Mensagem do poeta Nirton Venâncio

O CORPO DA POESIA

Caro Salomão,

há uma semana que estou mergulhado no seu livro. Fazia tempo que não lia ensaios tão fascinantes.

Deito e acordo com ele. Demoro pelo prazer de saborear cada página. O seu texto é precioso, suas reflexões pertinentes, suas informações valiosíssimas. O ensaio inicial, "A compreensão da poesia", já voltei duas vezes.

Sublinho tudo, dialogo com as menções, anoto as citações. Uma das melhores leituras deste ano.

"Como os corpos, as palavras se agarram, se abraçam e infiltram-se umas nas outras ao serem incorporadas à poesia".

"Vivemos para produzir memória, e a forma de gastá-la ou validá-la se dá ao nos aproximarmos do terreno onírico organizado pelas palavras "

"A poesia não se satisfaz em ser noticiário, receituário e muito menos missiva para a transmissão de conteúdo egocêntrico ou de espavento cínico."

“Só é possível compreender a poesia se esforçamos para nos empoderarmos com a riqueza das sensações, do conhecimento da realidade, do domínio da memória ou se invadimos os interstícios obscuros da linguagem. A poesia se realiza através do equilíbrio das palavras, das sonoridades, da fuga das expressões de óbvias definições."

"Ora a Poesia nos funde; ora, nos confunde. Com a Poesia, fundamos o que é humano."

"Poesia e alteridade", do poeta goiano-brasiliense Salomão Sousa, edição do autor, Gráfica Serafim, 2024.

Artigo III de Marcos Fabrício Lopes da Silva

TRABALHO DURO

O trabalho e a produção são uma parte fundamental e básica da atividade e da cultura humanas. Mais que um homo faber, a pessoa é capaz de atividades superiores e modos de ser mais altos (amor, conhecimento). Na vida, além de trabalho e seriedade, existe lazer e diversão. Sem eles, o trabalho não se entende. Inclusive, ele mesmo pode converter-se em uma maneira de se divertir. O trabalho, em sentido objetivo, constitui o aspecto contingente da atividade do homem, que varia incessantemente nas suas modalidades com o mudar das condições técnicas, culturais, sociais e políticas. Em sentido subjetivo, se configura, por seu turno, como a sua dimensão estável, porque não depende do que o homem realiza concretamente, nem do gênero de atividade que exerce, mas só e exclusivamente da sua dignidade de ser pessoal. A distinção é decisiva, tanto para compreender qual é o fundamento último do valor e da dignidade do trabalho, quanto em vista do problema de uma organização dos sistemas econômicos e sociais respeitosa dos direitos do homem. A subjetividade confere ao trabalho a sua peculiar dignidade, que impede de considerá-la como uma simples mercadoria ou um elemento impessoal da organização produtiva.

A pessoa é o parâmetro da dignidade do trabalho. Hoje mais do que nunca, trabalhar é um trabalhar com os outros e um trabalhar para os outros: torna-se cada vez mais um fazer qualquer coisa para alguém. Também os frutos do trabalho oferecem ocasião de intercâmbios, de relações e de encontro. O trabalho, portanto, não pode ser avaliado equitativamente, se não se leva em conta a sua natureza social. Conforme sublinha o escritor e jornalista Salomão Sousa: “sou dependente de todos que estão ao meu redor para completar as minhas ações e para que o futuro de meu trabalho tenha algum significado. O que sou veio do ensinamento e do exemplo de todos aqueles que passaram pela trajetória de minha vida” (Bifurcações, 2022).

O capital mais de uma vez sufocou o mundo do trabalho, reduzindo os trabalhadores a condições extorsivas e contrárias à dignidade humana. “Pecamos pela gula de riqueza e pela indiferença aos princípios de ordenamento da sociedade. Soma-se a isso a perda da razoabilidade, que é a decisão do indivíduo de pensar e agir de forma injusta, apesar de estar ciente de que segue na contramão da moralidade. A prática da maldade (ruindade consigo e com a sociedade) passou, então, a ser praticada de forma deliberada. Há horizontes em todos os lugares, mas a falta de razoabilidade obstrui todos eles” – lamenta, com pesar, Salomão Souza, em Bifurcações. Convém frisar que as sociedades não são sistemas livres de contradições; sua organização pode vir a tornar-se extremamente irracional. Nesse sentido, no atual momento político e econômico, os construtores da sociedade pluralista devem superar a lógica perversa do lucro. Precisam buscar uma efetiva sustentabilidade, necessária para se alcançar o equilíbrio social.

O conjunto de recursos, atividades, instrumentos e técnicas que permite a cada pessoa o exercício adequado de suas tarefas não pode sobrepor-se ou minar a dimensão subjetiva do trabalho humano. O respeito a esta perspectiva é a consideração insubstituível de cada ser humano e de sua vocação pessoal. “É urgente reaprender a viver em companhia (do latim cum – com + panis – pão, isto é, companhia significa comer o pão junto). Se insistirmos nessa fúria de consumirmos sozinhos o pão, sem nos preocuparmos com a injustiça da pirâmide social, o Homem corre séria ameaça de voltar a nascer com rabo” – argumenta Salomão Souza, em Bifurcações. Trabalhar refere-se ao respeito moral ao próximo e, por desdobramento, é reverência à própria família e à sociedade. Abominável, pois, é o enquadramento do trabalhador na condição de escravizado. Trata-se de um verdadeiro atentado contra a dignidade, com ferida na cultura solidária e civilizada.

A necessidade do trabalho não se refere apenas ao sustento familiar e pessoal, prioridade incontestável, mas, particularmente, ao bem que promove a cada pessoa. Trata-se de direito fundamental. A propósito, à frente da banda Legião Urbana, Renato Russo (1960-1996) compôs e cantou a música Fábrica (1986): “Nosso dia vai chegar,/Teremos nossa vez./Não é pedir demais:/Quero justiça./Quero trabalhar em paz./Não é muito o que lhe peço/Eu quero trabalho honesto/Em vez de escravidão./Deve haver algum lugar/Onde o mais forte/Não consegue escravizar/Quem não tem chance/De onde vem a indiferença/Temperada a ferro e fogo?/Quem guarda os portões da fábrica?/O céu já foi azul, mas agora é cinza/E o que era verde aqui já não existe mais/Quem me dera acreditar/Que não acontece nada de tanto brincar/com fogo./Que venha o fogo então./Esse ar deixou minha vista cansada./Nada demais”.

Com o avanço das tecnologias da informação e comunicação (TICs) não foram poucos os que acreditaram que uma nova era de felicidade se iniciava: trabalho on-line, digital, era informacional, finalmente adentrávamos no reino da felicidade. O mundo do labor enfim superava sua dimensão de sofrimento. Mas sabemos que o mundo real é muito diverso do seu desenho ideal. O mundo das grandes corporações globais não existe sem o trabalho brutal e manual em seus rincões e grotões. As transversalidades entre classe, gênero, etnia, geração, tudo aparece nas complexas fábricas e faz desmoronar o mito dos trabalhos brandos, tecnologizados e assépticos. Ora, como é impossível que todos se beneficiem do modo de vida dos mais ricos, a insatisfação maltrata os indivíduos que teriam podido se satisfazer com sua sorte sem essa comparação. A felicidade, a paz interior, a serenidade vêm da supressão dos desejos ou da conversão a um querer racional, o que não é pouca coisa. “Nossa grande e gloriosa obra-prima” – como bem disse Montaigne (1533-1592) – “é viver adequadamente” (Os ensaios, 1580).

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* Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023) e integrante do Coletivo AVÁ desde 2018.

** Jacob Lawrence (1917-2000): The Builders (Family), 1974.

Artigo II de Marcos Fabrício Lopes da Silva

 SABEDORIAS DE SALOMÃO

O objetivo da crítica é penetrar na obra enquanto lugar de abertura do mundo. Assim nos aproximamos de Bifurcações (2022), escrito por Salomão Sousa, por desejo e necessidade: “Fomos buscá-la/e as luas estavam em órbita/Não conseguimos sequer chocar/com tetos deslocados/Mas quem poderia esperar/que houvesse um ajuste/como as pétalas superpostas?/Retornaremos inúteis/se não pudermos postar/um pouco de ouro no mundo”. O ativismo empático do autor expressa a vontade de que podemos viver em dias melhores para as relações humanas: “A pluralidade de vozes cria a harmonia, desde que a civilidade e a razoabilidade não sejam ofendidas. Em outros países, em outras cidades, em outras casas, as pessoas são idênticas a nós em desejos. Se somos todos idênticos nos desejos, as mãos não podem sair sujas de sangue do abraço”.

O esforço para olhar através dos olhos do outro pode ser pessoalmente desafiador – e por vezes extremamente divertido – , mas tem também extraordinário potencial como uma força para a mudança social. No livro de Salomão Sousa, predomina uma voz autoral que se corresponde nas evidências de que somos Homo empathicus, o que ultrapassa a sombria definição dos seres humanos como criaturas egoístas, preocupadas em se autoproteger, voltadas para seus próprios fins individualistas. Como disse o próprio escritor, questionando o nosso sistema determinista errático, com humor e ironia: “Em época de egocentrismo, com todo mundo se proclamando eu pra cá eu pra lá, o eucalipto deve estar renegando o próprio nome”.

Um conjunto de circuitos da empatia se encontra presente em Bifurcações, livro no qual Salomão Sousa realiza um experimento de viagem bastante proveitoso. Seu estilo “inclusivo” ou “universal” traz notícias de um mundo animado por saltos imaginativos e aventuras experienciais. Expandir nosso potencial empático inspira um novo modo de pensar sobre o que realmente precisamos para nosso bem-estar pessoal, incluindo ampliar a nossa participação na qualidade de vida em sociedade. “Cuidar de si mesmo” está se tornando uma aspiração ultrapassada à medida que começamos a perceber que a empatia está no cerne do ser humano. Estamos no meio de uma grande transição da era cartesiana de “Penso, logo sou” para uma era empática de “Você é, logo sou”.

“Quem destoa do amor gera rubis de sangue seco”, adverte Salomão Sousa. Na esteira sugerida pelo autor, deveríamos falar mais sobre nosso “déficit de empatia” – nossa capacidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa, de ver o mundo através dos olhos daqueles que são diferentes de nós. Percebendo uma “epidemia de narcisismo” pairando no ar, Salomão Sousa defende a sensibilidade empática agindo pelo princípio do verbo: “Escrevemos e lemos para organizar novos arranjos para as palavras, onde surgem novos significados, novas propostas de relações sociais, onde os indivíduos, as comunidades e as nacionalidades passam a se (re)conhecer, a se respeitar e a enriquecer. A leitura é um gesto solitário, mas acumula no indivíduo a compreensão dos espaços que deseja ocupar. A manifestação de argumentos agregadores estimula a concórdia e a sobrevivência da liberdade”.

Há que se aprender o sentido da gratidão por quem veio antes de nós e a generosidade pelos que virão depois. Uma surpresa no caminho nos lembra a razão de caminhar. Ler Salomão Sousa nos oferece uma sabedoria bifurcada, desconfiada da álgebra do conquistador, onde a unidade é a única medida que conta. O conceito de pureza perde também o contorno exato de seu significado. É notório o desencanto hegemônico diante da poética da diversidade. Para Salomão Sousa, as culturas não são, mas estão dentro do processo da Relação, e a função exploratória das artes e das literaturas coloca-se como urgente e necessária no árduo trabalho de fazer emergir a complexidade, tendo em vista pensar os caminhos possíveis para a preservação da diversidade dentro da confluência das culturas.

Os deslocamentos e as errâncias tornam-se constituintes da Poética Bifurcada de Salomão Sousa, que coloca em xeque o atalho das conclusões dualistas para traçar um “rizoma com o mundo”, numa delicada busca de deciframento do real, tanto no campo estético, quanto nos campos histórico, político e ideológico. Diante da bifurcação que se impõe entre poesia e prosa, o autor vai de miscelânea, combinando literatura e filosofia, sem deixar o “ser” voando com uma só asa. O fôlego ensaísta e acadêmico do autor nos oferece gás de maratonista, na contramão dos apressados de plantão que só querem bater recordes e deixar logo a pista do acontecimento.

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* Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023) e integrante do Coletivo AVÁ desde 2018. Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF).

Artigo I de Marcos Fabrício Lopes da Silva

 INTELIGÊNCIA ALTERITÁRIA

Aceitemos, por enquanto, essa versão da história: a década de 90 do Século XX consolidou uma tendência – a presença de computadores nos ambientes de praticamente todas as áreas do trabalho e do conhecimento – a qual, nos 40 anos anteriores, vinha sendo silenciosa e talvez involuntariamente semeada, uma vez que estes equipamentos eram inicialmente vistos apenas como ferramentas de pesquisa científica e de uso militar. Seu uso pessoal não foi um projeto acalentado de forma planejada pela comunidade científica e tecnológica, e acabou explodindo pela ação de jovens estudantes californianos entusiasmados pela computação, alguns dos quais com afiadíssimo senso de oportunidade empresarial, aliado a enorme criatividade, como foi o caso de Steve Jobs (1955-2011), desenvolvedor do padrão de interface de janelas, no pioneiro Macintosh; e de Bill Gates, que apropriou e disseminou a ideia de Jobs, associando-a a disseminação de softwares dirigidos a várias atividades profissionais, através do hoje onipresente sistema operacional Windows.

Falemos agora do surgimento e consolidação do sistema operacional Linux em um contexto marcado pela hegemonia de sistemas operacionais comerciais, sendo o Windows/Microsoft o exemplo paradigmático. O idealizador do Linux optou por abrir o seu código-fonte e oferecê-lo, gratuitamente, na Internet. Desde então, pessoas de diversas partes do mundo têm participado do seu desenvolvimento. O sistema Linux, simbolizado pelo pinguim de bico e pés alaranjados, foi escolhido a dedo pelo finlandês e cientista da computação Linus Torvalds, autor da façanha no mundo da tecnologia. Ao contrário de sistemas “proprietários”, como o Windows/Microsoft, essa forma de produção de software – cooperativa, descentralizada e “anárquica” – foi chamada, por Eric S. Raymond, de “método bazar”, como contraponto ao “método catedral”, “forma centralizada e controlada de se desenvolver software” e que “necessita de um arquiteto central” (A Catedral e o Bazar, 1999).

Ao tentar reconhecer as boas intenções da inteligência colaborativa, os projetos open source (código aberto) particularmente me animam, não só pelos avanços tecnológicos, mas principalmente por discutir um dos grandes nós do capitalismo informacional ou cognitivo: os encontros e os desencontros entre propriedade intelectual e liberdade criativa. Existe autoria puro-sangue no mundo, aquela capaz de separar o joio (cópia) do trigo (original) perfeitamente? Não é a leitura do outro que promove especialmente a escrita de si? O que dizer do novo se ele parte da velha vontade de mudar? Como lidar com o plágio incômodo e o autêntico trabalhoso? A tese defendida por Harold Bloom (1930-2019), sobre “angústia da influência”, qualifica o debate pela criação. A ânsia de invenção pode nos levar à euforia da “visão profética” ou da “imaginação visionária”, o que deprime a honestidade intelectual e a humildade sensível profundamente. Como indica a leitura segura de João Cabral de Melo Neto (1920-1999):

“Um galo sozinho não tece uma manhã:/ele precisará sempre de outros galos./De um que apanhe esse grito que ele/e o lance a outro; de um outro galo/que apanhe o grito que um galo antes/e o lance a outro; e de outros galos/que com muitos outros galos se cruzem/os fios de sol de seus gritos de galo,/para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo, entre todos os galos” (Tecendo a manhã, 1966). Uma leitura popular do poema já nos avisa da importância do trabalho em equipe para a realização de uma empreitada. Deveríamos saber que a leitura é individual, mas a autoria é coletiva. Os iluminados me cansam. Os ilustrados têm meu total apoio. Se hoje estamos sentindo o som e a fúria da Inteligência Artificial (IA), fazendo um barulho ensurdecedor, não foi por falta de aviso prévio. A Inteligência Humana vem perdendo o interesse pela realidade. Ficando com a virtualidade, alimentamos o conto da autossuficiência relacional que atende aos desejos e às necessidades de uma civilização baseada em controlar a energia erótica das pessoas. O desempenho é pornográfico; o encantamento é erótico.

“Numa época em que o único pendor do homem é para o egocentrismo, que o único verdor do mundo é a supremacia da máquina –, só poderíamos contar com a alteração dos processos de memorização. A memorização visual que ainda existe acaba ocorrendo com parcialidade. O indivíduo não quer mais intimidade, passeia com indiferença e, se manifesta alguma interação, a agressividade tem predomínio na hora de ele aproximar-se da natureza”. Essa declaração foi dada pelo escritor e jornalista Salomão Sousa, em livro super-recomendado. Momento crítico, publicado em 2008, revela o olhar arguto de um pensador fundamental para identificar o fácil enganoso e o difícil atraente. Além de honrar as melhores tradições ensaísticas, o autor investe na bela combinação entre literatura e filosofia para acolher achados e perdidos. O lado tóxico da Inteligência Artificial, por exemplo, nos afasta da Inteligência Afetiva e nos coloca diante da acídia contemporânea:

“Só no confronto com a natureza e com outras pessoas há a construção da consciência de que não somos o centro do universo. De que outro também constrói seu espaço, onde todos nós teremos de nos mover. Só o solitário acha que o mundo é todo dele. Ele acha que a corda está sobre o abismo só para ele. Temos de compreender: quando a corda partir, e a ela estivermos agarrados sobre abismo, só o outro para arremessar outra para nos soerguer”. Diante de tamanhas palavras, expressas por Salomão Sousa, proponho mais atenção e carinho aos princípios da Inteligência Alteritária, atitude que permite que a igualdade e a diferença deem um sentido mais feliz ao encontro entre as pessoas.

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* Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (NEIA/FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Comunicador Social formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Jornalista e autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023), além de participante do Coletivo AVÁ desde 2018.

Resenha de Sérgio de Castro Pinto

Quantas coisas Salomão Sousa diz nos seus poemas que, para os leitores neófitos, noviços, não dizem absolutamente nada! No entanto, quanta coisa com coisa o eu lírico diz! Primeiro, porque penetra surdamente no reino das palavras e, contrariando a receita drummondiana, faz versos sobre acontecimentos. Mas acontecimentos que fogem dos lugares- -comuns, da relação causa e efeito, da lógica cartesiana, para erigirem admiráveis mundos novos. 
A poesia de Salomão Sousa é uma poesia à parte, marginal, no sentido de nadar contra a maré da mesmice que, infelizmente, ainda grassa e prepondera na lírica brasileira contemporânea. A de Salomão pede, reivindica e até mesmo exige um leitor novo, afeito a descortinar um mundo que se cumpra através das palavras que não se veem obrigadas a rimar a palavra sono com a sua incorrespondente palavra outono, para me valer mais uma vez do poeta de Itabira. Quem conceituou muito bem a poesia de Salomão foi o crítico e poeta Miguel Sanches Neto: “(...) os poemas trazem uma densidade de linguagem própria de quem percebe a realidade como fato de linguagem. (...) A realidade nunca vence a sua poesia, pois a linguagem é mais forte, conduzindo o leitor a espaços inusitados por meio de metáforas”. 
A propósito, em resenha que escrevi a respeito de Desmanche (Gráfica Serafim, Brasília, 2018), de Salomão, acrescentei: “A linguagem, então, converte-se num mundo todo particular do eu-lírico, de onde ele extrai imagens insólitas, imponderáveis, sobretudo quando rejeita a mimese enquanto imitação pura e simples da realidade objetiva”. 
O bom prefácio de Certezas para as Madressilvas (Edição do autor, 2024) é da poeta e escritora Sônia Elizabeth, para quem a poesia de Salomão “(...) é um oceano de procuras e achados, descobertas, constatações”. A capa do livro e a linoliogravura da capa são, respectivamente, de Davi Bento e de Beto Nascimento, competentes artistas plásticos. 

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Simultaneamente ao livro Certezas para as Madressilvas, Salomão Sousa lançou Poesia e alteridade (Edição do autor, 2024), que reúne, entre outros, ensaios sobre Anderson Braga Horta, Alexandre Pilati e Guimarães Rosa. O ensaio de abertura do livro, “A Compreensão da poesia”, é bastante elucidativo a propósito não só dos poetas sobre os quais Salomão discorre como também a respeito de sua própria poesia, pois a exegese da obra de outros poetas, de outros autores, fornece pistas necessárias para um melhor entendimento da elaboração de sua obra. Senão, vejamos: “Não é o autor que tem de reduzir a complexidade do estilo ou abolir os vocábulos desconhecidos do leitor para unificar a compreensão do texto. A incompreensão de um poema não nasce em sua composição. O poema “Ítaca”, de Konstantinos Kaváfis, será bem menos assimilado por aquele que nunca leu a Odisseia, de Homero”. E mais adiante: “Quanto menos lê poesia, quanto menos a identifica nos textos, mais ignorante o indivíduo se torna. Quanto mais transita sem se integrar à realidade, sem aprendizagem de sua nominação e se nega a interagir com o diferente, mais o ignorante (aquele que não sabe) aprofunda a incapacidade de decodificar um texto”. Mesmo vazados poeticamente, alguns ensaios de Poesia e Alteridade, além de não tangenciarem a obra objeto da análise, tornam a leitura mais prazerosa, pelo menos para aqueles que sabem interagir e conviver com os contrários. Daí a lírica de Salomão Sousa também primar pela alteridade, pela diferença, atributos que reivindicam leitores, poetas e críticos que saibam se outrar, que não vivam na contemplação narcísica do próprio umbigo. 
As orelhas do livro são assinadas por Alessandro Eloy Braga e Luiz Paulo Santana. A capa é de Carlos Alberto. E Félix Volloton (1865-1925) é o responsável pelo desenho da capa e gravura das folhas de guarda.

Texto de Gardênia Holanda Maciel

Certa vez pedi à Gardênia Holanda Maciel para escrever um posfácio para um livro de poesia que estava preparando. O livro nunca saiu e o texto dela ficou pedido entre minhas coisas. Eis o texto, de uma jovem amante total da poesia:

Debatemos muita realidade nacional, com destaque para a poesia. Segue o texto dela: Quais serão as dúvidas de Orfeu, se não as minhas, as do meu vizinho, as do meu patrão, as do meu amante imaginário? Quais serão as dúvidas de Orfeu, jovem, ávido por um amor inteiro, completo e ao mesmo tempo insano... Orfeu que de tanto amar não dominou o amor e perdeu! Como perco eu, como perde você, como perde Salomão, também o rei! Diante do convite de Salomão Sousa (agora o escritor) para escrever este Pósfácio, talvez eu tenha me perdido voltado os olhos com minha profunda curiosidade sobre a poesia e acabei por tornar o superficial conhecimento em um fino fantasma ou em uma estátua de sal (como queiram) e, petrificada fiquei ao ler os escritos de “Dúvidas de Orfeu”. Não tenho, portanto, que opinar, diante de minha própria imagem no espelho e que, ao me ver, vejo-me comum, igual, normal e corriqueira como quem “fala de uma cortina rasgada ou dos telefonema que não informam”... Como alguém que ama exageradamente e “chega a atravessar toda a lama, o corpo em sessões e prazer”... Ou, por fim, alguém sobrenatural que chega a ser digital, “dispensado das pregas, das indecências das impinges”... Que poesia é essa? (Eis mais uma dúvida de Orfeu?). Certa vez li um texto atribuído a Carlos Drummond de Andrade que me fez refletir, eis um trecho: “... Entendo que poesia é negocio de grande responsabilidade e não considero honesto rotular-se poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam e um poeta desarmado é mesmo um ser a mercê de inspirações fáceis, dócil a modas e compromissos...” É um texto forte e conciso, a partir do dia que o li tentei mergulhar mais na poesia e não me deixar levar por inspirações momentâneas. A escrita de Salomão Sousa mostra o resultado disso, mostra que ele faz disso um trabalho e não mera inspiração... Mas, caio em contradição e penso: afinal, trabalho não é inspiração? O trabalho não inspira? Afinal de contas porque separamos o trabalho do prazer? (Eis outras dúvidas de Orfeu...). Rodas contemporâneas de poetas questionam quem são os verdadeiros, quem são os aceitos e quem são os grandes garimpeiros das palavras, das cadências, das rimas, das métricas. Há quem julgue, há quem defenda, há quem classifique, há os que buscam marcos separatista para poder rotular! Elos perdidos de nossa mania ocidental de classificar em busca de uma identidade temporal. Não sou purista, não sou integrada ou muito menos caótica, mas acho que poesia é uma mistura de tudo isso: trabalho, inspiração, lazer, prazer, desejo, carregar pedra, mergulho em dores pessoais, engenharia, métrica, amor... Consegui detectar em “Dúvidas de Orfeu” todas elas, mesmo que Salomão negue... Mesmo que neguemos, toda escrita é um pouco de nós e um tudo de nossa história. Toda escrita, mesmo que trabalhada, é fruto de nossas prioridades, de nossas crenças, de nossas ciências, de nosso tempo, de nossa política. Mesmo o trabalhador mais atento, que se dedique com afinco e não se deixa roubar por saídas momentâneas da realidade, estará revelando suas emoções por trás das suas palavras medidas e comedidas. E fica a dúvida, eterna... Mesmo que a gente negue, querido Orfeu!

Por Jacqueline Assunção Soares, minha afilhada


Hoje quero fazer um agradecimento a duas pessoas muitos importantes em minha vida: meus queridos Padrinhos. A escolha da data para fazer esse agradecimento, embora comercial, não é coincidência, ela diz muito sobre a enorme importância que tem essas duas pessoas incríveis, que permitiram que eu fizesse parte de suas vidas.

Foi uma enorme sorte meu Padrinho ter aceito o pedido de minha mãe para batizar-me, apesar de acreditar que não teria sido muito difícil de ele aceitar, já que se trata de uma pessoa super bacana. E foi ainda mais sorte a minha Madrinha ter embarcado nessa ideia e também ter aceito batizar uma desconhecida, rsrs... O fato é que sou e sempre fui grata pelo que os dois fizeram por mim. Os dois foram extremamente bondosos, generosos e corajosos de ter abrigado uma criatura que não fazia parte da família, totalmente diferente da cultura e do modo de viver deles. É preciso muita bondade, generosidade e sensibilidade para inserir o outro, o diferente, em seu convívio e no de sua família. Admiro-os ainda mais por isso...

Meu Padrinho, extremamente bondoso e sensível às dificuldades sociais (sempre atento às questões sociais), percebeu que minha mãe passava por dificuldades para criar os quatro filhos sozinha, e resolveu ajudá-la ao me convidar a ir morar com sua família. Penso, nunca conversei com eles sobre isso, que minha mãe, quando foi fazer um tratamento de úlcera no hospital de base (minha madrinha trabalhava lá) e lá reencontrou minha madrinha, comentou com ela que estava passando por sérias dificuldades, e minha madrinha deve ter comentando com meu padrinho sobre a situação, que tomou essa decisão.

O que lembro, depois de minha mãe ter contado que havia reencontrado minha madrinha, é que um homem alto, loiro, bem vestido, num carro preto, foi ter uma conversa com minha mãe e entregar uma cesta básica natalina (e que cesta, minha gente! Nunca tínhamos visto nada igual) para ela... Não recebíamos visitas. Morávamos num quartinho nos fundos de uma casa, e a dona da casa foi chamar minha mãe, que foi receber o rapaz no portão. Eu e meus irmãos ficamos curiosos, devido à surpresa de alguém nos fazer uma visita, mas minha não permitiu que fôssemos com ela até o portão. Então eu e minha irmã Lucília fomos escondidas “curiar” a conversa que ocorria no portão, curvadas no beco da casa, na noite daquele dia. Lembro da figura desse rapaz: alto, alegre e simpático. Como minha mãe não tinha o hábito de conversar muito, nos disse o essencial: que meu padrinho estava me convidando para ir morar um tempo com eles. O que fiquei extremamente feliz. E assim meu padrinho ajudou minha mãe a aliviar um pouco mais as dificuldades que passávamos.

Minha gratidão já seria enorme só por essa atitude de generosidade. Mas abarca tudo o que eles acrescentaram em minha vida.

Meu padrinho me possibilitou descobrir um outro mundo, que a minha realidade não me permitia ter. Éramos muito pobres, e a nossa realidade de moradores da periferia era bastante diferente... Na casa de meu padrinho, pude descobrir o que era ter um quarto, ter sala, copa, banheiro com chuveiro, pia, espelho, descarga... Mas muito mais se descortinou na vida da garota pobre de 10 anos, moradora da Ceilândia. Foi com meu padrinho que descobri o cinema, o shopping (acessível somente a quem possuía poder aquisitivo) o Mc’Donalds (sim, minha gente, era o suprassumo da época, eram filas enormes). Meu padrinho nos levava para passear (os filhos dele e eu) fins de semana, e eu desfrutava de toda essa maravilha, que é para uma criança. Os passeios em família ao clube, as visitas às casas dos amigos. Desfrutei da companhia da querida Ivonice, com quem dividi muitos momentos especiais. A casa de meus padrinhos era um ambiente de liberdade, abertura, convivência harmoniosa e sem conflito. Foi um período de descobertas e aprendizados.

E meu padrinho continuou presente e contribuindo mesmo na minha vida adulta... Lembro que na adolescência, já não mais morando com eles, meu padrinho me presentou com uma coleção de livros clássicos da literatura brasileira. Confesso que só li dois deles. Um livro que ele me deu e me marcou profundamente, já no finzinho de minha adolescência, aos dezoito, e já grávida de minha filha, mas sem que soubessem do fato, rs, foi um livro sobre uma chinesa que sai de casa para fugir dos rigores da educação chinesa, e que acaba tendo de se prostituir. Esse livro foi marcante, porque descreve as agruras que ela teve de passar, então foi um construtor de caráter. E meu padrinho nunca deixou de insistir no meu desenvolvimento pessoal. Livros importantes ele me deu, e me dá até hoje, acredito que para alargar meus conhecimentos... conhecer outras formas de vida, outros pensamentos, e, consequentemente, diminuir minha ignorância, minhas limitações, e, assim, ter outras possibilidades. Foram inúmeros os passeios às livrarias, ao cinema... Muitas sessões de filmes em sua casa, agregando conhecimento... lembro em especial quando ele colocou um filme italiano sobre a amizade quando fui visitá-lo junto com Camila e a amiga dela Sara, teceu comentários extraordinários. O mais incrível de tudo isso é que ele não ofertou tudo isso apenas à minha pessoa, ele também o fez por outros que aportaram em sua casa, e até mesmo os de fora, sempre contribuindo com crescimento pessoal de outros.

A casa de meus padrinhos me possibilitou o conhecimento de um outro mundo... sempre me possibilitou o contato com o novo. Tudo de moderno e atual estava lá... filmes, músicas, livros infinitos... Como um bom jornalista que é, meu padrinho estava sempre acompanhado das novidades, e sempre contribuindo para enriquecer o repertório de quem por lá chegasse. Lá descobria-se desde o jazz, a música erudita, o blues, a bossa, a música popular brasileira, até os cantores novos, como Lauryn Hill... nunca me esqueço de chegar na casa de meus padrinhos e ver o DVD dela na tela da televisão, foi paixão à primeira vista, isso nos idos de 2002. Sua casa estava sempre aberta com a presença de familiares, poetas, escritores, músicos que iam atrás das últimas novidades, porque o meu padrinho já tinha disponível... Enfim, era uma casa fervilhante e que proporcionou momentos enriquecedores a muitos... sempre uma casa convidativa, sempre cheia de parentes, amigos e afilhados. Pude desfrutar da deliciosa companhia dos amigos e parentes de meus padrinhos, que adoram receber visitas e os recebem muito bem.

Então só tenho a agradecer aos meus queridos padrinhos, que têm uma importância muito grande em minha vida. Agradeço imensamente o que fizeram, sou grata pelo desprendimento e por tudo que me ofereceram. Nunca conseguirei pagar o que fizeram por mim.

E neste dia simbólico do dia dos pais, quero agradecer a meu padrinho em especial, que representou e representa a figura de um pai que não tive, com seus incríveis ensinamentos, postura de caráter, uma pessoa cordial que sempre buscou tratar o outro com cordialidade e respeito, com ética e moral, resolver os problemas da vida da melhor maneira possível, sempre se pautando pelo diálogo. Pessoa de incrível tolerância que sempre procurou tratar o próximo com cordialidade e respeito, sem distinção de pessoas e julgamentos, aberto à assimilação de outras culturas, aceitação do outro.

Muita gratidão pelos valorosos momentos de conversas de aconselhamentos, por mostrar a beleza da vida, mesmo nas dificuldades, mostrando que é melhor viver com leveza, pelos momentos preciosos de compartilhamento de informações, conhecimentos... Tenho na pessoa dele a referência de caráter, integridade, além de alegria e humor natos, meu padrinho tem um grande senso de humor que o faz ser uma pessoa leve e agradável que queremos estar sempre junto dele. É a pessoa que faz almoços para agregar e integrar a numerosa família.

Meu agradecimento, meu apreço e minha enorme gratidão, sempre. Obrigada por tudo. Feliz dia dos Pais!

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UMA POESIA QUE ROÇA AS FÍMBRIAS DO INDIZÍVEL

                                                                   Sérgio de Castro Pinto                 Fica difícil estabelecer até que...