Solidade Lima

O ESPECTRO DA DÚVIDA

Salomão Sousa

Solidade Lima, com este livro As lâminas do tarô e os 12 trabalhos de Hércules, percorre com os mesmos passos de T. S. Eliot o caminho para o Modernismo, só que num percurso inverso, visando se distanciar do excesso de dissolução e do cansaço de excesso de modernidade. Como o bardo norte-americano naturalizado inglês, vale-se de experiências místicas, do recurso de validar o Simbolismo, da retomada da forma e do verso fixos, da mesma raiz do Tarô, em tons góticos –, sem a preocupação de desconstruir instituições ou rebelar-se contra as idiossincrasias de sua época, mas para afirmação de que todo formato de poesia deve conter alguma participação crítica sobre a presença do homem numa dada realidade. Só que a realidade entranhada na poesia de Solidade Lima não é aquela que explicitamente se mostra enquanto paisagem ou ambiente de ação ou clausura. A realidade por ele arquitetada praticamente se erige com os materiais da poesia clássica, e assim se edificaria se não estivesse despojada do Idealismo.
Numa contemporaneidade em que há o predomínio da poesia de invenção, alcançá-la se faz com maior sucesso pelo meio do Sincretismo e do Surrealismo. Em algumas regiões da América Latina, o Sincretismo é milenar e aí a poesia de invenção melhor se dissemina, pois há maior diversidade de elementos míticos nacionais à disposição do poeta. Destaque específico para o México de Victor Sosa. No entanto, outras ferramentas sempre estiveram disponíveis para o criador. Solidade Lima – independente de sua opção pela forma fixa neste livro, após publicar três outros em verso livre; bem como de elencar sonetos avulsos na terceira parte, compostos em épocas distintas e de temática variada – vem de um Sertão de denso Sincretismo e escava experiências milenares do homem para traçar sua Divinatória – termo insuficiente para cunhar todo o espectro da ação do poeta – do gesto humano de fixar-se no Universo. Vale-se do Tarô, do mito e de diversos outros elementos que possam fazer manar de dentro do indivíduo/criador a melhor experiência metafísica. No entanto, quem quiser interpretar os aspectos dessa fluição para encontrar espectros surrealistas, encontrará dificuldades para assinalá-los, pois não encontrará fragmentação do mundo e muito menos da personalidade do indivíduo na imagética em que os poemas são construídos. 
O Tarô – justamente pela polissemia do embaralhamento para busca dos “quatro caminhos” – é a junção de elementos da experiência da história e da cultura. Talvez por estes quatro caminhos T. S. Eliot tenha chegado aos Quatro quartetos, e, reconhecidamente, abordado a Terra devastada. Cada Carta carrega uma filiação cultural e retrata uma época. Talvez criado para escapismo de religiões monoteístas, pois surgiu num período de total aventura de descobertas como a Cabala e a Alquimia. 
Quando o Tarô se insere na modernidade, serve para busca de interpretação do interior do homem – esse bloco informe sem elementos químicos para composição de solidez, esse Século XV de onde sempre emergirá o domínio da dúvida, que é o fermento para o processo criativo. Por aí passaram Carl Jung e T. S. Eliot, e agora nele aporta Solidade Lima. Descrevendo só as Cartas dos Arcanos Maiores, fica aberto o jogo “na terna eternidade destes átimos”.
Vale-se do Tarô e do mito dos 12 Trabalhos de Hércules como se recorresse a eternos ideogramas chineses para expandir a compreensão de existir e de buscar onde se alocar no tempo, como “se se despisse o mundo da má sorte”. Mas esses elementos são insuficientes para afirmação de que genes surrealistas tenham preponderância na imagética da poesia de Solidade Lima. Ao descrever os Arcanos e os Trabalhos Grande Herói, alguma estranheza obscura seconstrói dentro de cada peça do livro sem que prevaleça o lado volátil da individualidade do poeta. A sua metafísica não é de ebulição do espectro da individualidade.
Como um Bobo da Corte “sorrindo da morte”, inicia seu livro descobrindo que tanto “o Zero ou Vinte e Dois tudo seria”. Num processo de invenção mística ou mítica, o Homem inventa para explicar o que antecipadamente deseja ver esclarecido. Assim, tanto faz o Zero ou o Vinte e Dois, tudo vai dar naquilo a que a está predestinado, mesmo ciente que o 21 estará sempre distante de esclarecer a totalidade. O homem, ao ler no Tarô ou na construção mítica a sua presença no mundo, tanto descreve e organiza a experiência divina quanto nega experiências sincréticas que foram insuficientes para apaziguá-lo em suas buscas. E quem assegura que o poeta quer uma divinização que defina e encerre as incertezas, se a sua atividade é de ampliar o espectro da dúvida? Para cada compreensão posta na mesa pelo poeta, outro elenco de dúvidasse abre.
Tanto na leitura do Tarô como dos trabalhos de Hércules, o poeta não se preocupa em antecipar sua compreensão do mundo, atendo-se mais em deixar que o significado possa ser lido pelo leitor em cada Carta que lhe é posta. Em poucos momentos exalta-se numa conclusão antropológica de seu tempo. Ao ler o mito da Hidra de Lerna, Solidade Lima compara-a ao “Estado que, acorrentando o povo, / constrói outro imenso monstro novo / para devorar, cair logo em seguida”. Pensamento que anda de parelha com Hanna Arendt, para quem o estado totalitário não dura para sempre. Este é o consolo – a hidra tem permanência assegurada só enquanto mito. Tem também o mito do Javali de Erimanto, que serve para lembrar outros assombros modernos: “até hoje assombra / outras casas e gentes com a sombra / dos lascivos dentes da corrupção”. Se não fossem para estas leituras, seria inútil a experiência do mito e seria desnecessário pedir o embaralhamento. Prova de que o criador pode escapar do real, mas a invenção está nele aprisionada como a estátua no corpo da pedra, e de que a leitura nem sempre é a desejada depois que são dispostas as Cartas.
Para chegar à sua invenção – na qual atua com excelência peculiar – Solidade Lima não seguiu a trilha do Barroco, mas da vivência do Simbolismo e do Surrealismo. Também essas raízes melhor se encaixam no sincrético do Tarô e das referências míticas selecionadas pelo poeta. No Soneto do Arcano XIII, esta tendência se manifesta com muita clareza:

“A delícia do sangue me alucina...
Conviva das caveiras e coveiros
devoro, parte a parte, o mundo inteiro
sem a sede saciar dessa chacina,
(...)”

E o soneto segue com outras referências simbólicas, com palavras grafadas em maiúsculas (Foice, Morte, Eu). É até oportuno indagar se vivemos um novo limiar de afirmação do Simbolismo através da experiência gótica da Pós-modernidade, pois seus elementos povoam a literatura, os jogos, a vestimenta e os filmes nesse abrir-se do Século XXI, tão distante do Século XV da invenção do Tarô.
Enfim, não é possível classificar a poesia de Solidade Lima apenas com o uso de um reagente. Há uma polissemia de elementos da tradição da poesia universal neste As lâminas do tarô e os 12 trabalhos de Hércules, que confirma a inventividade de um autor atento à realidade e à fundamentação do conhecimento mítico. É clássico, sem ser classicista. É simbolista, sem denodo de época. É poeta de invenção por atuar em determinada época, pela obrigatoriedade sincrética do território por ele ocupado e pela preferência gótica dos elementos míticos. Pode iludir com a retomada da forma fixa e da historiografia desenhada na antiguidade – no entanto, toda retomada é crítica, pois instiga o criador a uma reaprendizagem e a uma coragem de enfrentamento do que impera na territorialidade de seu tempo. 
Ao longo da segunda metade do Século XX, a poesia se diluiu tanto, criando uma exaustão da experiência da desintegração, que o surgimento de um poeta novo e ágil como Solidade Lima, dominando os seus rudimentos, é alvissareiro para reconstrução da credibilidade da Poesia Brasileira – mesmo que tenha de continuar lidando com elementos de uma realidade que insiste em se realizar com penumbras desfavoráveis, sem nunca abrir perspectivas deconforto para o Homem. Quando fala em manhã, é “a manhã – atômica semente”. Quando toca na estrela, é “a estrela que dança e morre à míngua”. O poeta tem de lidar com o tempo aferrado à esperança de que as mãos podem criar abertura para a claridade. Se é possível adivinhar só através das operações do obscuro, Solidade Lima esculpe numa “força inútil, nula e vã” para sangrar “dos continentes a manhã”:

“(...) os corações
que dessas mãos em tecla esculpem sóis.”

Whisner Fraga

Recebi nesta semana o livro "Moenda dos silêncios", escrito a quatro mãos por Ronaldo Cagiano e Whisner Fraga. O livro é um misto de romance e de crônica biográfica - eu acho, pelo que conheço unilateralmente da Ronaldo Cagiano. Da parte de Whisner Fraga, não sei, pois nunca nos encontramos. O livro perpassa pela trajetória crítica à indiferença cultural da população.
Os dois autores são generosos em suas relações com a literatura brasileira.

Aproveito para registrar aqui a resenha que Whisner Fraga publicou noa folha "Brasília Literária", de novembro de 2002, pela oportunidade do lançamento do meu livro "Estoque de relâmpagos".

A resenha generosa:



À ESPERA DOS TROVÕES
Whisner Fraga

           Há algo nos justos que os faz temerem a condição humana e, mais do que predileção, admiro os autores que enobrecem a própria raça expondo o que de mais atroz existe nela. Salomão Sousa disseca sentimentos em Estoque de relâmpagos.  Já os laços do amor atacam/por todos os flancos/deixando apenas o esmo cheiro de fezes. Entretanto, é próprio dos que descobrem nossa decrepitude, temessem uma punição, representarem um bocado de esperança. Ainda que o mar seja uma rocha/ e no deserto o coração vá navegar/ Ainda assim o faroleiro acenderá.
           E não é de se estranhar que o autor não utilize nenhuma pontuação. Vírgula, ponto? Nada. Tal atitude, a meu ver, vai além da ousadia linguística (que por si só justificaria a opção), tendo raízes mais intrincadas, é que Salomão nos apresenta apenas um de seus depósitos, que não tem início nem fim e, apesar de muito provável tenhamos mais adiante uma outra carga, o que não importa, o poeta quer que visualizemos apenas esse clarão, estivéssemos numa desolada cegueira e precisássemos desse rasgo de luz para enxergarmos a possibilidade de uma verdade.
           Quando surgir o lampejo que nos fará, quem sabe?, mais cientes de nosso estado, Todos sentados no baldrame/ à espera de quem desleitere/ os úberes dos gritos. É urgente a descoberta e por isso o tempo presente em todo o livro, mal damos um passo rumo à outra frase e o encontramos, em sua vigília tácita e ímpia: Estou repetindo com a sede da ampulheta; Para atraso de qualquer prazer; O tempo dura apenas/enquanto a lagarta tece e poderia citar muitos outros casos. E não é um dos grandes desejos do homem domar um relâmpago? Usar essa efeméride em seu favor?
           E nos importa de que material esta luminosidade? De sóis: Ressequido fervor de sol/ e outros ainda dirão que é grito. É um a lua/ que vem tarde para a rua. De fogos: Ardência de fogo nas carnes/ e dirão que é podre a lenha do grito. Importa de onde vem a ajuda? Salomão Sousa nos ensina que não. Ainda assim é o amor à justiça, não é desse antagonismo que é feito o bem e o mal?, Quem escolheu o Mal/ escolheu mal. E também não tem o relâmpago e toda a natureza do que é mais forte uma aura de divino? É só essa força que pode Impedir a tempestade/ para não ser a lasca/ o batente arrancado/ de uma porta. A própria dualidade do homem, a chuva ao mesmo tempo ajuda e desgraça.
           Livro que mereceu o prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001. Conheci dois premiados até agora, os contos reunidos em Dezembro indigesto, de Ronaldo Cagiano, e estas poesias de Salomão Sousa. Que falta faz um selo para lançar para o resto do país essas duas obras!
           E o homem é forte em sua capacidade de resistir, adaptar. Assim, o poeta termina seu livro: Estarão sólidos os nossos punhos/ e não adianta as algemas descerem/ com a rota euforia de suas sarjetas/ Desastre algum nos tingirá de lama.

Brasigóis Felício

Trago para esta ambiência, a crônica do poeta Brasigóis Felício, publicada na revista Bula:

 

O perfume da memória e o ocaso da crítica

publicado em

Nos arrebaldes do Plano Piloto, em Taguatinga, Cidade Satélite, ainda moça brejeira e empoeirada, a mulher pública convida o poeta a fazer amor em um prostíbulo disfarçado em hotel. O literato e jornalista, recém-chegado, com a mala de papelão repleta de clássicos da literatura, tinha outra espécie de amor para dar, embora crendo, como na canção da MPB, que “toda maneira de amor vale a pena/toda maneira de amor valerá”. Assim, dispensou o “favor” amoroso, e agradece, pois vai de encontro a um amor mais geral. Assim proclama seu amor impessoal a seu tempo e à cidade que o acolhia, em seus primeiros vagidos. Saltando uma poça de lama, o poeta seguiu em frente, com suas esperanças e sonhos.
Foi ali o primeiro lugar onde morou, em sua diáspora rumo ao futuro literário. Sonhos que andou cultivando em pastoreio de nuvens, e na leitura dos clássicos, em sua pacata Silvânia. Lugar de sua família, onde aprendeu, com Carlos Drummond de Andrade, ser preciso “tecer um canto/que faço acordar os homens/e adormecer as crianças/”. Queria ter um caso de amor não com uma pessoa, mas com a humanidade (a sua e a de todas as pessoas). O poeta tinha um sonho, e precisava conquistar seu espaço de viver na cidade para onde chegavam brasileiros vindos de todos os lugares.
“Há beleza e dignidade até mesmo nas pequenas redes de hotéis camuflados em prostíbulos”. Assim escreve Salomão Sousa, no belo  texto de abertura de seu livro “Momento crítico”. Poderíamos acrescentar que também há beleza nas áridas paisagens do nordeste semi-árido, onde sobrevive, em miséria social, um povo aguerrido e bravo (como o viu Euclides de Cunha).
Povo sofrido, mas não miserável. E também beleza há na Amazônia, no dito “inferno verde”, e não apenas na via Ápia, como afirmou Joaquim Nabuco, praticando uma diplomacia às avessas, uma vez sabendo-se ser missão dos embaixadores e diplomatas em geral “mentirem honestamente em favor de seus países”, como ironizou Roberto Campos. No caso, Joaquim Nabuco mentiu desonestamente em desfavor do Brasil e de seu povo, que pagavam sua viagem de turismo diplomático. 
Esta é uma das observações de fina ironia, que Salomão Sousa se permitiu fazer, em variados textos desta reunião de seu “Momento Crítico”, em que lemos crônicas de cunho ensaístico, e ensaios vazados em linguagem leve de cronista. Refere-se também o autor a Edgar Morin, que em recomendações para uma prática da educação contemporânea nos dia que a mesma deve fundar-se em quatro pilares: aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer. S.S. assinala, no ensaio “É hora de detonar o egocentrismo”; “O indivíduo, ao pregar excessivamente a importância do Só Eu, contaminou a cultura como obrigação de seguir a política de incentivo ao egocentrismo.

Torqueville, clássico pensador da Democracia já nos dizia, há 170 anos: “Existe um amor à pátria que tem a sua fonte única naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível, que liga o coração do Homem ao lar em que nasceu. Confunde-se este sentimento com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembrança do passado. Aqueles que o experimentam estimam o seu país com o amor que tem pela casa paterna”.
Talvez tenha faltado  amor à pátria ao senhor Joaquim Nabuco, ao valorizar de modo tão enfático a importância universal da Via Ápia, em detrimento das paisagens de sua pátria – coisa que Vinicius de Moraes fez ao contrário, e de modo magistral, em seu belo poema Saudades da minha Pátria.
Quase na mesma linha de Torqueville vai Salomão Sousa, no texto de abertura de seu livro, em que evoca a perdida sensibilidade das pessoas (dos jovens em particular) em relação às flores, e às sensações físicas e emocionais que provocam – sensações que ainda vibram em sua memória, quando se põe a recordar passagens de sua infância e juventude, em Silvânia, cidade onde nasceu: “Quem não adquire memória pessoal das flores não estabelece liames para a compreensão da beleza e sua ligação com a cadeia evolutiva da vida. As flores existem para a sua ligação com a cadeia evolutiva da vida. As flores existem para que a harmonia se construa”.
Eu acrescento: e também para que não nos falte, em nossa trajetória existencial, o esplendor de reverdecer no verde, no deslumbrar-se ante a beleza de dos bichos e plantas, nos cantos de muros de mundo, e nos quintais da fraternura e da inocência: “Ao nos aproximarmos para apanhar água, víamos, do outro lado da bica, a moita de açucenas e corolas vermelhas, com os milhares de pistilos atraindo os marimbondos e as abelhas arapuás. (...) As açucenas ainda alimentam as lembranças, numa manhã sem mãe e sem mulher alguma outra mulher que, durante as viagens, engrandeça  o dia com os nomes de flores, ou com centenas de pistilos novos que possam animar a vida”. 

Há muito a ler e a admirar, a deleitar mesmo, nesta coletânea de textos críticos do poeta e jornalista Salomão Sousa, que há anos reside e trabalha em Brasília. Ali, mesmo tendo que despedaçar as pedras do caminho, ocupou espaços na poesia e na crítica, agradando a muitos, e desgostando a uns poucos, com o ferrão de seu chuço de menino carreiro que foi, sem ter sido.
Grande parte de seus textos reporta-se a livros, personalidades culturais da capital federal – mas não faltam reflexões interessantes sobre a poesia goiana, ou ponderações de grande profundidade e perspicácia, como no longo texto intitulado “Reflexões desconexas sobre comportamento cultural”. Neste texto Salomão Sousa atira em muitas direções, focando os caminhos da poesia brasileira, ou sobre a própria crítica, que deixou de ser um caso para entrar em ocaso. Tão invisível em sua precária existência, que sequer chegou a ser caso de polícia.

Tal ocaso ocorre em face da moderna decadência cultural por que passamos, nesta era cibernética em que tudo é virtual, em segundos se esfuma no ar da evanescente e arrogante modernidade, muitas vezes vazia e sem caminhos. Salomão discute longamente causas e coisas do boom da poesia brasileira, a partir de 1997, passando pela fase em que “ o poema passou a representar respiração apenas para o poeta”. Passa Salomão Sousa à crítica da crítica: “O crítico não quer mais valorizar a obra que está sob seu foco, mas sim aniquilá-la, esquecendo-se que o ato de criticar é paralelo ao de criar”.

Proseando com o poeta

Revi a crônica abaixo, de Luiz de Aquino, no blog penapoesia, e voltei a me emocionar. Passei pra cá:

Salomão Sousa escreveu um belo poema, entre tantos outros belos, sob o título “Dar-se aos pregos e às léguas”. Deliciei-me das fincadas e andanças do vate da histórica cidade de Bonfim (que o mau-gosto de uns poucos, há mais de meio século, transmudou em Silvânia, sem que a bucólica cidade perdesse o encanto). Ele encerrou o poema com essa estrofe:

“...
perder-se para nascer

nas flores e nos olhos da terra
não ser o ferrolho inchado
o caruncho na madeira das íris”

Falei-lhe do meu encanto, e ele retrucou, em mensagem fraternal: “As nossas viagens são as mesmas, com as mesmas íris e o mesmo sol, o mesmo terreiro de chão goiano. O difícil, para nós, é abrir porteiras para fora de nosso rincão. Vamos manter viva a nossa infância, senão perdemos a nossa rebeldia”.


Perdemos, não, poet’irmão! Não a perdemos, pois exercemos essa teimosia de menino birrento, daqueles a quem os castigos da sobremesa não atingem, porque havia os quintais de múltiplas frutas, nem o cerceamento da liberdade por algumas horas, porque os córregos da meninice estavam ali, “de grito” (*); a toxina dos defensivos ainda não exterminara as piabas que colhíamos em anzóis miúdos, em linhas curtas de varas de bambu. Nosso grito de pirralhos embirrados ecoa não no espaço entre paredões, mas na lonjura do tempo que enevoa nossos cabelos e esturrica nossas peles.

E que revéis, somos nós! Crescemos sob o tacão de um regime duro e cruel, mas não esmorecemos; não nos dobramos, como os caniços que nos valiam por varas de pesca, mas não enraizamos tanto que a ventania nos arrancasse do chão benfazejo. Altivos e livres, fechamo-nos por horas em leituras perigosas, mas capazes de nos fazer cidadãos. Cidadãos poetas, porque sem poesia não há liberdade (que o digam Agostinho, de Angola; José Martí, de Cuba; Federico G. Lorca, o espanhol; e Castro Alves, o nosso).

Vimos Godoy Garcia, José Décio Filho, Ieda Schmaltz e Afonso Félix de Sousa a gritar por nossa gente ante o arbítrio; vimos José J. Veiga e Bernardo Elis a prosear coragem na escuridão ante as idéias não permitidas. Deles herdamos a bússola dos inquietos, dos insatisfeitos e insurretos.

Temos sangue, Salomão, para a justiça decantada, sonhada e mal exercida; sangue que tinge nossos solos e põe sal no nosso suor de andarilhos das letras. Deixamos que os dias polvilhem de lembranças nossas almas doces e ingênuas, mas bravas o bastante para não se curvar. Temos as cores das areias da Serra Dourada, o vigor das pastagens na vertente do Piracanjuba e o calor termal da Serra de Caldas, acalentado em serenatas de Pirenópolis e dourado de pôr-do-sol de qualquer paragem Goiás. Comemos pequi e genipapo, ingá e guapeva; bebemos cachaça quilombola; dançamos pagode de roça, dançamos catira e, se deixarem...

Bem, se deixarem, contamos histórias de medo ao fogo do borralho, em noites de chuva. Mas não deixamos, não mesmo, de cantar poesia. Como não se fazer poeta sob o céu deste Planalto do cerrado, siô?

Papangu

Remexendo nos jornais as publicações relacionados à minha poesia, encontrei a crônica de Lívio Oliveira, poeta de Natal, publicada na revista "Papangu", daquela capital, abordando encontro que tivemos em Brasília e registrando a publicação de meu livro "Ruínas ao sol". É um destes momentos religiosos que só os espíritos irmãos possibilitam. Lívio, precisamos nos rencontrar, nem que seja novamente ao acaso da arte. 

Safra Poética de Salomão Sousa

João Carlos Taveira*

Ao reunir a sua produção poética no livro Safra quebrada, Salomão Sousa dá a conhecer o melhor de sua obra e faz registro também de sua trajetória humana nos quase trinta anos de publicação. Seu primeiro livro, A moenda dos dias, é de 1979, e o penúltimo, Ruínas ao sol, de 2006. Os nove livros agora apresentados — foram incluídos dois inéditos — fornecem material suficiente para que se conheçam as trilhas percorridas pelo autor, e se acompanhe a evolução de seu modus faciendi até o atingimento de uma dicção muito pessoal.
Safra quebrada, que veio a lume graças ao apoio do FAC (Fundo da Arte e da Cultura) da Secretaria de Estado de Cultura do GDF, dá a dimensão humana e artística de quem soube amadurecer sem pressa e, ao mesmo tempo, manter-se consciente de cada etapa de sua carreira de escritor. Trata-se de livro bem cuidado graficamente, ilustrado com magníficas fotografias de Robson Corrêa de Araújo, e muito bem urdido do ponto de vista das escolhas pessoais do autor. É de fato uma antologia que reflete o melhor de sua produção. O material selecionado dá testemunho das crises histórico-sociais do período, sem prejuízo da unidade lirico-ideológica do autor de O susto de viver.
Salomão Sousa é um poeta moderno em estado puro, na sua exaustiva utilização do real, seja do tempo presente, seja dos fragmentos da memória. Intelectual consciente, ele sabe enriquecer essa veia com uma crítica mordaz das mazelas humanas e do contexto social em que está inserido. Sua poesia se alimenta, por vezes, dessa cosmovisão para fundar uma solidez estrutural muito próxima da estética pós-moderna, com suas vanguardas posteriores. Sua estética é construída mais de impulsos fragmentados do que de uma forma fixa preestabelecida, como acontece nas escolas romântica, simbolista e parnasiana. Seu verso é livre e geralmente curto, as frases raramente se completam, a pontuação nem sempre está presente, e as estrofes não têm compromisso com a uniformidade. Outra característica da poesia mais recente de Salomão Sousa é a ausência de títulos nos poemas. Quem não acompanhou a trajetória deste poeta, julga-o sempre jovem, pois ele se insere no contexto do tempo presente. E tem plena consciência de seu ofício. Quanto a isso, ele lembra o aval do poeta José Godoy Garcia, que, no último encontro que tiveram, quando dialogavam sobre o processo de criação, disse-lhe: “Ah! Você certamente sabe o que quer”.
O leitor que aceitar o convite para conhecer Safra quebrada, pode estar certo de uma coisa: a originalidade dessa poesia! Desde sua estréia em livro, Salomão Sousa vem se dedicando com fidelidade e afinco a uma vertente pessoal inconfundível, construindo sempre uma dicção nova para sua voz, na busca de uma expressão artística que o integre, ad infinitum, ao intrincado universo das palavras.
Agora, com a publicação da obra reunida, Salomão Sousa dá seu contributo de peso ao cenário da moderna poesia brasileira. Para conhecer a importância de sua poesia — além da leitura dos poemas —, vale consultar os artigos de Ronaldo Costa Fernandes e Ronaldo Cagiano que estão no apêndice do volume.
* É poeta, com vários livros publicados.

Texto da página Nós Fora dos Eixos.

A POESIA DE SALOMÃO SOUSA

Geraldo Lima

Nascido em Silvânia, GO, em 1952, Salomão Sousa reside em Brasília desde 1971, onde exerce a profissão de jornalista. Já publicou vários livros de poesia, entre eles A moenda dos dias/O susto de viver (Ed. Civilização Brasileira, 1980); Criação de lodo, 1993, DF; Estoque de relâmpagos (Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, 2002, DF); Ruínas ao Sol (Prêmio Goyaz de Poesia, Editora 7 Letras, 2006) etc.
A poesia de Salomão Sousa, no livro Ruínas ao Sol, que apresento aqui, é marcada pelo rigor formal e pelo lirismo intenso. Desse modo, a carga racional que o poeta despende na elaboração dos poemas não esvazia a tensão do discurso que expõe as fraturas do ser. Ao contrário, amplia-a. Embora a presença da morte e de outros elementos negativos seja constante nesses poemas, o eu lírico não cessa de apontar para um futuro de vitórias: “as carnes prontas para a paz e a vitória/Para trás as esterqueiras da incerteza/e as ameaças das quadras da secura” (pág. 14). Como bem assinalou o poeta Ronaldo Costa Fernandes, “... Ruínas ao sol é um livro em que a visão otimista se sobrepõe à visão derrotista”.
Outro elemento a se destacar nesses poemas de Ruínas ao Sol é a presença de imagens que nos remetem ao ambiente rural, interiorano, criando um clima de bucolismo. Mas não há nisso traço algum de provincianismo ou conservadorismo. A poesia de Salomão Sousa mescla o tom elevado, de extremo refinamento estético, com elementos prosaicos, cotidianos, como em “Não morram os gomos/no desalinho do chavascal/Venha o casco de uma mula/a boca de uma lebre” (pág. 47). E é nisso que está contida a sua modernidade.

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UMA POESIA QUE ROÇA AS FÍMBRIAS DO INDIZÍVEL

                                                                   Sérgio de Castro Pinto                 Fica difícil estabelecer até que...