Artigo III de Marcos Fabrício Lopes da Silva

TRABALHO DURO

O trabalho e a produção são uma parte fundamental e básica da atividade e da cultura humanas. Mais que um homo faber, a pessoa é capaz de atividades superiores e modos de ser mais altos (amor, conhecimento). Na vida, além de trabalho e seriedade, existe lazer e diversão. Sem eles, o trabalho não se entende. Inclusive, ele mesmo pode converter-se em uma maneira de se divertir. O trabalho, em sentido objetivo, constitui o aspecto contingente da atividade do homem, que varia incessantemente nas suas modalidades com o mudar das condições técnicas, culturais, sociais e políticas. Em sentido subjetivo, se configura, por seu turno, como a sua dimensão estável, porque não depende do que o homem realiza concretamente, nem do gênero de atividade que exerce, mas só e exclusivamente da sua dignidade de ser pessoal. A distinção é decisiva, tanto para compreender qual é o fundamento último do valor e da dignidade do trabalho, quanto em vista do problema de uma organização dos sistemas econômicos e sociais respeitosa dos direitos do homem. A subjetividade confere ao trabalho a sua peculiar dignidade, que impede de considerá-la como uma simples mercadoria ou um elemento impessoal da organização produtiva.

A pessoa é o parâmetro da dignidade do trabalho. Hoje mais do que nunca, trabalhar é um trabalhar com os outros e um trabalhar para os outros: torna-se cada vez mais um fazer qualquer coisa para alguém. Também os frutos do trabalho oferecem ocasião de intercâmbios, de relações e de encontro. O trabalho, portanto, não pode ser avaliado equitativamente, se não se leva em conta a sua natureza social. Conforme sublinha o escritor e jornalista Salomão Sousa: “sou dependente de todos que estão ao meu redor para completar as minhas ações e para que o futuro de meu trabalho tenha algum significado. O que sou veio do ensinamento e do exemplo de todos aqueles que passaram pela trajetória de minha vida” (Bifurcações, 2022).

O capital mais de uma vez sufocou o mundo do trabalho, reduzindo os trabalhadores a condições extorsivas e contrárias à dignidade humana. “Pecamos pela gula de riqueza e pela indiferença aos princípios de ordenamento da sociedade. Soma-se a isso a perda da razoabilidade, que é a decisão do indivíduo de pensar e agir de forma injusta, apesar de estar ciente de que segue na contramão da moralidade. A prática da maldade (ruindade consigo e com a sociedade) passou, então, a ser praticada de forma deliberada. Há horizontes em todos os lugares, mas a falta de razoabilidade obstrui todos eles” – lamenta, com pesar, Salomão Souza, em Bifurcações. Convém frisar que as sociedades não são sistemas livres de contradições; sua organização pode vir a tornar-se extremamente irracional. Nesse sentido, no atual momento político e econômico, os construtores da sociedade pluralista devem superar a lógica perversa do lucro. Precisam buscar uma efetiva sustentabilidade, necessária para se alcançar o equilíbrio social.

O conjunto de recursos, atividades, instrumentos e técnicas que permite a cada pessoa o exercício adequado de suas tarefas não pode sobrepor-se ou minar a dimensão subjetiva do trabalho humano. O respeito a esta perspectiva é a consideração insubstituível de cada ser humano e de sua vocação pessoal. “É urgente reaprender a viver em companhia (do latim cum – com + panis – pão, isto é, companhia significa comer o pão junto). Se insistirmos nessa fúria de consumirmos sozinhos o pão, sem nos preocuparmos com a injustiça da pirâmide social, o Homem corre séria ameaça de voltar a nascer com rabo” – argumenta Salomão Souza, em Bifurcações. Trabalhar refere-se ao respeito moral ao próximo e, por desdobramento, é reverência à própria família e à sociedade. Abominável, pois, é o enquadramento do trabalhador na condição de escravizado. Trata-se de um verdadeiro atentado contra a dignidade, com ferida na cultura solidária e civilizada.

A necessidade do trabalho não se refere apenas ao sustento familiar e pessoal, prioridade incontestável, mas, particularmente, ao bem que promove a cada pessoa. Trata-se de direito fundamental. A propósito, à frente da banda Legião Urbana, Renato Russo (1960-1996) compôs e cantou a música Fábrica (1986): “Nosso dia vai chegar,/Teremos nossa vez./Não é pedir demais:/Quero justiça./Quero trabalhar em paz./Não é muito o que lhe peço/Eu quero trabalho honesto/Em vez de escravidão./Deve haver algum lugar/Onde o mais forte/Não consegue escravizar/Quem não tem chance/De onde vem a indiferença/Temperada a ferro e fogo?/Quem guarda os portões da fábrica?/O céu já foi azul, mas agora é cinza/E o que era verde aqui já não existe mais/Quem me dera acreditar/Que não acontece nada de tanto brincar/com fogo./Que venha o fogo então./Esse ar deixou minha vista cansada./Nada demais”.

Com o avanço das tecnologias da informação e comunicação (TICs) não foram poucos os que acreditaram que uma nova era de felicidade se iniciava: trabalho on-line, digital, era informacional, finalmente adentrávamos no reino da felicidade. O mundo do labor enfim superava sua dimensão de sofrimento. Mas sabemos que o mundo real é muito diverso do seu desenho ideal. O mundo das grandes corporações globais não existe sem o trabalho brutal e manual em seus rincões e grotões. As transversalidades entre classe, gênero, etnia, geração, tudo aparece nas complexas fábricas e faz desmoronar o mito dos trabalhos brandos, tecnologizados e assépticos. Ora, como é impossível que todos se beneficiem do modo de vida dos mais ricos, a insatisfação maltrata os indivíduos que teriam podido se satisfazer com sua sorte sem essa comparação. A felicidade, a paz interior, a serenidade vêm da supressão dos desejos ou da conversão a um querer racional, o que não é pouca coisa. “Nossa grande e gloriosa obra-prima” – como bem disse Montaigne (1533-1592) – “é viver adequadamente” (Os ensaios, 1580).

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* Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE-UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023) e integrante do Coletivo AVÁ desde 2018.

** Jacob Lawrence (1917-2000): The Builders (Family), 1974.

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