás, para continuidade do ensino fundamental. Ali, aprofundou o contato com a poesia brasileira no acervo da biblioteca municipal.

No início de 1971, transferiu-se para Brasília, onde concluiu sua formação secundária e superior. Formou-se em Jornalismo e, por concurso, ingressou no serviço público federal, e vem construindo “a poesia de consciência e a escritura de combate”, como bem destacou o escritor Ronaldo Cagiano em resenha definidora da obra de Salomão Sousa.

Na década de 1970, teve algumas incursões no movimento da Poesia Marginal, e publicou A moenda dos dias (1979), livro inaugural de “uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original, portanto moderna”, como aponta Cagiano em sua resenha. Safra quebrada, que reúne livros publicados até 2007, dá a dimensão humana e artística de quem soube amadurecer sem pressa e, ao mesmo tempo, manter-se consciente de cada etapa de sua carreira.

Salomão Sousa é um poeta moderno em estado puro, na sua exaustiva utilização do real, seja do tempo presente, seja dos fragmentos da memória. Intelectual consciente, ele sabe enriquecer essa veia com uma crítica mordaz das mazelas humanas e do contexto social em que está inserido. Sua poesia se alimenta, por vezes, dessa cosmovisão para fundar uma solidez estrutural muito próxima da estética pós-moderna, com suas vanguardas posteriores. Sua estética é construída mais de impulsos fragmentados do que de uma forma fixa preestabelecida. Seu verso é livre e geralmente curto, as frases raramente se completam, a pontuação nem sempre está presente, e as estrofes não têm compromisso com a uniformidade. Outra característica da poesia mais recente de Salomão Sousa é a ausência de títulos nos poemas. Quem não acompanhou a trajetória deste poeta, julga-o sempre jovem, pois ele se insere no contexto do tempo presente. E tem plena consciência de seu ofício.

A obra de Salomão Sousa dá seu contributo ao cenário da moderna poesia brasileira. Das muitas leituras já feitas sobre essa poesia, é importante destacar a observação crítica de Naomi Hoki Moniz – atualmente, diretora de Estudos Portugueses na Universidade de Georgetown –,  publicada na Revista Iberoamericana, sobre A moenda dos dias, quando a resenhista fazia mestrado na Harvard University: 

Sua utilização de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e espontaneísmo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas.

Ao resenhar Estoque de relâmpagos para o Correio Braziliense, Ligia Cademartori, respeitada tradutora e ensaísta, contextualiza a poesia que Salomão Sousa passou a praticar a partir desse livro:

... a particularidade de sua poesia não reside nos efeitos de som e, sim, na organização das imagens. A profusão delas provoca o leitor para que procure as relações que estabelecem e, por esse modo, descubra a mitologia autoral que as ordena. Ao extrair força poética do substantivo, Salomão Sousa compõe sua própria lição de coisas. Nem todas imediatas, é verdade. Algumas são inalcançáveis. Mas, no radical contraste entre certas imagens pode-se encontrar essenciais efeitos de sentido e o provável princípio que preside as expressões figuradas. Pois a linguagem não faz concessões. Concisa e avessa ao voo livre, essa é poesia de linhagem autorreflexiva.

Antonio Miranda, sobre Ruínas ao sol:

Não é uma leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de ideias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando, mas não necessariamente enunciado, numa espécie de neobarroco consciente. 


A trajetória de Cecília Meireles revisitada

 Adelto Gonçalves

                                                             I

               Um instigante texto que procura mostrar que a obra da poeta Cecília Meireles (1901-1964) ultrapassa os padrões originais do Modernismo e corrige várias informações a respeito de sua vida pessoal é o que o leitor irá encontrar, além de outros ensaios e artigos igualmente atraentes, no livro Bifurcações – memória, resistência e leitura (Cidade Ocidental-GO, edição do autor, 2022), do poeta e jornalista Salomão Sousa (1952). Trata-se de um “pequeno artigo”, na própria definição do autor, que prenuncia o que pode vir a constituir uma biografia que o poeta tem todas as condições de escrever.

               Na verdade, não há nenhum estudo biográfico mais alentado que abranja de forma aprofundada a existência da poeta, como reconhece o escritor, admitindo que são raras as informações sobre o seu cotidiano, relações familiares e com amigos, sobretudo com a intelectualidade, sua defesa de uma educação laica e universal à época da ditadura de Getúlio Vargas (1937-1946) e sua vasta produção poética, acadêmica e jornalística.

               Sem contar, como assinalou Salomão Sousa, que há em várias obras informações deturpadas, como a que aparece em O livro no Brasil: sua história (São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo - Edusp, 2023), do historiador britânico Laurence Hallewell (1929), tese de doutoramento escrita em 1975, que saiu no Brasil pela primeira vez em 1982 (tradução de Maria da Penha Villalobos, Lólio Lourenço de Oliveira e Geraldo Gerson de Souza), com segunda edição revista pelo autor e publicada pela Edusp, em 2005.

               Uma incorreção é que Cecília Meireles teria sido presa por ter traduzido As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain (1835-1910), quando, na verdade, apesar de suas divergências com o Estado Novo, trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) como editora da revista Travel in Brazil, de divulgação para turistas, entre 1941 e 1942.  

               Aliás, se o autor quiser ir adiante nesse possível projeto, este articulista gostaria de assinalar que não se pode deixar de mencionar a beleza física que Cecília Meireles deixava transparecer. Um testemunho disso é a menção que o professor, filósofo e ensaísta português Eduardo Lourenço (1923-2020) fez no ensaio “Orpheu e Presença”, que consta de suas Obras Completas. Tempo e Poesia, tomo III (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016), a respeito de uma visita que Cecília Meireles fez a Portugal, provavelmente, nos anos 30. Ali se lê: “(...) Essa senhora, além de ser uma grande poetisa, era uma estampa – como se dizia no meu tempo –, ainda passados muitos anos o poeta Afonso Duarte (1884-1958) falava de forma admirável das célebres pernas da Cecília Meireles. A senhora deixou um rasto de prestígio intelectual e de elegância, de fascínio, que ainda repercutia nos anos 40 quando eu estava em Coimbra”.

                                                             II

               A par de sua brilhante e sempre exaltada produção poética, Cecília Meireles foi também uma jornalista profícua, a uma época em que era rara a presença de uma mulher nas redações de jornais e revistas. Como lembra Salomão Sousa, a atuação jornalística da poeta rendeu só no Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, com a seção “Página de Educação”, mais de 750 artigos, que se encontram organizados em cinco volumes. Por sua página no jornal, a poeta defendeu um ensino laico e universal para a escola pública, contrariando a corrente de conservadores católicos, liderada por Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), que preconizava um ensino religioso e condenava o que entendia como escola “materializante e comunizante”.

               Essa oposição conservadora levou o jornal a acabar com a página de Cecília Meireles, sem nenhuma explicação, provavelmente por pressão do governo. Tudo isso, como observa Salomão Sousa, pode ser lido em A farpa na lira: Cecília Meireles na Revolução de 30 (Rio de Janeiro, Editora Record, 1996), da professora Valéria Lamego, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora também do recente artigo “A extrema liberdade em Cecília Meireles” (São Paulo, Opiniães - Revista dos Alunos de Literatura Brasileira, nº 20, jan.-jul. 2022, pp. 61-76).

               Neste artigo em que a professora faz um breve paralelo entre a intelectual brasileira e a pensadora e militante política francesa Simone Weil (1909-1943), há, inclusive, referência a um texto inédito encontrado entre os materiais enviados pela filha da poeta à autora. Como se vê, há ainda muito o que se pesquisar sobre a produção intelectual e a vida pessoal da autora de Romanceiro da Inconfidência (1953), sua mais aclamada obra.

                                                             III

               Se só se referindo a um “pequeno artigo” já se chegou até aqui, o leitor há de antever o que irá encontrar neste livro em que, além de poemas, há ensaios instigantes como aquele dedicado ao  filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han, professor da Universidade de Artes de Berlim. Neste texto, o autor, a partir de argumentações daquele pensador, reconhece que “vivemos um novo momento de extrema crise de identidade política, de desordem social e de ilegitimidade cultural, sem compreender onde iremos desaguar com a nossa solidão de Humanismo”.

               E lembra que, hoje, com a atuação nas redes sociais, não participamos da vida em sociedade nem da discussão política, pois só agregamos concordância: “Cada vez que curtimos, diz Byung-Chul Han, dizemos amém. Assim, a democracia se afirma com expectadores, pois damos a ela nossa subordinação e concordância e não nossa participação”.

               Neste livro, o leitor ainda encontrará artigos ou resenhas de livros de poetas não tão célebres como Cecília Meireles, mas que igualmente começam a se firmar no cenário literário brasileiro dos nossos dias, como Dheyne de Souza, Daniel Francoy, Renato Suttana, Ana Cristina Cotrim e Nirton Venâncio, entre outros, e, por fim, o discurso de posse do autor na Academia de Letras do Brasil (ALB), em Brasília.

Salomão Sousa e a importância da leitura

 Adelto Gonçalves

Em novo livro de ensaios, o poeta discute a linguagem poética e temas da atualidade.

Depois de lançar Bifurcações – memória, resistência e leitura (Brasília, Baú do Autor, 2022), o poeta, jornalista e ensaísta Salomão Sousa volta a contemplar seus leitores com outro livro de ensaios, Poesia e alteridade (Brasília, edição do autor, 2024). Nesta obra, reúne dez textos nos quais, entre outros temas, procura compreender a importância e o alcance da poesia, exalta a produção dos poetas Anderson Braga Horta e Alexandre Pilati, discute a recepção e o significado do romance Grande sertão: veredas (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967), historifica a trajetória dos principais integrantes da última geração de poetas goianos, da qual é ilustre participante, analisa os romances O castelo (1926), de Franz Kafka (1883-1924), e Sob os olhos do Ocidente (1911), de Joseph Conrad (1857-1924), e, por fim, discute o conceito de alteridade.

No primeiro dos ensaios, “A compreensão da poesia”, a reflexão de Salomão Sousa aborda a desestruturação política e a urgência de um novo olhar para a convivência humana, ressaltando a importância da leitura para as novas gerações, cada vez mais apegadas ao mundo digital, especialmente para a compreensão da poesia. “(...) quanto menos lemos, menos possibilidade temos de entender e aproveitar o encantamento encerrado numa obra literária”, observa.

“Quanto menos lê poesia, quanto menos a identifica nos textos, mais ignorante o indivíduo se torna. Quanto mais transita sem se integrar à realidade, sem aprendizagem de sua nominação e se nega a interagir com o diferente, mais o ignorante (aquele que não sabe) aprofunda a incapacidade de decodificar um texto”, acrescenta, ao constatar que o contato essencial com as manifestações culturais tem ficado cada vez mais raro entre os jovens, “o que gera uma falta de senso crítico e educação".

II

Já no terceiro ensaio, “Quando a poesia goiana teve de dar combate aos “tumores” do “matadouro do dia”, recupera uma trajetória, senão inédita, ao menos percuciente da última geração de poetas estabelecidos em Goiás, especialmente a partir dos tempos que se seguiram ao fatídico ano de 1964, quando os jovens deixavam as cidades humildes do interior e partiam para a capital goiana em busca de melhoria de vida, de acesso à escolarização e de alternativas de emprego, numa sociedade marcada pelo autoritarismo de uma elite que sempre procurou manter “à força uma parcela da população à margem da inclusão socioeconômica, distante da formação (educação e cultura), para manipulação, ao seu bel-prazer, em favor de seus interesses econômicos”.

Traça esse panorama a partir da experiência de vida do poeta Luiz de Aquino, mas analisa também os trajetos poéticos de Edival Lourenço, Delermando Vieira, Valdivino Brás, Brasigóis Felício, Gabriel Nascente, Aidenor Alves, Lourdes Teodoro, Maria Abadia Silva e dos saudosos Guido Heleno (1943-2017), Tagore Biram (1958- 1998) e Pio Vargas (1964-1991), todos, como ele, egressos de pequenas cidades goianas, dominadas por “velhas oligarquias, que nunca se envolveram com a aculturação, pois sempre estiveram satisfeitas em manter os trabalhadores agregados (regime misto de escravidão e servidão) às suas propriedades, reféns de uma herança escravocrata”. Segundo Salomão Sousa, esses poetas não chegaram a Goiânia com projetos socializantes para quebrar essa rede de abandono, “mas para afirmar o humanismo, para dizer que o homem estava destruído por uma estrutura de poder”.

III

Outro ensaio que prende a atenção é “A obra de João Guimarães Rosa tanto pode salvar ou morrer um”, em que o autor, ao situar o contista como “um dos gênios da Literatura”, comparando-o a Marcel Proust (1871-1922) e Ítalo Calvino (1923- 1985), recorda a sua atuação como vice-cônsul em Hamburgo, na Alemanha, no período de 1938 a 1942, quando ele e sua mulher, a diplomata Aracy de Carvalho (1908-2011), concederam passaportes a judeus para que pudessem ingressar no Brasil e escapar dos horrores do nazismo. No ensaio, lembra que, se como servidor do governo de Getúlio Vargas (1882-1954), que flertava com os regimes totalitários, Guimarães Rosa guardou para si sua crítica ao nazismo alemão, iria usá-la de forma velada, mais tarde, no monólogo de Riobaldo que consta de Grande sertão: veredas.

No último ensaio, “A desconstrução pela alteridade”, o poeta-ensaísta ressalta que esse conceito, o reconhecimento da individualidade e das especificidades do outro ou de um outro grupo, significa agir com empatia, respeito e tolerância. “É o caminho para que as pessoas resgatem o respeito mútuo e a cidadania num mundo fragmentado", indica. E reverbera: “Precisamos descer do pedestal. Não adianta ficarmos na sacada reclamando da praga que cresce na calçada. Temos de descer para eliminá-la. A omissão é adesão à praga”. Para o ensaísta, “sem alteridade, é indiferente a criança a estertorar de fome na calçada”.

Como se vê, o que o leitor vai encontrar nesta obra são ensaios que não só discutem questões literárias, mas que também trazem considerações fundadas na experiência do autor, em vez de elocubrações generalizantes ou abstratas que são constatadas com frequência em textos de pseudoliteratos. Pois nestes textos o que se percebe é a revolta de alguém que, como funcionário público lotado no Palácio do Planalto, contemplou com admiração, por mais de 40 anos, as obras de arte e objetos históricos que seriam vandalizados pelos inimigos da democracia no dia 8 de janeiro de 2023, em ataque golpista às sedes dos Três Poderes, em Brasília. E que se levanta contra essa barbárie que ainda ameaça o País.

A imagem no vidro

 José Fernandes 

               A poesia é uma arte de linguagem, em que a palavra é vergastada, a fim de sangrar novos significados, obtidos, principalmente, através da imagem, definida por Octavio Paz, como a cifra da condição humana. O papel desempenhado pela imagem se reveste de singular importância no discurso poético, no momento em que transfere a palavra da esfera da denotação para a esfera da conotação, e ela ascende a uma dimensão metafisica, por intermédio da fusão de suas essências, responsável pela instauração do caráter polissêmico e estético próprio do poético. É com essa visão do belo estético que lemos Vagem de vidro (Brasília, Thesaurus, 2013), do poeta Salomão Sousa, uma vez que a despeito de suas imagens ensejam um discurso original, singular, pautado por jogos semânticos e interculturais que proporcionam verdadeiros dribles na esfera da linguagem. 

               Não fosse sua conformação imagética sui generis e não teríamos a beleza da viagem empreendida pela história da poesia através da poesia e do entrecruzamento com a intertextualidade e, muitas vezes, com a interculturalidade, uma vez que se lê uma verdade histórica sobre a outra, em inusitado palimpsesto. Assim, na primeira estrofe, as imagens, muito bem construídas, remetem-nos a Shakespeare, nomeadamente à peça Macbeth, como sugerem as referências à luz, às ervas e ao bêbedo, em imagens que lembram bem o estilo maneirista praticado pelo dramaturgo: “Em meio ao espelhamento das escolhas/acontecerá o excesso de luz a ressecar as ervas,/ideias que se ligam ao soco, às intrigas,/o cervo a assistir a velocidade dos bêbedos.” Além disso, a estrutura da tragédia, típica de Shakespeare, na palavra intriga, uma vez que, nessa peça, o trágico nasce dos limites da condição humana e do destino, fugindo um pouco da trama peculiar à tragédia grega.

               Mas, na segunda estrofe é que se encontra o móbil do poema de Salomão e da peça, uma vez que, ao nomear a palavra, está, além de referir-se à instauração do trágico, mediante a pronúncia de uma palavra, também lembra a carta escrita por Macbeth dizendo que permanecerá no castelo, ato que ensejará o assassinato. É exatamente por isso que a palavra “se precipita” e procede-se “a reabilitada confiança de volta ao conflito”.

                Sintomaticamente, às imagens construídas para lembrar Shakespeare, seguem-se, na terceira estrofe, em apenas dois versos, as que lembram Poe, com seu poema, "O Corvo": “No momento que temos a satisfação do pássaro,/do estrangeiro na sacada a traquinar feliz. Feliz.” Exatamente pelo tema do destino, entendido como tragédia do homem, acoplam-se à intertextualidade de Poe imagens marítimas montadas sobre A divina comédia, de Dante, em que os dois últimos versos são lapidares, ao referirem-se à viagem prefigurada pelos remos e à chegada ao “porto do encalhes”: “Com o movimento dos remos, os comandantes./ A esquadra perfilada no porto dos encalhes.”

               Sabiamente montada, a sua viagem pela poesia é, também, aquela viagem própria do homem peregrino, do homem que mergulha dentro de si mesmo, como se verifica na quarta estrofe, constituída de apenas dois versos que resumem essa parte do poema: “Ah! a luz que resseca as ervas não perdoa o corvo;/invade os limites, danifica as trevas.” Ademais, na sequência do poema, temos imagens que lembram a figura de Ulisses, em sua conturbada viagem de homem e de semideus, a marcar a duplicidade do homem, que é ora sublime, ora miserável. A capacidade de síntese dessa estrofe, só possível mediante o uso de imagens, é realmente lapidar, em termos de discurso poético, pois encerra os aspectos físicos e metafísicos da aventura de Ulisses e a dimensão ontológica da fidelidade de Penélope. As imagens, nesse caso, tecem o texto, como a mulher tecia o amor intransferível, em seu fio de permanência e de fragilidade: “Ulisses, depois de ti, instaurado o fim das aventuras;/na antessala, extintos o bulício e a castidade dos amantes.”

               Muito significativamente, quase no centro do poema, opera, em uma espécie de cadinho alquímico ou de baricentro, a interação entre o passado e o presente da literatura e das artes, em que Homero dialoga com Quintana, com a simbólica Aldebarã e com a guerra fingida de Findley. A partir dessa estrofe, as imagens se tornam altamente irônicas, à medida que os elementos imagéticos e imaginários do ontem são utilizados para satirizar as mazelas do presente. Desse modo, as imagens náuticas usadas para se falar das aventuras de Ulisses e do amor fiel de Penélope, por exemplo, convertem-se em sátira aos costumes hodiernos, reflexos dos males que assolam a humanidade.

               Desses males de que Ulisses não escaparia, ressalta-se a imagem dupla da navegação, agora transferida para a internet, que estila forte ironia às viagens pelas redes sociais, que se desencontram “no led do papel”. A representação desse desencontro se faz mediante imagem poética singular que envolve tecnologias modernas, que nos levam a denominá-la imagem cibernética, ou ciber-imagem. Ulisses, dentro desse mundo, conformado em “costas dos encalhes”, revelar-se-ia impotente, porque, ao contrário das navegações antigas, as máquinas do presente perturbam “as noites de tua cidade, de tua mãe insone.” 

               Na ambiência do moderno, até o amor e seus símbolos, que o convertem em sentimento metafisico, desfazem-se, porque, como já dissera Albert Camus, tudo perde a importância. Se não se flerta mais um rosto à porta, até a noção de herói se desintegra, porquanto, repetindo Gaston Miron, o homem se transforma em restolho, porque, desprotegido como o calcanhar de Aquiles, o mundo se torna perigoso, como vemos na última estrofe desse poema ímpar: “O edema, o sequestro relâmpago. É a ausência do fluir./ Se não há herói para ir a Ítaca, à Esplanada,/ os homens a enrijecer-se. Secas as mãos de virar/a próxima página e de desnudar Eurídice.” 

               A leitura desse poema constitui uma amostragem de quanto é rico, esteticamente, Vagem de vidro, pois, nele, o poeta trabalha a linguagem em imagens que cifram a condição humana, como se vê no contraste entre o passado e o presente poético e humano. O presente, pautado por transformações de valores nem sempre positivos, constitui uma nova forma de aventura revelada mediante refinada ironia, em que a imagem do corvo funciona como deglutição cultural e como matéria de um tempo sinistro. Confiram! Parabéns, Salomão. Deo gratias et Mariae! 

Resenha Naomi Hoki Moniz

 SALOMAO SOUSA: A moenda dos dias. Brasília: Editora Coordenada, 1979.

Este é o segundo livro de Salomão Sousa, que nasceu em Goiás, em 1952. O poema “Tempo de Agouro”, que serve de prefácio às três séries de poemas do livro, é a meditação inicial do autor sobre a funcionalidade da poesia, seu objeto e/ou instrumento, a palavra. A sua proposta é a de um “lutar com palavra” drummondiano para realizar uma poesia que não se quer “só como renda / os berloques / raminhos de flor”, mas “trapos / que cobrem e contém / o pudor” (p. 5).

As séries que perfazem este volume, “Ladainha da Cidade Dura”, “O Ser ao Ser” e a “Moenda dos Dias”, estão impregnadas da paisagem rural goiana. Usando o tema Província-Metrópole, o autor descreve a trajetória de um mundo rural, claustrofóbico ―Ceilândia, para o Mundo lá fora ―Brasília, meca de tantos severinos do país inteiro. E difícil, e poucas vezes conseguida em termos de lírica a abordagem poética da questão social. Em Salomão, ela irrompe plenamente, mas numa linguagem poética contida, áspera e carregada de uma consciência social firme e incômoda, mas nunca estridente.

É preciso um esforço para deixar de ver as alusões a Drummond, a Fernando Pessoa, este último evidente nos versos “aguardo o enterro desse cadáver / para nascer / na árvore / que irá fazer o navio / que não pude sair” (p. 31). Os poemas da terceira serie descrevem a vida popular rural, o namoro, e a existência frugal e resignada de sua mãe. Tanto na temática como na técnica (repetições, reduplicações, paralelismo) estes poemas lembram o tom cristalino e pungente das cantigas medievais.

Sua utilização de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda e superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e espontaneismo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estáticas.

MONIZ, Naomi Hoki. 1984, Revista Iberoamericana. University Library System, University of Pittsburgh. USA

Artigo de Euler Belém

 Morre Herondes, o Cezar da crítica de cinema, aos 79 anos


Poema de Emily Dickinson

Dizem, “com o tempo se esquece”,

Mas isto não é verdade,

Que a dor real endurece,

Como os músculos com a idade.

O tempo é o teste da dor,

Mas não é o seu remédio —

Prove-o e, se provador for,

É que não houve moléstia.

(Tradução de Aíla de Oliveira Gomes)

É o Herondes, o Cezar do cinema? Era assim que, eventualmente, eu abordava Herondes Cezar, um dos melhores críticos de cinema do país.

Herondes Cezar era um mágico das palavras, dado seu amplo conhecimento da Língua Portuguesa, do cinema e da literatura. Era uma espécie de Google do cinema. Tanto que, antes de consultar o site de buscas, às vezes eu entrava em contato com o Glauber Rocha da crítica. Com sua memória prodigiosa — derivada da paixão pelo cinema, com que, digamos, se casou para toda a vida —, não precisava consultar nada. Dizia na lata: “Billy Wilder fez o filme “Quanto Mais Quente Melhor”, com Marilyn Monroe e Jack Lemmon, em 1959. É imperdível. Diversão de primeira linha”.

Herondes Cezar escrevia como estilista da Língua Portuguesa | Foto: Facebook

Há cerca de 10 anos, ou um pouco menos, eu e Candice Marques de Lima, minha companheira, almoçamos com Herondes Cezar em Brasília. Ele fez questão de pagar o almoço, num restaurante por quilo; muito bom, por sinal. Depois, fomos para seu apartamento. Lá, escolheu o filme “O Discreto Charme da Burguesia”, do cineasta espanhol Luis Buñuel. Com aquela sua nobreza característica, não disse uma palavra durante a exibição. Depois, perguntou nossa opinião e a escutou atentamente, como era de seu feitio.

Há pouco tempo, em companhia de Candice e do poeta Salomão Sousa — um de seus melhores amigos e amparo —, nos encontramos na Livraria Travessa, no Shopping Casa Park, em Brasília. Herondes Cezar me deu um DVD de um filme sobre a Irlanda e eu lhe presenteei com um livro sobre o jornal “O Pasquim”. Ele agradeceu, certamente por gentileza, porque as cousas da esquerda, naquela quadra da vida, não lhe interessavam mais.

Durante o encontro, Herondes Cezar quase não falou. Porque um crítico de música, chatíssimo, não parava de falar e de fazer declamações. Eu observava o rosto de Candice, Salomão e Herondes e via certo descontentamento. Porém, por educação, não reclamavam. Não fosse pelos três amigos, eu teria dormido ante a vaidade doentia do sabe-tudo bolsonarista.

Poema de Rudyard Kipling

Se

Se és capaz de manter tua calma, quando,

todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.

De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,

de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,

tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,

em armadilhas as verdades que disseste

E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,

a dar seja o que for que neles ainda existe.

E a persistir assim quando, exausto, contudo,

resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.

Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,

e — o que ainda é muito mais — és um Homem, meu filho!

Herondes Cezar, que não era de esquerda, relutou em comparecer para a resenha exatamente por causa do “chato de galochas” (ele morreria de rir da expressão). Mas, em respeito a mim, a Salomão e a Candice, decidiu comparecer.

Recentemente, Herondes Cezar, que morava sozinho — ou melhor, com suas centenas de filmes, verdadeiros filhos —, caiu numa rua, em Brasília. Aceitando recomendação médica, recolheu-se numa casa de idosos. Lá, de acordo com uma pessoa da família, parecia satisfeito, falando de cinema para os novos companheiros de jornada. Aos velhos amigos, sugeriu que havia virado monge e, por isso, rompera com o passado. Não tinha mais passado. Era a senha: não quero contatos. Só a família o visitava (sempre me falou com orgulho de uma filha cantora lírica).

Na quinta-feira, 24, Herondes Cezar — com “z”, insistia, quando enviava algum texto sobre cinema — morreu aos 79 anos. Fui avisado por Salomão Sousa, que teve a delicadeza de me enviar uma reportagem de Danylo Santos, do jornal “Mais Notícias”.

Nascido em Piracanjuba, Herondes Cezar era apaixonado pela cidade goiana — sua Ítaca. Falava com orgulho e lirismo das coisas e pessoas do município, conhecido como a Capital das Orquídeas do Cerrado.

O que Herondes Cezar tinha? Por certo, uma tristeza profunda na alma, uma desconexão com a superficialidade do mundo atual, com suas amizades e ideias, por assim dizer, “líquidas” (na verdade, liquidadas). Havia uma inadequação entre este homem culto e delicado — amigo dos amigos (como Lisandro Nogueira, Lourival Belém e Salomão Sousa) — e a brutalidade do presente. Ele falava baixinho, com seu português escorreito, mas não pernóstico. Era um ser agradável. Parecia um mago… um mago nobre. E era um mago (do cinema) e nobre.

Herondes Cezar, como bem disse Danylo Santos, era crítico de cinema e escritor. Sobretudo, era um intelectual refinado. Porém, modesto, não se considerava como tal. Havia uma cultura sedimentada em Herondes Cezar, por isso parecia natural, e não constituída, durante anos, por vastas leituras e reflexões.

Quando os textos de Herondes Cezar chegavam à redação do Jornal Opção, no qual colaborou por algum tempo, era um prazer editá-los. Primeiro, porque eram muito bons, com alto espírito de síntese. Eram artigos ponderados, meditados. Segundo, porque não havia erros de português. Sua preferência era pela língua cultura, precisa.

O crítico não perdia as cerimônias do Oscar e apreciava mandar as informações a respeito. Aos poucos, porém, foi desanimando. Deixou de postar no Facebook. Talvez estivesse esperando a hora final, que, para um homem de cultura, que deixou livros — como os ótimos “Era Uma Vez no Cinema” e “Becape da Memória” —, só chega em termos físicos. Herondes Cezar permanece vivo pelos livros, por sua crítica de cinema aguda e na memória dos amigos. Entendia tanto de cinema que, quando via um filme recente, era capaz de arrolar as “citações”, sutis ou não, de películas clássicas.

Nós, os amigos, como Salomão Sousa, eu, Lisandro e Lourival Belém (que, como psiquiatra, cuidou dele por certo tempo), amávamos Herondes Cezar, aquele homem magrinho e baixinho, com ar refinado e levemente sardônico. Parecia um lorde britânico nos trópicos.

Herondes Cezar na fala de Salomão Sousa

O poeta, prosador e crítico literário Salomão escreveu no jornal “Mais Notícias”: “Grande amigo. Há ausência física, mas permanece seu espírito ativo, de amizade, conhecimento rígido, quase cético, mas de ilustração de nossa cultura. Visitei a Academia de Piracanjuba sob seu convite, onde fiz palestra. Serei eternamente fiel à nossa amizade”.

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