João Carlos Taveira*
Ao reunir a sua produção poética no livro Safra quebrada,
Salomão Sousa dá a conhecer o melhor de sua obra e faz registro também
de sua trajetória humana nos quase trinta anos de publicação. Seu
primeiro livro, A moenda dos dias, é de 1979, e o penúltimo,
Ruínas ao sol, de 2006. Os nove livros agora apresentados — foram
incluídos dois inéditos — fornecem material suficiente para que se
conheçam as trilhas percorridas pelo autor, e se acompanhe a evolução de
seu modus faciendi até o atingimento de uma dicção muito pessoal.
Safra quebrada,
que veio a lume graças ao apoio do FAC (Fundo da Arte e da Cultura) da
Secretaria de Estado de Cultura do GDF, dá a dimensão humana e artística
de quem soube amadurecer sem pressa e, ao mesmo tempo, manter-se
consciente de cada etapa de sua carreira de escritor. Trata-se de livro
bem cuidado graficamente, ilustrado com magníficas fotografias de Robson
Corrêa de Araújo, e muito bem urdido do ponto de vista das escolhas
pessoais do autor. É de fato uma antologia que reflete o melhor de sua
produção. O material selecionado dá testemunho das crises
histórico-sociais do período, sem prejuízo da unidade lirico-ideológica
do autor de O susto de viver.
Salomão
Sousa é um poeta moderno em estado puro, na sua exaustiva utilização do
real, seja do tempo presente, seja dos fragmentos da memória.
Intelectual consciente, ele sabe enriquecer essa veia com uma crítica
mordaz das mazelas humanas e do contexto social em que está inserido.
Sua poesia se alimenta, por vezes, dessa cosmovisão para fundar uma
solidez estrutural muito próxima da estética pós-moderna, com suas
vanguardas posteriores. Sua estética é construída mais de impulsos
fragmentados do que de uma forma fixa preestabelecida, como acontece nas
escolas romântica, simbolista e parnasiana. Seu verso é livre e
geralmente curto, as frases raramente se completam, a pontuação nem
sempre está presente, e as estrofes não têm compromisso com a
uniformidade. Outra característica da poesia mais recente de Salomão
Sousa é a ausência de títulos nos poemas. Quem não acompanhou a
trajetória deste poeta, julga-o sempre jovem, pois ele se insere no
contexto do tempo presente. E tem plena consciência de seu ofício.
Quanto a isso, ele lembra o aval do poeta José Godoy Garcia, que, no
último encontro que tiveram, quando dialogavam sobre o processo de
criação, disse-lhe: “Ah! Você certamente sabe o que quer”.
O leitor que aceitar o convite para conhecer Safra quebrada,
pode estar certo de uma coisa: a originalidade dessa poesia! Desde sua
estréia em livro, Salomão Sousa vem se dedicando com fidelidade e afinco
a uma vertente pessoal inconfundível, construindo sempre uma dicção
nova para sua voz, na busca de uma expressão artística que o integre, ad infinitum, ao intrincado universo das palavras.
Agora,
com a publicação da obra reunida, Salomão Sousa dá seu contributo de
peso ao cenário da moderna poesia brasileira. Para conhecer a
importância de sua poesia — além da leitura dos poemas —, vale consultar
os artigos de Ronaldo Costa Fernandes e Ronaldo Cagiano que estão no
apêndice do volume.
* É poeta, com vários livros publicados.
Texto da página Nós Fora dos Eixos.
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