Discurso de recepção na Academia de Letras do Brasil

 Kori Bolivia

Neste momento eu gostaria de ter alguns anos a menos para poder brincar como o fazia antigamente. Não que eu agora não brinque, mas a brincadeira era bem outra.

Hoje gostaria de brincar de apresentar a vocês as coisas bobas com as quais eu me distraía e que, de repente, tornaram-se matéria-prima e já não consigo vê-las como bobas, mas sim como ideias que se tornam pensamentos e pensamentos que se convertem dentro da mente em mecanismos que acabam funcionando como parte de sistemas complicados que, por meio das mãos, se depositam em papéis como palavras, que formam poemas que acabam sendo parte de poemas em livros, em jornais, boletins e discursos.

Hoje não vou brincar, minha palavra tem outra missão, que é a de apresentar uma pessoa que há alguns anos conheci pessoalmente, quando ouvi falar de um jornalzinho de literatura ainda no último ano do século passado: o zine Chuço, do qual viram a luz 18 números. Ele foi editado pelo poeta Salomão Sousa, para resistência, segundo ele, a um editorial do editor do caderno de cultura do principal jornal de Brasília, que disse ser “desanimador ver uma cidade concebida de forma tão original gerar não talentos compatíveis com a criatividade de suas linhas e sim um punhado de poetas bisonhos e escritores medíocres”.  No primeiro número do Chuço, Salomão Sousa, através de pequenos tópicos, faz um balanço cultural da relação entre imprensa, literatura e política em Brasília. São questões que perduram até hoje:

              

“Os meios de comunicação como podem ser comprados pelas forças políticas e pelos domínios econômicos, são pagos para silenciar os intelectuais. As forças políticas e econômicas são inimigas dos formadores de opinião. Onde há conhecimento, esclarecimento público, não pode haver domínio do político e do econômico como forças desvinculadas do social. (...)”.

 

               No último tópico desse primeiro número, Salomão Sousa já enfatizava a questão que dominará os debates que até hoje se desenrolam: “O homem, ao perder a ética e a educação artística, não tem outra forma de se expressar a não ser pela violência.” Gostaria de salientar que, entre os vários seguidores, o Chuço contava com o entusiasmo de poetas como Cassiano Nunes e Antonio Miranda. A pequena publicação foi ganhando visão pelo Brasil, consolidando as relações de seu autor com uma rede de editores de zines e teve como irmão em Brasília o chamado Jornal do Alan. Em1998, o Chuço mereceu o Prêmio Capital de Resistência ao Ordinário, do zine O Capital, editado em Aracaju por Ilma Fontes, e a Biblioteca da ANE recebeu neste momento, por solicitação da saudosa Zita de Andrade Lima, uma coleção do Chuço, doada pelo autor.

               Mas, tantas vezes citei o nome do poeta Salomão Sousa e, talvez, perguntam-se os senhores com razão: quem é o novo escritor que hoje nos preparamos para saudar? Pois nada menos que um menino que nasceu em 19 de setembro de 1952, recebido com uma salva de tiros de espingarda pelo senhor João Miguel Bento, na fazenda Calvo, município de Silvânia, do sul de Goiás, que assim anunciava o segundo filho que a senhora Maria Delmira de Sousa Bento lhe dava: Salomão Sousa.

               Aos dez anos, o menino Salomão foi alfabetizado pelo andarilho José Ribeiro e, em meados de 1964, a família transferiu-se para a casa própria em Silvânia. Lá recebeu a influência do avô materno, Sansão Fernandes de Sousa, que mantinha literatura de cordel escondida em uma canastra. Salomão leu permanentemente esses poucos livros, recebendo também a experiência cultural de parlendas, cantos religiosos, música caipira e tentou a composição de pequenas quadras desafiado por outro andarilho. Há muito para se dizer sobre essa etapa que alimentou o seu espírito poético e de contato com a natureza, mas ficará para outra ocasião. Diga-se  agora que ajudou os pais na carpina, levou comida para os peões na roça, descaroçou algodão, cuidou, na falta do irmão mais velho, dos irmãos mais novos, brincou com facão e juntou insetos na bacia de lavar roupa, objeto que deu origem a um poema de seu próximo livro:

A morte da bacia de Flandres começa

quando a atacam os furos e ninguém a recolhe

para a hora de alvejar. Enche-se de húmus

para o poejo, a hortelã. Floreira num jirau.

               Em Silvânia trabalhou como balconista numa loja de secos e molhados, e aproveitava qualquer trabalho que pudesse lhe render alguns trocados para ir ao cinema. Em um desses trabalhos, como moleque de recados para a mulher do primeiro gerente de banco da cidade, teve acesso a uma edição ilustrada da Divina Comédia. Aquela senhora permitia que tivesse acesso ao livro, na mesa da cozinha. Antes de se transferir para Brasília, trabalhou como porteiro e bibliotecário da Biblioteca Pública. “O balcão” também aparecerá em seu próximo livro:

               Moscas quietas a lamber sobras

               de açúcar, gotas que não couberam

               na taça do peão com o embrulho

               de arestas para a cerca antes de uma restinga.

               Superfície para a embriaguez, e garrafas

               que serão espatifadas. Aprendizagem

               de que há exigência de ordem para existir.

 

               Afirma que, para fugir da solidão e se esconder da própria miséria, passava longas horas na biblioteca ou lendo em casa. Entre os seus escritores estavam Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo. Publicou seu primeiro poema sem rimas ao redor dos 16 anos no jornal da cidade, e encheu um caderno com sonetos para demonstrar aos amigos que ele era capaz de escrevê-los: isto lhe serviu para a compreensão da mecânica da poesia, segundo ele. Ao ler jornais usados, cortava e colava poemas publicados em O Dia e Correio da Manhã que chegavam pelo correio, para que um comerciante os usasse como papel de embrulho. Assim, montou uma coleção aleatória como um caderno de 400 páginas. Ainda em Silvânia, ganhou um concurso de redação sobre D. Bosco, que, em 1968, o levou até São Paulo; e um concurso de declamação com um poema de Fagundes Varela; além disso desempenhou-se como ator em uma peça teatral, tendo sido essa sua experiência cultural até os 18 anos.

               Conta-nos o poeta que a Brasília chegou em 6 de janeiro de 1971, “com uma malinha de roupa, uma caixa de livros e poemas, e o Atestado de Bons Antecedentes tirado em Silvânia, sendo acolhido por seus padrinhos. Estudava à noite no Centro de Ensino de Vila Matias e aos domingos trabalhava numa banca na feira de Ceilândia. Durante o dia montava o jornal estudantil e a Biblioteca do estabelecimento, que deixou com mais de 3.000 exemplares de livros ao terminar o curso Científico. Ali iniciou suas relações com os artistas da cidade, tendo sido aluno da conhecida professora Dad Squarisi e de Anito José Steinbach, poeta que, à época, trabalhava no Itamarati.

               Ingressou na Fundação Educacional do Distrito Federal, hoje Secretaria de Educação, por concurso público, e estudou jornalismo no Centro de Educação Universitária de Brasília, CEUB, ampliando seus contatos com os escritores da cidade. Foi aluno de nosso fundador o escritor Almeida Fischer, e outros, que lhe abriram o caminho para seu acesso à Associação Nacional de Escritores, ANE, mesmo não tendo, ainda, livros publicados. Os Ministérios da Fazenda, do Trabalho e do Bem-Estar Social o tiveram como funcionário. Ao alugar um quarto para morar em Taguatinga, conheceu a jovem Francisca Andrade Menezes, hoje de Sousa, aqui presente. Casaram-se e três filhos selaram o amor: Carlos Alberto, Saulo e Vítor, que lhes deram seis netos: Laura Beatriz, Maria Clara, Davi, Murilo, Lyra e Felipe.

               Em 1978, lançou os livretos Esbarros I e II, com a apresentação de Ary Quintela.  Comenta que não tinha vocação para a poesia Marginal, apesar de Caderno de desapontamentos e Criação de lodo, livros posteriores, terem sido afetados por ela, pois o período reclamava comunicação agressiva, de resistência.

               Seu primeiro livro publicado foi   A moenda dos dias, em 1979, que (completa este ano 40 anos). Publicou com recursos próprios e pela Thesaurus. Este livro teve mil exemplares vendidos de mão em mão no transporte público e em repartições. Também mereceu uma resenha na Universidade de Harvard entre outras manifestações. A Dra. Naomi Hoki Moniz, hoje Diretora de Estudos Portugueses na Universidade de Geogetown, diz em texto que foi publicado na Revista Iberoamericana;

“Sua utilização (de Salomão Sousa) de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e “espontaneísmo”, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas. ” (Vol. L, 126 de 1984)

 

               Ao comparecer para um lançamento em Brasília, Mário da Silva Brito declarou, ao receber o livro das mãos do autor, que já o havia lido na sala de recepção da editora Civilização Brasileira. Drummond acusou o recebimento, dizendo “eu, de Itabira, lendo o poema sobre Ceilândia”.  Fazemos notar que, em muitos momentos, o livro perpassa a história da mãe do autor.

               Salomão Sousa, no ano seguinte, publicou pela editora Civilização Brasileira, com patrocínio do Instituto Nacional do Livro (INL) hoje extinto, em um único volume, O susto de viver e reeditou de A moenda dos dias. Nova resenha, desta vez assinada pela poeta e professora Teresinka Pereira, saiu à luz em Harvard e o saudoso escritor Nilto Maciel saudou o livro com estas palavras:

“ A cronologia sentimental de Salomão Sousa obedece a uma lógica do pessimismo. O universo pode ser desigual no tempo e no espaço, porém o indivíduo é apenas um dado, ‘pedra atirada dentro do rio’. Se antes ‘entendia cada silêncio que estivesse por perto”, agora ‘é impossível passar ileso por qualquer despensa do vazio ou do silêncio’. Se antes conservava ‘um medo leve’, agora ‘o gume da tristeza não fende o medo’ “.

 

               Ao aproximar-se o Séc. XXI, Salomão Sousa sentiu a necessidade de fugir da poesia parente do Tropicalismo ou das vanguardas dos irmãos Campos. Adotou a pulverização do verso, sem ser, necessariamente, puro neobarroco ou poesia de invenção ou surrealismo.

               O poeta atuou também exerceu o cargo público não só nos colégios, mas como assessor parlamentar no Congresso Nacional. Acompanhou mudanças de ministro, CPIs de impedimento, palestras, reuniões e relatórios confiantes em mudanças para o país. Declara que começou a trabalhar em 1976 de forma enclausurada, quando o Congresso Nacional tinha pouca importância.  O primeiro chefe, Dr. Gilberto, manteve-o por alguns anos dentro de sua sala, e na despedida dos colegas de trabalho, usou versos de Walt Whitman para sinalizar o novo momento de sua vida. Hoje, Salomão Sousa está aposentado do serviço público, depois de 45 anos de trabalho.

               Em 4 de junho, dando continuidade às comemorações dos 40 anos de seu primeiro livro, lançará no Beirute os livros Desmanche I, e de poemas, e Poemas e andorinhas, que traz textos híbridos em que aborda questões sobre comportamento social e dá prosseguimento à montagem de uma compreensão da poesia brasileira, estando todos agora já convidados.  Sobre o primeiro, o poeta Sergio de Castro Pinto, no jornal Contraponto, da Paraíba, diz que o poeta “Salomão Sousa submete a desmanche a máquina do mundo a partir de uma linguagem que, para muitos pode soar como uma sintaxe invisível, mas que, na verdade, está a exigir do crítico, do ensaísta, uma exegese mais apurada, livre de postura cartesiana com que costumamos administrar a realidade. Desmanche I situa Salomão Sousa num espaço à parte no âmbito da poesia brasileira contemporânea. ”

Desde a juventude nosso escritor foi um grande missivista e lamenta que as redes sociais tenham restringido a comunicação a simples gestos mecânicos. Diz ele que é a “contingência de um mundo que traiu o homem pela eletrônica”. Em uns fragmentos de um poema endereçado por ele a Maria Inês, de quem diz não recordar quem foi, em julho de 1996, e cuja cópia o autor guardou e à qual tivemos acesso, pergunta:  “(...) onde estarão as quadras que fiz aos nove anos? /Haverá um depósito delas num céu de Dante? /Hoje não tenho nenhum sentimento de angústia. ”  

Participou de encontros internacionais no Méxíco, no Peru e no Equador e em 2011 ganhou o troféu Tiokô como personalidade goiana que se destacou fora de Goiás.

Como tudo o que se inicia deve ter um fim, termino esta oração de acolhimento ao escritor e poeta que ocupará a cadeira nº X cujo patrono é Manuel Bandeira, e cujo último ocupante é o escritor e professor Carlos Alberto dos Santos Abel. Salomão Sousa, cuja poesia não deixa de estar presente nos dias críticos pelos quais passa esta bela terra brasileira, recebeu as seguintes palavras de Jorge Amado sobre sua obra: “Original e humano, sensível e consciente. Poesia que não é cera, é chama.” Com este poema, parte do livro Vagem de vidro, de 2013, os deixo:

O homem definitivo

Não insana com ausência,

Com justiça cerrada,

Encontros ao acaso.

 

Qual o encontro

Não se desenlaça

Se o ata o furor,

Se o cheque compra

Na praça o parceiro?

 

O homem definitivo

Não traz coágulos

Do desabraço,

Da sementeira

Em despedaços

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Fernando Py (Petropolis)