INTELIGÊNCIA ALTERITÁRIA
Aceitemos, por enquanto, essa versão da
história: a década de 90 do Século XX consolidou uma tendência – a presença de
computadores nos ambientes de praticamente todas as áreas do trabalho e do
conhecimento – a qual, nos 40 anos anteriores, vinha sendo silenciosa e talvez
involuntariamente semeada, uma vez que estes equipamentos eram inicialmente
vistos apenas como ferramentas de pesquisa científica e de uso militar. Seu uso
pessoal não foi um projeto acalentado de forma planejada pela comunidade científica
e tecnológica, e acabou explodindo pela ação de jovens estudantes californianos
entusiasmados pela computação, alguns dos quais com afiadíssimo senso de
oportunidade empresarial, aliado a enorme criatividade, como foi o caso de
Steve Jobs (1955-2011), desenvolvedor do padrão de interface de janelas, no
pioneiro Macintosh; e de Bill Gates, que apropriou e disseminou a ideia de
Jobs, associando-a a disseminação de softwares dirigidos a várias atividades
profissionais, através do hoje onipresente sistema operacional Windows.
Falemos agora do surgimento e
consolidação do sistema operacional Linux em um contexto marcado pela hegemonia
de sistemas operacionais comerciais, sendo o Windows/Microsoft o exemplo
paradigmático. O idealizador do Linux optou por abrir o seu código-fonte e
oferecê-lo, gratuitamente, na Internet. Desde então, pessoas de diversas partes
do mundo têm participado do seu desenvolvimento. O sistema Linux, simbolizado
pelo pinguim de bico e pés alaranjados, foi escolhido a dedo pelo finlandês e
cientista da computação Linus Torvalds, autor da façanha no mundo da
tecnologia. Ao contrário de sistemas “proprietários”, como o Windows/Microsoft,
essa forma de produção de software – cooperativa, descentralizada e “anárquica”
– foi chamada, por Eric S. Raymond, de “método bazar”, como contraponto ao
“método catedral”, “forma centralizada e controlada de se desenvolver software”
e que “necessita de um arquiteto central” (A Catedral e o Bazar, 1999).
Ao tentar reconhecer as boas intenções
da inteligência colaborativa, os projetos open source (código aberto)
particularmente me animam, não só pelos avanços tecnológicos, mas
principalmente por discutir um dos grandes nós do capitalismo informacional ou
cognitivo: os encontros e os desencontros entre propriedade intelectual e
liberdade criativa. Existe autoria puro-sangue no mundo, aquela capaz de
separar o joio (cópia) do trigo (original) perfeitamente? Não é a leitura do
outro que promove especialmente a escrita de si? O que dizer do novo se ele
parte da velha vontade de mudar? Como lidar com o plágio incômodo e o autêntico
trabalhoso? A tese defendida por Harold Bloom (1930-2019), sobre “angústia da
influência”, qualifica o debate pela criação. A ânsia de invenção pode nos
levar à euforia da “visão profética” ou da “imaginação visionária”, o que
deprime a honestidade intelectual e a humildade sensível profundamente. Como
indica a leitura segura de João Cabral de Melo Neto (1920-1999):
“Um galo sozinho não tece uma manhã:/ele
precisará sempre de outros galos./De um que apanhe esse grito que ele/e o lance
a outro; de um outro galo/que apanhe o grito que um galo antes/e o lance a
outro; e de outros galos/que com muitos outros galos se cruzem/os fios de sol
de seus gritos de galo,/para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo,
entre todos os galos” (Tecendo a manhã, 1966). Uma leitura popular do poema já
nos avisa da importância do trabalho em equipe para a realização de uma empreitada.
Deveríamos saber que a leitura é individual, mas a autoria é coletiva. Os
iluminados me cansam. Os ilustrados têm meu total apoio. Se hoje estamos sentindo
o som e a fúria da Inteligência Artificial (IA), fazendo um barulho
ensurdecedor, não foi por falta de aviso prévio. A Inteligência Humana vem
perdendo o interesse pela realidade. Ficando com a virtualidade, alimentamos o
conto da autossuficiência relacional que atende aos desejos e às necessidades
de uma civilização baseada em controlar a energia erótica das pessoas. O
desempenho é pornográfico; o encantamento é erótico.
“Numa época em que o único pendor do
homem é para o egocentrismo, que o único verdor do mundo é a supremacia da
máquina –, só poderíamos contar com a alteração dos processos de memorização. A
memorização visual que ainda existe acaba ocorrendo com parcialidade. O
indivíduo não quer mais intimidade, passeia com indiferença e, se manifesta
alguma interação, a agressividade tem predomínio na hora de ele aproximar-se da
natureza”. Essa declaração foi dada pelo escritor e jornalista Salomão Sousa, em livro super-recomendado. Momento
crítico, publicado em 2008, revela o olhar arguto de um pensador
fundamental para identificar o fácil enganoso e o difícil atraente. Além de
honrar as melhores tradições ensaísticas, o autor investe na bela combinação
entre literatura e filosofia para acolher achados e perdidos. O lado tóxico da
Inteligência Artificial, por exemplo, nos afasta da Inteligência Afetiva e nos
coloca diante da acídia contemporânea:
“Só no confronto com a natureza e com
outras pessoas há a construção da consciência de que não somos o centro do
universo. De que outro também constrói seu espaço, onde todos nós teremos de
nos mover. Só o solitário acha que o mundo é todo dele. Ele acha que a corda
está sobre o abismo só para ele. Temos de compreender: quando a corda partir, e
a ela estivermos agarrados sobre abismo, só o outro para arremessar outra para
nos soerguer”. Diante de tamanhas palavras, expressas por Salomão Sousa,
proponho mais atenção e carinho aos princípios da Inteligência Alteritária,
atitude que permite que a igualdade e a diferença deem um sentido mais feliz ao
encontro entre as pessoas.
___________
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Membro
da Academia
Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos
Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais
(FALE/UFMG). Integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade
(NEIA/FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Comunicador Social
formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Jornalista e autor do
livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023), além de
participante do Coletivo
AVÁ
desde 2018.
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