Resenha de Sérgio de Castro Pinto

Quantas coisas Salomão Sousa diz nos seus poemas que, para os leitores neófitos, noviços, não dizem absolutamente nada! No entanto, quanta coisa com coisa o eu lírico diz! Primeiro, porque penetra surdamente no reino das palavras e, contrariando a receita drummondiana, faz versos sobre acontecimentos. Mas acontecimentos que fogem dos lugares- -comuns, da relação causa e efeito, da lógica cartesiana, para erigirem admiráveis mundos novos. 
A poesia de Salomão Sousa é uma poesia à parte, marginal, no sentido de nadar contra a maré da mesmice que, infelizmente, ainda grassa e prepondera na lírica brasileira contemporânea. A de Salomão pede, reivindica e até mesmo exige um leitor novo, afeito a descortinar um mundo que se cumpra através das palavras que não se veem obrigadas a rimar a palavra sono com a sua incorrespondente palavra outono, para me valer mais uma vez do poeta de Itabira. Quem conceituou muito bem a poesia de Salomão foi o crítico e poeta Miguel Sanches Neto: “(...) os poemas trazem uma densidade de linguagem própria de quem percebe a realidade como fato de linguagem. (...) A realidade nunca vence a sua poesia, pois a linguagem é mais forte, conduzindo o leitor a espaços inusitados por meio de metáforas”. 
A propósito, em resenha que escrevi a respeito de Desmanche (Gráfica Serafim, Brasília, 2018), de Salomão, acrescentei: “A linguagem, então, converte-se num mundo todo particular do eu-lírico, de onde ele extrai imagens insólitas, imponderáveis, sobretudo quando rejeita a mimese enquanto imitação pura e simples da realidade objetiva”. 
O bom prefácio de Certezas para as Madressilvas (Edição do autor, 2024) é da poeta e escritora Sônia Elizabeth, para quem a poesia de Salomão “(...) é um oceano de procuras e achados, descobertas, constatações”. A capa do livro e a linoliogravura da capa são, respectivamente, de Davi Bento e de Beto Nascimento, competentes artistas plásticos. 

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Simultaneamente ao livro Certezas para as Madressilvas, Salomão Sousa lançou Poesia e alteridade (Edição do autor, 2024), que reúne, entre outros, ensaios sobre Anderson Braga Horta, Alexandre Pilati e Guimarães Rosa. O ensaio de abertura do livro, “A Compreensão da poesia”, é bastante elucidativo a propósito não só dos poetas sobre os quais Salomão discorre como também a respeito de sua própria poesia, pois a exegese da obra de outros poetas, de outros autores, fornece pistas necessárias para um melhor entendimento da elaboração de sua obra. Senão, vejamos: “Não é o autor que tem de reduzir a complexidade do estilo ou abolir os vocábulos desconhecidos do leitor para unificar a compreensão do texto. A incompreensão de um poema não nasce em sua composição. O poema “Ítaca”, de Konstantinos Kaváfis, será bem menos assimilado por aquele que nunca leu a Odisseia, de Homero”. E mais adiante: “Quanto menos lê poesia, quanto menos a identifica nos textos, mais ignorante o indivíduo se torna. Quanto mais transita sem se integrar à realidade, sem aprendizagem de sua nominação e se nega a interagir com o diferente, mais o ignorante (aquele que não sabe) aprofunda a incapacidade de decodificar um texto”. Mesmo vazados poeticamente, alguns ensaios de Poesia e Alteridade, além de não tangenciarem a obra objeto da análise, tornam a leitura mais prazerosa, pelo menos para aqueles que sabem interagir e conviver com os contrários. Daí a lírica de Salomão Sousa também primar pela alteridade, pela diferença, atributos que reivindicam leitores, poetas e críticos que saibam se outrar, que não vivam na contemplação narcísica do próprio umbigo. 
As orelhas do livro são assinadas por Alessandro Eloy Braga e Luiz Paulo Santana. A capa é de Carlos Alberto. E Félix Volloton (1865-1925) é o responsável pelo desenho da capa e gravura das folhas de guarda.

Texto de Gardênia Holanda Maciel

Certa vez pedi à Gardênia Holanda Maciel para escrever um posfácio para um livro de poesia que estava preparando. O livro nunca saiu e o texto dela ficou pedido entre minhas coisas. Eis o texto, de uma jovem amante total da poesia:

Debatemos muita realidade nacional, com destaque para a poesia. Segue o texto dela: Quais serão as dúvidas de Orfeu, se não as minhas, as do meu vizinho, as do meu patrão, as do meu amante imaginário? Quais serão as dúvidas de Orfeu, jovem, ávido por um amor inteiro, completo e ao mesmo tempo insano... Orfeu que de tanto amar não dominou o amor e perdeu! Como perco eu, como perde você, como perde Salomão, também o rei! Diante do convite de Salomão Sousa (agora o escritor) para escrever este Pósfácio, talvez eu tenha me perdido voltado os olhos com minha profunda curiosidade sobre a poesia e acabei por tornar o superficial conhecimento em um fino fantasma ou em uma estátua de sal (como queiram) e, petrificada fiquei ao ler os escritos de “Dúvidas de Orfeu”. Não tenho, portanto, que opinar, diante de minha própria imagem no espelho e que, ao me ver, vejo-me comum, igual, normal e corriqueira como quem “fala de uma cortina rasgada ou dos telefonema que não informam”... Como alguém que ama exageradamente e “chega a atravessar toda a lama, o corpo em sessões e prazer”... Ou, por fim, alguém sobrenatural que chega a ser digital, “dispensado das pregas, das indecências das impinges”... Que poesia é essa? (Eis mais uma dúvida de Orfeu?). Certa vez li um texto atribuído a Carlos Drummond de Andrade que me fez refletir, eis um trecho: “... Entendo que poesia é negocio de grande responsabilidade e não considero honesto rotular-se poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam e um poeta desarmado é mesmo um ser a mercê de inspirações fáceis, dócil a modas e compromissos...” É um texto forte e conciso, a partir do dia que o li tentei mergulhar mais na poesia e não me deixar levar por inspirações momentâneas. A escrita de Salomão Sousa mostra o resultado disso, mostra que ele faz disso um trabalho e não mera inspiração... Mas, caio em contradição e penso: afinal, trabalho não é inspiração? O trabalho não inspira? Afinal de contas porque separamos o trabalho do prazer? (Eis outras dúvidas de Orfeu...). Rodas contemporâneas de poetas questionam quem são os verdadeiros, quem são os aceitos e quem são os grandes garimpeiros das palavras, das cadências, das rimas, das métricas. Há quem julgue, há quem defenda, há quem classifique, há os que buscam marcos separatista para poder rotular! Elos perdidos de nossa mania ocidental de classificar em busca de uma identidade temporal. Não sou purista, não sou integrada ou muito menos caótica, mas acho que poesia é uma mistura de tudo isso: trabalho, inspiração, lazer, prazer, desejo, carregar pedra, mergulho em dores pessoais, engenharia, métrica, amor... Consegui detectar em “Dúvidas de Orfeu” todas elas, mesmo que Salomão negue... Mesmo que neguemos, toda escrita é um pouco de nós e um tudo de nossa história. Toda escrita, mesmo que trabalhada, é fruto de nossas prioridades, de nossas crenças, de nossas ciências, de nosso tempo, de nossa política. Mesmo o trabalhador mais atento, que se dedique com afinco e não se deixa roubar por saídas momentâneas da realidade, estará revelando suas emoções por trás das suas palavras medidas e comedidas. E fica a dúvida, eterna... Mesmo que a gente negue, querido Orfeu!

Por Jacqueline Assunção Soares, minha afilhada


Hoje quero fazer um agradecimento a duas pessoas muitos importantes em minha vida: meus queridos Padrinhos. A escolha da data para fazer esse agradecimento, embora comercial, não é coincidência, ela diz muito sobre a enorme importância que tem essas duas pessoas incríveis, que permitiram que eu fizesse parte de suas vidas.

Foi uma enorme sorte meu Padrinho ter aceito o pedido de minha mãe para batizar-me, apesar de acreditar que não teria sido muito difícil de ele aceitar, já que se trata de uma pessoa super bacana. E foi ainda mais sorte a minha Madrinha ter embarcado nessa ideia e também ter aceito batizar uma desconhecida, rsrs... O fato é que sou e sempre fui grata pelo que os dois fizeram por mim. Os dois foram extremamente bondosos, generosos e corajosos de ter abrigado uma criatura que não fazia parte da família, totalmente diferente da cultura e do modo de viver deles. É preciso muita bondade, generosidade e sensibilidade para inserir o outro, o diferente, em seu convívio e no de sua família. Admiro-os ainda mais por isso...

Meu Padrinho, extremamente bondoso e sensível às dificuldades sociais (sempre atento às questões sociais), percebeu que minha mãe passava por dificuldades para criar os quatro filhos sozinha, e resolveu ajudá-la ao me convidar a ir morar com sua família. Penso, nunca conversei com eles sobre isso, que minha mãe, quando foi fazer um tratamento de úlcera no hospital de base (minha madrinha trabalhava lá) e lá reencontrou minha madrinha, comentou com ela que estava passando por sérias dificuldades, e minha madrinha deve ter comentando com meu padrinho sobre a situação, que tomou essa decisão.

O que lembro, depois de minha mãe ter contado que havia reencontrado minha madrinha, é que um homem alto, loiro, bem vestido, num carro preto, foi ter uma conversa com minha mãe e entregar uma cesta básica natalina (e que cesta, minha gente! Nunca tínhamos visto nada igual) para ela... Não recebíamos visitas. Morávamos num quartinho nos fundos de uma casa, e a dona da casa foi chamar minha mãe, que foi receber o rapaz no portão. Eu e meus irmãos ficamos curiosos, devido à surpresa de alguém nos fazer uma visita, mas minha não permitiu que fôssemos com ela até o portão. Então eu e minha irmã Lucília fomos escondidas “curiar” a conversa que ocorria no portão, curvadas no beco da casa, na noite daquele dia. Lembro da figura desse rapaz: alto, alegre e simpático. Como minha mãe não tinha o hábito de conversar muito, nos disse o essencial: que meu padrinho estava me convidando para ir morar um tempo com eles. O que fiquei extremamente feliz. E assim meu padrinho ajudou minha mãe a aliviar um pouco mais as dificuldades que passávamos.

Minha gratidão já seria enorme só por essa atitude de generosidade. Mas abarca tudo o que eles acrescentaram em minha vida.

Meu padrinho me possibilitou descobrir um outro mundo, que a minha realidade não me permitia ter. Éramos muito pobres, e a nossa realidade de moradores da periferia era bastante diferente... Na casa de meu padrinho, pude descobrir o que era ter um quarto, ter sala, copa, banheiro com chuveiro, pia, espelho, descarga... Mas muito mais se descortinou na vida da garota pobre de 10 anos, moradora da Ceilândia. Foi com meu padrinho que descobri o cinema, o shopping (acessível somente a quem possuía poder aquisitivo) o Mc’Donalds (sim, minha gente, era o suprassumo da época, eram filas enormes). Meu padrinho nos levava para passear (os filhos dele e eu) fins de semana, e eu desfrutava de toda essa maravilha, que é para uma criança. Os passeios em família ao clube, as visitas às casas dos amigos. Desfrutei da companhia da querida Ivonice, com quem dividi muitos momentos especiais. A casa de meus padrinhos era um ambiente de liberdade, abertura, convivência harmoniosa e sem conflito. Foi um período de descobertas e aprendizados.

E meu padrinho continuou presente e contribuindo mesmo na minha vida adulta... Lembro que na adolescência, já não mais morando com eles, meu padrinho me presentou com uma coleção de livros clássicos da literatura brasileira. Confesso que só li dois deles. Um livro que ele me deu e me marcou profundamente, já no finzinho de minha adolescência, aos dezoito, e já grávida de minha filha, mas sem que soubessem do fato, rs, foi um livro sobre uma chinesa que sai de casa para fugir dos rigores da educação chinesa, e que acaba tendo de se prostituir. Esse livro foi marcante, porque descreve as agruras que ela teve de passar, então foi um construtor de caráter. E meu padrinho nunca deixou de insistir no meu desenvolvimento pessoal. Livros importantes ele me deu, e me dá até hoje, acredito que para alargar meus conhecimentos... conhecer outras formas de vida, outros pensamentos, e, consequentemente, diminuir minha ignorância, minhas limitações, e, assim, ter outras possibilidades. Foram inúmeros os passeios às livrarias, ao cinema... Muitas sessões de filmes em sua casa, agregando conhecimento... lembro em especial quando ele colocou um filme italiano sobre a amizade quando fui visitá-lo junto com Camila e a amiga dela Sara, teceu comentários extraordinários. O mais incrível de tudo isso é que ele não ofertou tudo isso apenas à minha pessoa, ele também o fez por outros que aportaram em sua casa, e até mesmo os de fora, sempre contribuindo com crescimento pessoal de outros.

A casa de meus padrinhos me possibilitou o conhecimento de um outro mundo... sempre me possibilitou o contato com o novo. Tudo de moderno e atual estava lá... filmes, músicas, livros infinitos... Como um bom jornalista que é, meu padrinho estava sempre acompanhado das novidades, e sempre contribuindo para enriquecer o repertório de quem por lá chegasse. Lá descobria-se desde o jazz, a música erudita, o blues, a bossa, a música popular brasileira, até os cantores novos, como Lauryn Hill... nunca me esqueço de chegar na casa de meus padrinhos e ver o DVD dela na tela da televisão, foi paixão à primeira vista, isso nos idos de 2002. Sua casa estava sempre aberta com a presença de familiares, poetas, escritores, músicos que iam atrás das últimas novidades, porque o meu padrinho já tinha disponível... Enfim, era uma casa fervilhante e que proporcionou momentos enriquecedores a muitos... sempre uma casa convidativa, sempre cheia de parentes, amigos e afilhados. Pude desfrutar da deliciosa companhia dos amigos e parentes de meus padrinhos, que adoram receber visitas e os recebem muito bem.

Então só tenho a agradecer aos meus queridos padrinhos, que têm uma importância muito grande em minha vida. Agradeço imensamente o que fizeram, sou grata pelo desprendimento e por tudo que me ofereceram. Nunca conseguirei pagar o que fizeram por mim.

E neste dia simbólico do dia dos pais, quero agradecer a meu padrinho em especial, que representou e representa a figura de um pai que não tive, com seus incríveis ensinamentos, postura de caráter, uma pessoa cordial que sempre buscou tratar o outro com cordialidade e respeito, com ética e moral, resolver os problemas da vida da melhor maneira possível, sempre se pautando pelo diálogo. Pessoa de incrível tolerância que sempre procurou tratar o próximo com cordialidade e respeito, sem distinção de pessoas e julgamentos, aberto à assimilação de outras culturas, aceitação do outro.

Muita gratidão pelos valorosos momentos de conversas de aconselhamentos, por mostrar a beleza da vida, mesmo nas dificuldades, mostrando que é melhor viver com leveza, pelos momentos preciosos de compartilhamento de informações, conhecimentos... Tenho na pessoa dele a referência de caráter, integridade, além de alegria e humor natos, meu padrinho tem um grande senso de humor que o faz ser uma pessoa leve e agradável que queremos estar sempre junto dele. É a pessoa que faz almoços para agregar e integrar a numerosa família.

Meu agradecimento, meu apreço e minha enorme gratidão, sempre. Obrigada por tudo. Feliz dia dos Pais!

A tirania dos algoritimos


Marcos Fabrício Lopes da Silva*


A expressão “qualidade em educação”, no marco dos sistemas educacionais, admite uma variedade de interpretações dependendo da concepção que se tenha sobre o que esses sistemas devem proporcionar à sociedade. Uma educação de qualidade pode significar tanto aquela que possibilita o domínio eficaz dos conteúdos previstos nos planos curriculares; como aquela que possibilita a aquisição de uma cultura científica ou literária; ou aquela que desenvolve a máxima capacidade técnica para servir ao sistema produtivo; ou, ainda, aquela que promove o espírito crítico e fortalece o compromisso para transformar a realidade social, por exemplo. Por outro lado, a expressão “qualidade educacional” tem sido utilizada para referenciar a eficiência, a eficácia, a efetividade e a relevância do setor educacional, e, na maioria das vezes, dos sistemas educacionais e de suas instituições. 

Sendo um tema abrangente em sentidos, destacar-se-ão duas vias que têm orientado a discussão acerca da qualidade da educação. A primeira está voltada para a qualidade do conteúdo da escolarização, e a segunda para a elevação de múltiplos fatores que implicariam uma melhor dinâmica da educação na sociedade como um todo. No enfrentamento dos problemas educacionais, em busca da melhoria da qualidade, são raras as situações em que a escola tem sido considerada a unidade fundamental na relação entre as diversas instâncias do poder público e a rede de ensino. Concebe-se a qualidade da educação como o alcance do desenvolvimento esperado do processo educativo, havendo maior qualidade na escola que cumpre sua função de socialização de conhecimentos, ampliação da cultura e aprimoramento da formação crítica. A educação de qualidade, nessa visão, estaria ligada ao alcance da emancipação dos sujeitos no sentido de aprimorarem a reflexão crítica e contribuírem na transformação para uma sociedade que supere as desigualdades.

Dentro de 10 a 20 anos, cerca de 90% das ocupações que temos hoje vão ser substituídas por robôs ou máquinas. Já está ocorrendo com força na medicina, na engenharia, na construção mecânica. Certamente, a instrução, em determinados assuntos e disciplinas, pode ser satisfatoriamente substituída por máquinas. Educação não é simplesmente passar informação. O mais pobre dos computadores faz isso melhor que o melhor dos professores. Um leitor competente é aquele capaz de ler além do que está escrito, ele lê as entrelinhas, além de fazer relações com outros textos lidos e ser capaz de falar sobre eles sem desmerecer a importância de discernir um fato de uma opinião. Acredito que formar esse sujeito é uma das entregas mais valiosas da escola. A cada dia percebemos a necessidade de termos (e sermos) bons leitores. 

Não à toa, segundo o professor Muniz Sodré, autor do livro A sociedade incivil: mídia, liberalismo e finanças (2021), está reservado um outro lugar à educação, a saber: “a formação cívica, ao mesmo tempo psicológica e ética. [...] A educação é um nome da transformação de um processo radical de iniciação. [...] Iniciação é como uma conversão ou um batismo: a entrada numa câmara-portal e o renascimento do indivíduo para a vida social e coletiva. A iniciação é pessoal – ela precisa de gente – e é libidinal. Não consigo conceber uma educação que não tenha uma reinterpretação do laço libidinal entre pais e filhos, filhos e pais”. 

Enquanto as pessoas entram numa faculdade para ter uma profissão e arrumar emprego, o próprio trabalho está sendo velozmente desvalorizado pelo advento das máquinas e robôs. “Não acho que a educação esteja estruturalmente acoplada ao trabalho. Ela está acoplada à formação psicológica, ética, propriamente humana”, defende Sodré. Mesmo num mundo regido por algoritmos, há uma virada afetiva na relação do saber com o indivíduo e seu corpo, com o orgânico, com as interações que o saber promove. O empenho histórico das ciências é entender e produzir grandes ideias sobre as transformações do mundo. É preciso voltar a pensar. A televisão brasileira levou 50 anos para habituar o povo à banalidade, à vulgaridade e ao grotesco. Isso é complementado hoje pelas redes sociais. Individualmente a internet é boa, claro. Do ponto de vista público e social, elas são uma tragédia.

Como bem assevera o jornalista e escritor Salomão Sousa, em Bifurcações (2022): “por mais que os algoritmos coletem informações sobre as atividades dos internautas, esses dados são insuficientes ou falsos para traçar um indicativo real do comportamento social e da personalidade do indivíduo. Aquilo que escondemos de nós mesmos e do público nós não enviamos para a rede. Manipulamos nossas fotografias e aspectos de nossa personalidade para apresentação de uma imagem que possibilite o aumento de nossa credibilidade dentro do grupo ao qual pertencemos e mantemos aliança, independente do quanto maléfico possa ser o seu comportamento. Vivemos em bolhas grupais, com menosprezo a todos que estiverem fora delas, sejam eles crianças, parentes, idosos e autoridades. O que temos de pior guardamos a sete chaves em nosso inconsciente”. 

Um olhar mais detido sobre a tirania dos algoritmos pode ajudar a entender melhor os motivos pelos quais ainda continuamos reproduzindo comportamentos discriminatórios. Nesse contexto, uma tradição autoritária se agiganta com a proliferação de “indivíduos bombas”, adverte Salomão Sousa. É necessário, portanto, que não naturalizemos os golpes cotidianos da tecnocracia. 


* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários 

Sônia Elizabeth

 Salomão Sousa,  poeta incrível, de linguagem rara, preciosa, sem facilidades, sem comodismos. Mais uma vez usufrui o prazer de ler uma obra desse autor tão apaixonado pela poesia, a ponto de desnudá-la com carinho, competência e altruísmo. Seu verbo, embora soe cru, áspero (aos menos avisados) é de uma simbologia e força que merece todos os nossos aplausos e reconhecimentos. E digo, sem pestanejar: é um dos poetas que mais gosto de ler no meu cotidiano. Em anotação de papel colocada no inicio do livro, avulsa, Salomão já nos adverte (e isso constatamos na leitura de cada poema) que “Trata-se do meu livro mais pessoal, mais íntimo dos percursos de minha vida. Os poemas recuperam traços da memória e das observações instantâneas do que emergia à beira de minhas ocupações. O que me apodrece é o que me recupera, é o que salva a lembrança...” Penso que o poeta em evidência deve habitar bem próximo do meio ambiente, matas etc já que sempre em suas postagens refere-se aos pequenos insetos que adentram sua casa, como hospedeiros, já no fim da existência, assim como caminha fotografando tudo aquilo que é belo e pequeno na Mãe Natureza, o que passa muitas vezes desapercebido aos olhos humanos que não enxergam a essência das coisas. Ou seja, Salomão Sousa é uma espécie de Manoel de Barros nas searas de Goiás.


Encontro uma “ressaca de mundos” no poema Biografia do natimorto, assim como curvo-me diante da constatação de misérias e morticínios em Biografia do jirau em dois tempos, embevecida com versos desse nível: “...O inseto não é insone e para eclodir o parasita sabe quando./Sabe quando há água e quando há sangue./A criança é uma vitória contra o aborto...”(pg.18). E surto, no bom sentido, claro, com tão rica retórica: “...Um homem/não é um prego para estar quieto/fixo num tarugo, para deteriorar/na ferrugem...” (Biografia do quarto seguida de algumas adjacências -pg.20).  E, com sapiência, nos diz: “...Quem arrasta a estrada para o lodaçal/não inventa outros jeitos de sair do charco...”(Biografia da estrada – pg. 27). E deslinda o corpo, essa geografia marítima que temos como invólucro: “Pertence ao corpo mover-se sob/nossos pensamentos, ordens que lhe atribuímos/sem consultar a fruição do sangue...”(Biografia do corpo – pg. 30). Uma verdadeira obra prima, leitores, o poema Biografia da bacia antes de ser floreira (pg. 34), bem escrito, coordenado, inspirado e suado. Os poemas de Salomão Sousa trazem aconchego, passado, vida vivida e relembrada, remontando presenças, pretéritos. Salomão não é o viajante pleno, estrangeiro, mas canta sua aldeia colocando nela todo o universo. Isso é bonito, salutar. Gosto disso. Tudo que disse está,  por exemplo, em Biografia da travessia do arco-íris(pg.38), belíssimo, assim como na  singeleza objetiva de Biografia do balcão, onde é sentimento: “...Quem limpa o balcão aprende o que é a janela,/o que são os seios a repousarem no peitoril...”(pg.39). Como não destacar a grandiosidade de um poema como A Biografia de Jeroni (pg.49), assim como a Biografia da avó índia: “...Ter uma avó índia/é ter um corpo ao qual assemelhar-se/e também mãos a encher uma despensa...”(pg. 53). Louvo a Biografia da cidade visível (pg.55), e descubro a impotência humana diante da grandeza da natureza, assim: “...A romãzeira enfia um galho ao solo/ e desse caule se renasce./ E não consigo esse reverdecer;/essa sucessão de frutos...”( pg.60). E a pepita de ouro em forma de verso: “...A flor não dispara o projétil.”(Biografia das parcelas – pg. 82). Isso de ir contra a maré, de ser sublime, humanamente racional na racionalidade de ser humano: “...Quem incendeia pode estar contrariado/com nosso facho/nossa aceitação do pássaro...” (Intervalo para o encaixe – pg. 96).

Como o heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa, Salomão Sousa ama a natureza e todos os seus elementos, mas sabendo que ela é o que é e o que podemos ver dela, sem invenções ou romantismos demasiados. É irmão das plantas, dos insetos, mas no simbolismo deles, nas estruturas, veias, sangues, dejetos, existência, enfim. Nada quer mudar e nem idealizar. Muitíssimo válido. A arte da capa, de Carlos Alberto, tem uma velha ferradura no meio de uma espécie de lixo ou amontoados de coisas inúteis (úteis). A orelha tem assinatura de Alexandra Vieira de Almeida e Wil Prado. Uma boa fortuna crítica no final e selo da Gráfica Serafim. Reitero que Salomão Sousa é um dos grandes poetas que leio e releio. E a cada releitura novas descobertas. Nada engessado por aqui.

Sônia Elizabeth (poeta e prosadora)

Nota de Ricardo Alfaya

Oi, Salomão,


Chegou hoje à tarde seu Vagem de Vidro.  É uma obra densa, complexa, de estrutura singular.  Um livro de poesia de fato diferente.  Vc realiza uma colagem de textos e imagens numa velocidade vertiginosa, explorando inúmeros efeitos surrealistas, a começar pelo título; a quebra ou mesmo eliminação da pontuação formal acarreta por vezes a sensação de estarmos diante de um hipertexto – por sinal, a influência da Internet no seu fazer literário se evidencia em vários momentos.  Alguns poemas marcaram-me mais, como o que fala em Ulisses.  Destaco também “E se todos nós  decidíssemos pela ausência?” -  Esse poema, aliás, caracteriza uma das tendências que percebi em seu estilo: a criação de uma espécie de universo à parte, totalmente feito de palavras (signos), em que tudo é possível.  Algum dos seus apreciadores notou, com propriedade, a presença de um tom um tanto solene, grandioso, em seu discurso; por exemplo, no poema que começa por “A palavra definitiva”, há algo de bíblico no discurso; e aquela história de “corpo que repartes” evoca a passagem bíblica mais conhecida do antigo Salomão – só que, no seu poema, quem entra em cena é Prometeu; a parte do corpo a sacrificar não é o filho, mas o heroico fígado.  Enfim, é uma poesia personalíssima, muito instigante.  Difícil pretender esgotar a riqueza de seus significados e possibilidades com um único e breve comentário.  Porém, fica aqui o registro, não apenas do recebimento do livro, mas também do prazer que essa primeira leitura me proporcionou.  Parabéns.


Um grande abc,


Ricardo Alfaya

Resenha de Gerson Valle

O poeta Salomão Sousa é um dos marcos literários da capital federal. Sua poesia possui uma originalidade marcante. Neste ano em que se comemoram 100 anos da Semana de Arte Moderna, que quebrou os cânones do então parnasianismo, Salomão Sousa merece um exame melhor de sua obra, quando se constata a liberdade do verso encaminhá-lo ao mesmo tempo que para metáforas e outras figuras como para a narrativa ou reflexão mais encontradiças na prosa. Mas, que nele ganham a graça de uma espontaneidade que traz em si o diferencial poético numa forma em nada tradicional. 

Neste ano de 2022, Salomão Sousa publicou um livro em que apresenta sua redação caminhante para várias direções entre a poesia e a prosa, “Bifurcações – memória, resistência e leitura”, Baú do Autor, Brasília. Há poemas em várias páginas, como há artigos, resenhas literárias, crônicas e mesmo ensaios. Mas, dentro de seu estilo de poesia de destacada liberdade e fruição lírica, os textos não expressamente poéticos deles não destoam na continuidade da leitura, dando-lhe, ao contrário, uma benfazeja impressão de repouso, para logo prosseguir nos raciocínios e observações várias em prosa. Tal como um míni-poema-em-prosa que encabeça uma página solitariamente, e que parece referir-se à própria concepção de obra: “Nunca perdemos nada, simplesmente passamos para outra realidade, com experiências adversas aos nossos desejos. Talvez o trem tenha entrado na bifurcação errada.”
As composições passeiam entre observações personalíssimas sobre o “algoritmo”, por exemplo, “Acabar com o xingamento ajuda a Civilização”, “Processo crítico em tempos de legalização da mentira”, neste último já se aproximando de posicionamentos políticos como em “O que é um fascista?”  onde perpassa por obras de, entre outros, George Orwell, Hanna Arendt, Theodor W. Adorno, “Exercícios para exorcizar o autoritarismo”, com afirmativas como “Sempre que alguém insulta, vitupera, ameaça, xinga e chuta ou se julga dono de toda cognição, deixa em dúvida se não esconde uma cauda sobre as vestes”. Em “Para não chocarmos com o fracasso” nos coloca diante da crise política observando que “O mundo está degradante por irmos desaprendendo a amar, pois falar em perda do humanismo não é suficiente”.
Memorável é o artigo “Legado de resistência de Cecília Meireles”, que deveria ser divulgado largamente com o fim de propagar a vida e obra da grande poetisa e educadora. Apresenta a colaboração jornalística perseguida no Estado Novo, junto ao trabalho desenvolvido com o educador Anízio Teixeira. Suas viagens, seu conhecimento de línguas que a aproximou da literatura inglesa, francesa, italiana, espanhola, alemã, russa, hebraica e da escrita nos dialetos do grupo indo-irânico, traduzindo Rilke, Virginia Woolf, Lorca, Tagore, Maeterlinck, Anouilh, Pushkin, bem como, em 3 volumes, “As mil e uma noites”. Enfim, cito apenas tais detalhes para aguçar a curiosidade, havendo muito mais informações e reflexões que necessitam sua leitura. 
Outro poeta modernista também apresentado em várias de suas facetas é Manuel Bandeira, no texto “Muros”, que foi o discurso de posse de Salomão Sousa na Academia de Letras do Brasil.
Por todas as questões aqui levantadas, concluo por sugerir a leitura do livro em pauta, como dos mais destacáveis lançamentos do início deste ano de 2022.

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UMA POESIA QUE ROÇA AS FÍMBRIAS DO INDIZÍVEL

                                                                   Sérgio de Castro Pinto                 Fica difícil estabelecer até que...