Caro Salomão Sousa
Que bom falar com você!
Auguro-lhe saúde e paz interior, se ela nos seja possível após o caótico
alvoroço dos quadrúpedes que, volta e meia, assolam o solo em que pisam, e a
poeira dos escombros, com suas infectas partículas, ainda mal se abaixou ao
chão sob o ar insalubre que respiramos.
J´Acuse
recebimento, na recém-sexta-feira do dia sexto deste agosto em curso, de exemplares
dos seus dois novos livros: Certezas para
as madressilvas e Poesia e alteridade,
endereçados a mim, extensivamente ao meu dileto amigo Delermando Vieira; ele e
eu que compomos um “duo”, como você diz, e diz a bem da verdade, e vou aqui
rimando com amizade. Delermando anda quieto (e quieto ando eu); há meses que
não o tenho visto; entrei em contato para ele vir pegar os exemplares que você
autografou para ele.
Logo peguei a ler e terminei
de ler suas emblemáticas madressilvas, alusivamente diretas para serem (redunda
dizer) alegóricas. Um refino poético, como lhe é próprio ao estilo. Apontam-lhe
influências de João Cabral, Drummond, entre outros; a mais captamos alguma
ressonância formal de Alfred Tennyson (pelo qual você nutre manifesta simpatia,
pois não?) e de Eugene Montale (Ossos de
sépia), com um certo hermetismo, finura formal e poeticamente imagética. Ou
não?
Do ódio aquartelado
(bem-entendido) para as ruas da turbamulta enceguecida em alvoroço, resulta uma
poesia de contraponto a tudo que nos afeta, direta e coletivamente, em face do
quê, um poema não deixa de ser uma forma de ato público. É quando as palavras
se fazem iluminuras imagéticas pelo som, pela pictórica tonalidade e epifania
de seus desenhos, no sentido de entendimento ou compreensão da essência de algo
pertinentemente implícito. Inerentemente, in
essentia, a oportuna pronúncia do sentimento ante as explícitas verdades então
reveladas em seu maldito reduto.
Prezado Salomão, em seguida,
e, claro, por referir-se a Goiás, logo li seu ensaio sobre quando a poesia
goiana houve de dar combate aos “tumores” do “matadouro do dia”, alusivamente
aos “anos de chumbo” em nosso escolado país de sofrimentos de ordem política.
Faltou, no passado, da parte de doutos estudiosos (se é que isso interessava
tanto quanto louvar a vanguarda estética do GEN); uma visada mais alentada com atinência
à vertente sociopolítica nos versos de poetas locais, a exemplo mesmo, dentre
outros, de um Brasigóis Felício, Delermando Vieira, Tagore Biram (com
influências de Maiakóvski e Bertolt Brecht, além de Neruda, os três sempre
referidos por ele). De minha parte, bem antes de um “simbolismo tardio e
demoníaco” e dos meus avanços com a metalinguagem, vinha eu com As faces da faca, A palavra por desígnio e O
animal político de Aristóteles, marcas primeiras do explícito viés sociopolítico
em meus escritos.
Quando o editor José
(Zezinho) Oriente leu os originais do meu livro As faces da faca, me disse que teria que “levá-lo à Censura”, então
obrigatória, imposta ao país por repressora impostura de caserna e coturno. Eu
disse ao Zezinho que, se o livro fosse ao Censor, não seria publicado (senão
coisa pior), e assim ele não ganharia meu dinheiro pela edição, e eu não teria
meu livrinho impresso. Argumentei que, se ele se arriscasse comigo,
publicaríamos o livro; ele então ponderou e publicou, e não aconteceu nada de
mal.
No mais, caro amigo
Salomão, devo continuar lendo seus ensaios em Poesia e alteridade, e/ou, digamos assim, alteridade da poesia em
questão; o “eu-individual” em relação ao outro. Em seu comentário sobre um
poema de minha autoria, vem com destaque em itálico a palavra cuzido (que foi um cochilo meu, quando o
certo é cozido, e do qual me dei
conta na época, mas então o livro já saíra publicado --- lamentáveis cochilos. Na
leitura, observo que, na página 59, se bem entendi (ou entendi mal?), você
comenta “tumores” como sendo de um verso do poema “Matadouro”, do Brasigóis, e
o verso é do poema “Prólogo”, de Tagore Biram: “eu viro as costas e não me
importo / e abro as portas dos meus tumores.”
Eu aqui vou indo bem, 82
anos, apenas um pouco pênsil no equilíbrio, feito a torre de Pisa. Há meses que
nem vou até a UBE; ando às voltas com a saúde, vezes várias indo ao médico, e
já estive em três UTIs; na primeira delas, com inflamação generalizada, quase
me fui, e tive até alucinações; cheguei a pensar que no Céu deviam estar
precisando de um auxiliar de porteiro, lá com São Pedro. Mas não fui.
Agora pega aí o pássaro
do meu fraterno abraço, extensivo à sua família.
Valdivino Braz (ainda).
Goiânia, 09/9/2024.
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