Resenha de Sérgio de Castro Pinto
Texto de Gardênia Holanda Maciel
Por Jacqueline Assunção Soares, minha afilhada
Foi uma enorme sorte
meu Padrinho ter aceito o pedido de minha mãe para batizar-me, apesar de
acreditar que não teria sido muito difícil de ele aceitar, já que se trata de
uma pessoa super bacana. E foi ainda mais sorte a minha Madrinha ter embarcado
nessa ideia e também ter aceito batizar uma desconhecida, rsrs... O fato é que
sou e sempre fui grata pelo que os dois fizeram por mim. Os dois foram
extremamente bondosos, generosos e corajosos de ter abrigado uma criatura que
não fazia parte da família, totalmente diferente da cultura e do modo de viver
deles. É preciso muita bondade, generosidade e sensibilidade para inserir o
outro, o diferente, em seu convívio e no de sua família. Admiro-os ainda mais
por isso...
Meu Padrinho,
extremamente bondoso e sensível às dificuldades sociais (sempre atento às
questões sociais), percebeu que minha mãe passava por dificuldades para criar
os quatro filhos sozinha, e resolveu ajudá-la ao me convidar a ir morar com sua
família. Penso, nunca conversei com eles sobre isso, que minha mãe, quando foi
fazer um tratamento de úlcera no hospital de base (minha madrinha trabalhava
lá) e lá reencontrou minha madrinha, comentou com ela que estava passando por
sérias dificuldades, e minha madrinha deve ter comentando com meu padrinho
sobre a situação, que tomou essa decisão.
O que lembro, depois
de minha mãe ter contado que havia reencontrado minha madrinha, é que um homem
alto, loiro, bem vestido, num carro preto, foi ter uma conversa com minha mãe e
entregar uma cesta básica natalina (e que cesta, minha gente! Nunca tínhamos
visto nada igual) para ela... Não recebíamos visitas. Morávamos num quartinho
nos fundos de uma casa, e a dona da casa foi chamar minha mãe, que foi receber
o rapaz no portão. Eu e meus irmãos ficamos curiosos, devido à surpresa de
alguém nos fazer uma visita, mas minha não permitiu que fôssemos com ela até o
portão. Então eu e minha irmã Lucília fomos escondidas “curiar” a conversa que
ocorria no portão, curvadas no beco da casa, na noite daquele dia. Lembro da
figura desse rapaz: alto, alegre e simpático. Como minha mãe não tinha o hábito
de conversar muito, nos disse o essencial: que meu padrinho estava me convidando
para ir morar um tempo com eles. O que fiquei extremamente feliz. E assim meu
padrinho ajudou minha mãe a aliviar um pouco mais as dificuldades que
passávamos.
Minha gratidão já
seria enorme só por essa atitude de generosidade. Mas abarca tudo o que eles
acrescentaram em minha vida.
Meu padrinho me
possibilitou descobrir um outro mundo, que a minha realidade não me permitia
ter. Éramos muito pobres, e a nossa realidade de moradores da periferia era
bastante diferente... Na casa de meu padrinho, pude descobrir o que era ter um
quarto, ter sala, copa, banheiro com chuveiro, pia, espelho, descarga... Mas
muito mais se descortinou na vida da garota pobre de 10 anos, moradora da
Ceilândia. Foi com meu padrinho que descobri o cinema, o shopping (acessível
somente a quem possuía poder aquisitivo) o Mc’Donalds (sim, minha gente, era o
suprassumo da época, eram filas enormes). Meu padrinho nos levava para passear
(os filhos dele e eu) fins de semana, e eu desfrutava de toda essa maravilha,
que é para uma criança. Os passeios em família ao clube, as visitas às casas
dos amigos. Desfrutei da companhia da querida Ivonice, com quem dividi muitos
momentos especiais. A casa de meus padrinhos era um ambiente de liberdade,
abertura, convivência harmoniosa e sem conflito. Foi um período de descobertas
e aprendizados.
E meu padrinho
continuou presente e contribuindo mesmo na minha vida adulta... Lembro que na
adolescência, já não mais morando com eles, meu padrinho me presentou com uma
coleção de livros clássicos da literatura brasileira. Confesso que só li dois
deles. Um livro que ele me deu e me marcou profundamente, já no finzinho de
minha adolescência, aos dezoito, e já grávida de minha filha, mas sem que
soubessem do fato, rs, foi um livro sobre uma chinesa que sai de casa para
fugir dos rigores da educação chinesa, e que acaba tendo de se prostituir. Esse
livro foi marcante, porque descreve as agruras que ela teve de passar, então
foi um construtor de caráter. E meu padrinho nunca deixou de insistir no meu
desenvolvimento pessoal. Livros importantes ele me deu, e me dá até hoje,
acredito que para alargar meus conhecimentos... conhecer outras formas de vida,
outros pensamentos, e, consequentemente, diminuir minha ignorância, minhas
limitações, e, assim, ter outras possibilidades. Foram inúmeros os passeios às
livrarias, ao cinema... Muitas sessões de filmes em sua casa, agregando
conhecimento... lembro em especial quando ele colocou um filme italiano sobre a
amizade quando fui visitá-lo junto com Camila e a amiga dela Sara, teceu
comentários extraordinários. O mais incrível de tudo isso é que ele não ofertou
tudo isso apenas à minha pessoa, ele também o fez por outros que aportaram em
sua casa, e até mesmo os de fora, sempre contribuindo com crescimento pessoal
de outros.
A casa de meus
padrinhos me possibilitou o conhecimento de um outro mundo... sempre me
possibilitou o contato com o novo. Tudo de moderno e atual estava lá... filmes,
músicas, livros infinitos... Como um bom jornalista que é, meu padrinho estava
sempre acompanhado das novidades, e sempre contribuindo para enriquecer o
repertório de quem por lá chegasse. Lá descobria-se desde o jazz, a música
erudita, o blues, a bossa, a música popular brasileira, até os cantores novos,
como Lauryn Hill... nunca me esqueço de chegar na casa de meus padrinhos e ver
o DVD dela na tela da televisão, foi paixão à primeira vista, isso nos idos de 2002.
Sua casa estava sempre aberta com a presença de familiares, poetas, escritores,
músicos que iam atrás das últimas novidades, porque o meu padrinho já tinha
disponível... Enfim, era uma casa fervilhante e que proporcionou momentos
enriquecedores a muitos... sempre uma casa convidativa, sempre cheia de
parentes, amigos e afilhados. Pude desfrutar da deliciosa companhia dos amigos e
parentes de meus padrinhos, que adoram receber visitas e os recebem muito bem.
Então só tenho a
agradecer aos meus queridos padrinhos, que têm uma importância muito grande em
minha vida. Agradeço imensamente o que fizeram, sou grata pelo desprendimento e
por tudo que me ofereceram. Nunca conseguirei pagar o que fizeram por mim.
E neste dia
simbólico do dia dos pais, quero agradecer a meu padrinho em especial, que
representou e representa a figura de um pai que não tive, com seus incríveis
ensinamentos, postura de caráter, uma pessoa cordial que sempre buscou tratar o
outro com cordialidade e respeito, com ética e moral, resolver os problemas da
vida da melhor maneira possível, sempre se pautando pelo diálogo. Pessoa de
incrível tolerância que sempre procurou tratar o próximo com cordialidade e
respeito, sem distinção de pessoas e julgamentos, aberto à assimilação de
outras culturas, aceitação do outro.
Muita gratidão pelos
valorosos momentos de conversas de aconselhamentos, por mostrar a beleza da
vida, mesmo nas dificuldades, mostrando que é melhor viver com leveza, pelos
momentos preciosos de compartilhamento de informações, conhecimentos... Tenho
na pessoa dele a referência de caráter, integridade, além de alegria e humor
natos, meu padrinho tem um grande senso de humor que o faz ser uma pessoa leve
e agradável que queremos estar sempre junto dele. É a pessoa que faz almoços
para agregar e integrar a numerosa família.
Meu
agradecimento, meu apreço e minha enorme gratidão, sempre. Obrigada por tudo. Feliz
dia dos Pais!
A tirania dos algoritimos
Marcos Fabrício Lopes da Silva*
A expressão “qualidade em educação”, no marco dos sistemas educacionais, admite uma variedade de interpretações dependendo da concepção que se tenha sobre o que esses sistemas devem proporcionar à sociedade. Uma educação de qualidade pode significar tanto aquela que possibilita o domínio eficaz dos conteúdos previstos nos planos curriculares; como aquela que possibilita a aquisição de uma cultura científica ou literária; ou aquela que desenvolve a máxima capacidade técnica para servir ao sistema produtivo; ou, ainda, aquela que promove o espírito crítico e fortalece o compromisso para transformar a realidade social, por exemplo. Por outro lado, a expressão “qualidade educacional” tem sido utilizada para referenciar a eficiência, a eficácia, a efetividade e a relevância do setor educacional, e, na maioria das vezes, dos sistemas educacionais e de suas instituições.
Sendo um tema abrangente em sentidos, destacar-se-ão duas vias que têm orientado a discussão acerca da qualidade da educação. A primeira está voltada para a qualidade do conteúdo da escolarização, e a segunda para a elevação de múltiplos fatores que implicariam uma melhor dinâmica da educação na sociedade como um todo. No enfrentamento dos problemas educacionais, em busca da melhoria da qualidade, são raras as situações em que a escola tem sido considerada a unidade fundamental na relação entre as diversas instâncias do poder público e a rede de ensino. Concebe-se a qualidade da educação como o alcance do desenvolvimento esperado do processo educativo, havendo maior qualidade na escola que cumpre sua função de socialização de conhecimentos, ampliação da cultura e aprimoramento da formação crítica. A educação de qualidade, nessa visão, estaria ligada ao alcance da emancipação dos sujeitos no sentido de aprimorarem a reflexão crítica e contribuírem na transformação para uma sociedade que supere as desigualdades.
Dentro de 10 a 20 anos, cerca de 90% das ocupações que temos hoje vão ser substituídas por robôs ou máquinas. Já está ocorrendo com força na medicina, na engenharia, na construção mecânica. Certamente, a instrução, em determinados assuntos e disciplinas, pode ser satisfatoriamente substituída por máquinas. Educação não é simplesmente passar informação. O mais pobre dos computadores faz isso melhor que o melhor dos professores. Um leitor competente é aquele capaz de ler além do que está escrito, ele lê as entrelinhas, além de fazer relações com outros textos lidos e ser capaz de falar sobre eles sem desmerecer a importância de discernir um fato de uma opinião. Acredito que formar esse sujeito é uma das entregas mais valiosas da escola. A cada dia percebemos a necessidade de termos (e sermos) bons leitores.
Não à toa, segundo o professor Muniz Sodré, autor do livro A sociedade incivil: mídia, liberalismo e finanças (2021), está reservado um outro lugar à educação, a saber: “a formação cívica, ao mesmo tempo psicológica e ética. [...] A educação é um nome da transformação de um processo radical de iniciação. [...] Iniciação é como uma conversão ou um batismo: a entrada numa câmara-portal e o renascimento do indivíduo para a vida social e coletiva. A iniciação é pessoal – ela precisa de gente – e é libidinal. Não consigo conceber uma educação que não tenha uma reinterpretação do laço libidinal entre pais e filhos, filhos e pais”.
Enquanto as pessoas entram numa faculdade para ter uma profissão e arrumar emprego, o próprio trabalho está sendo velozmente desvalorizado pelo advento das máquinas e robôs. “Não acho que a educação esteja estruturalmente acoplada ao trabalho. Ela está acoplada à formação psicológica, ética, propriamente humana”, defende Sodré. Mesmo num mundo regido por algoritmos, há uma virada afetiva na relação do saber com o indivíduo e seu corpo, com o orgânico, com as interações que o saber promove. O empenho histórico das ciências é entender e produzir grandes ideias sobre as transformações do mundo. É preciso voltar a pensar. A televisão brasileira levou 50 anos para habituar o povo à banalidade, à vulgaridade e ao grotesco. Isso é complementado hoje pelas redes sociais. Individualmente a internet é boa, claro. Do ponto de vista público e social, elas são uma tragédia.
Como bem assevera o jornalista e escritor Salomão Sousa, em Bifurcações (2022): “por mais que os algoritmos coletem informações sobre as atividades dos internautas, esses dados são insuficientes ou falsos para traçar um indicativo real do comportamento social e da personalidade do indivíduo. Aquilo que escondemos de nós mesmos e do público nós não enviamos para a rede. Manipulamos nossas fotografias e aspectos de nossa personalidade para apresentação de uma imagem que possibilite o aumento de nossa credibilidade dentro do grupo ao qual pertencemos e mantemos aliança, independente do quanto maléfico possa ser o seu comportamento. Vivemos em bolhas grupais, com menosprezo a todos que estiverem fora delas, sejam eles crianças, parentes, idosos e autoridades. O que temos de pior guardamos a sete chaves em nosso inconsciente”.
Um olhar mais detido sobre a tirania dos algoritmos pode ajudar a entender melhor os motivos pelos quais ainda continuamos reproduzindo comportamentos discriminatórios. Nesse contexto, uma tradição autoritária se agiganta com a proliferação de “indivíduos bombas”, adverte Salomão Sousa. É necessário, portanto, que não naturalizemos os golpes cotidianos da tecnocracia.
* Professor nas Faculdades Promove de Sete Lagoas (2005-2009), Fortium (2013) e JK (2013-2020). Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários
Sônia Elizabeth
Salomão Sousa, poeta incrível, de linguagem rara, preciosa, sem facilidades, sem comodismos. Mais uma vez usufrui o prazer de ler uma obra desse autor tão apaixonado pela poesia, a ponto de desnudá-la com carinho, competência e altruísmo. Seu verbo, embora soe cru, áspero (aos menos avisados) é de uma simbologia e força que merece todos os nossos aplausos e reconhecimentos. E digo, sem pestanejar: é um dos poetas que mais gosto de ler no meu cotidiano. Em anotação de papel colocada no inicio do livro, avulsa, Salomão já nos adverte (e isso constatamos na leitura de cada poema) que “Trata-se do meu livro mais pessoal, mais íntimo dos percursos de minha vida. Os poemas recuperam traços da memória e das observações instantâneas do que emergia à beira de minhas ocupações. O que me apodrece é o que me recupera, é o que salva a lembrança...” Penso que o poeta em evidência deve habitar bem próximo do meio ambiente, matas etc já que sempre em suas postagens refere-se aos pequenos insetos que adentram sua casa, como hospedeiros, já no fim da existência, assim como caminha fotografando tudo aquilo que é belo e pequeno na Mãe Natureza, o que passa muitas vezes desapercebido aos olhos humanos que não enxergam a essência das coisas. Ou seja, Salomão Sousa é uma espécie de Manoel de Barros nas searas de Goiás.
Nota de Ricardo Alfaya
Oi, Salomão,
Chegou hoje à tarde seu Vagem de Vidro. É uma obra densa, complexa, de estrutura singular. Um livro de poesia de fato diferente. Vc realiza uma colagem de textos e imagens numa velocidade vertiginosa, explorando inúmeros efeitos surrealistas, a começar pelo título; a quebra ou mesmo eliminação da pontuação formal acarreta por vezes a sensação de estarmos diante de um hipertexto – por sinal, a influência da Internet no seu fazer literário se evidencia em vários momentos. Alguns poemas marcaram-me mais, como o que fala em Ulisses. Destaco também “E se todos nós decidíssemos pela ausência?” - Esse poema, aliás, caracteriza uma das tendências que percebi em seu estilo: a criação de uma espécie de universo à parte, totalmente feito de palavras (signos), em que tudo é possível. Algum dos seus apreciadores notou, com propriedade, a presença de um tom um tanto solene, grandioso, em seu discurso; por exemplo, no poema que começa por “A palavra definitiva”, há algo de bíblico no discurso; e aquela história de “corpo que repartes” evoca a passagem bíblica mais conhecida do antigo Salomão – só que, no seu poema, quem entra em cena é Prometeu; a parte do corpo a sacrificar não é o filho, mas o heroico fígado. Enfim, é uma poesia personalíssima, muito instigante. Difícil pretender esgotar a riqueza de seus significados e possibilidades com um único e breve comentário. Porém, fica aqui o registro, não apenas do recebimento do livro, mas também do prazer que essa primeira leitura me proporcionou. Parabéns.
Um grande abc,
Ricardo Alfaya
Resenha de Gerson Valle
O poeta Salomão Sousa é um dos marcos literários da capital federal. Sua poesia possui uma originalidade marcante. Neste ano em que se comemoram 100 anos da Semana de Arte Moderna, que quebrou os cânones do então parnasianismo, Salomão Sousa merece um exame melhor de sua obra, quando se constata a liberdade do verso encaminhá-lo ao mesmo tempo que para metáforas e outras figuras como para a narrativa ou reflexão mais encontradiças na prosa. Mas, que nele ganham a graça de uma espontaneidade que traz em si o diferencial poético numa forma em nada tradicional.
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UMA POESIA QUE ROÇA AS FÍMBRIAS DO INDIZÍVEL
Sérgio de Castro Pinto Fica difícil estabelecer até que...
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Interlúdio para lembrar – A casa da família era típica das construções goianas. De adobe rústico, piso no saibro, banco de champrão ...
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Sônia Elizabeth Um poeta que inicia seu livro com versos assim: “Enganou-se quem partiu/para legar-me ao abandono. /Uma caravana de form...
