SABEDORIAS DE SALOMÃO
O objetivo da crítica é penetrar na obra enquanto lugar de abertura do mundo. Assim nos aproximamos de Bifurcações (2022), escrito por Salomão Sousa, por desejo e necessidade: “Fomos buscá-la/e as luas estavam em órbita/Não conseguimos sequer chocar/com tetos deslocados/Mas quem poderia esperar/que houvesse um ajuste/como as pétalas superpostas?/Retornaremos inúteis/se não pudermos postar/um pouco de ouro no mundo”. O ativismo empático do autor expressa a vontade de que podemos viver em dias melhores para as relações humanas: “A pluralidade de vozes cria a harmonia, desde que a civilidade e a razoabilidade não sejam ofendidas. Em outros países, em outras cidades, em outras casas, as pessoas são idênticas a nós em desejos. Se somos todos idênticos nos desejos, as mãos não podem sair sujas de sangue do abraço”.
O esforço para olhar através dos olhos do
outro pode ser pessoalmente desafiador – e por vezes extremamente divertido – ,
mas tem também extraordinário potencial como uma força para a mudança social.
No livro de Salomão Sousa, predomina uma voz autoral que se corresponde nas
evidências de que somos Homo empathicus, o que ultrapassa a sombria
definição dos seres humanos como criaturas egoístas, preocupadas em se
autoproteger, voltadas para seus próprios fins individualistas. Como disse o
próprio escritor, questionando o nosso sistema determinista errático, com humor
e ironia: “Em época de egocentrismo, com todo mundo se proclamando eu pra cá eu
pra lá, o eucalipto deve estar renegando o próprio nome”.
Um conjunto de circuitos da empatia se
encontra presente em Bifurcações, livro no qual Salomão Sousa realiza um
experimento de viagem bastante proveitoso. Seu estilo “inclusivo” ou
“universal” traz notícias de um mundo animado por saltos imaginativos e
aventuras experienciais. Expandir nosso potencial empático inspira um novo modo
de pensar sobre o que realmente precisamos para nosso bem-estar pessoal,
incluindo ampliar a nossa participação na qualidade de vida em sociedade.
“Cuidar de si mesmo” está se tornando uma aspiração ultrapassada à medida que
começamos a perceber que a empatia está no cerne do ser humano. Estamos no meio
de uma grande transição da era cartesiana de “Penso, logo sou” para uma era
empática de “Você é, logo sou”.
“Quem destoa do amor gera rubis de sangue
seco”, adverte Salomão Sousa. Na esteira sugerida pelo autor, deveríamos falar
mais sobre nosso “déficit de empatia” – nossa capacidade de nos colocarmos no
lugar de outra pessoa, de ver o mundo através dos olhos daqueles que são
diferentes de nós. Percebendo uma “epidemia de narcisismo” pairando no ar,
Salomão Sousa defende a sensibilidade empática agindo pelo princípio do verbo:
“Escrevemos e lemos para organizar novos arranjos para as palavras, onde surgem
novos significados, novas propostas de relações sociais, onde os indivíduos, as
comunidades e as nacionalidades passam a se (re)conhecer, a se respeitar e a
enriquecer. A leitura é um gesto solitário, mas acumula no indivíduo a
compreensão dos espaços que deseja ocupar. A manifestação de argumentos
agregadores estimula a concórdia e a sobrevivência da liberdade”.
Há que se aprender o sentido da gratidão por
quem veio antes de nós e a generosidade pelos que virão depois. Uma surpresa no
caminho nos lembra a razão de caminhar. Ler Salomão Sousa nos oferece uma
sabedoria bifurcada, desconfiada da álgebra do conquistador, onde a unidade é a
única medida que conta. O conceito de pureza perde também o contorno exato de
seu significado. É notório o desencanto hegemônico diante da poética da
diversidade. Para Salomão Sousa, as culturas não são, mas estão dentro do processo
da Relação, e a função exploratória das artes e das literaturas coloca-se como
urgente e necessária no árduo trabalho de fazer emergir a complexidade, tendo
em vista pensar os caminhos possíveis para a preservação da diversidade dentro
da confluência das culturas.
Os deslocamentos e as errâncias tornam-se
constituintes da Poética Bifurcada de Salomão Sousa, que coloca em xeque o
atalho das conclusões dualistas para traçar um “rizoma com o mundo”, numa
delicada busca de deciframento do real, tanto no campo estético, quanto nos
campos histórico, político e ideológico. Diante da bifurcação que se impõe entre
poesia e prosa, o autor vai de miscelânea, combinando literatura e filosofia,
sem deixar o “ser” voando com uma só asa. O fôlego ensaísta e acadêmico do
autor nos oferece gás de maratonista, na contramão dos apressados de plantão
que só querem bater recordes e deixar logo a pista do acontecimento.
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* Doutor e Mestre em Estudos
Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais
(FALE-UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, formado pelo
Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), autor do livro Machado de Assis,
crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023) e integrante do Coletivo AVÁ
desde 2018. Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF).
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