Artigo I de Marcos Fabrício Lopes da Silva

 INTELIGÊNCIA ALTERITÁRIA

Aceitemos, por enquanto, essa versão da história: a década de 90 do Século XX consolidou uma tendência – a presença de computadores nos ambientes de praticamente todas as áreas do trabalho e do conhecimento – a qual, nos 40 anos anteriores, vinha sendo silenciosa e talvez involuntariamente semeada, uma vez que estes equipamentos eram inicialmente vistos apenas como ferramentas de pesquisa científica e de uso militar. Seu uso pessoal não foi um projeto acalentado de forma planejada pela comunidade científica e tecnológica, e acabou explodindo pela ação de jovens estudantes californianos entusiasmados pela computação, alguns dos quais com afiadíssimo senso de oportunidade empresarial, aliado a enorme criatividade, como foi o caso de Steve Jobs (1955-2011), desenvolvedor do padrão de interface de janelas, no pioneiro Macintosh; e de Bill Gates, que apropriou e disseminou a ideia de Jobs, associando-a a disseminação de softwares dirigidos a várias atividades profissionais, através do hoje onipresente sistema operacional Windows.

Falemos agora do surgimento e consolidação do sistema operacional Linux em um contexto marcado pela hegemonia de sistemas operacionais comerciais, sendo o Windows/Microsoft o exemplo paradigmático. O idealizador do Linux optou por abrir o seu código-fonte e oferecê-lo, gratuitamente, na Internet. Desde então, pessoas de diversas partes do mundo têm participado do seu desenvolvimento. O sistema Linux, simbolizado pelo pinguim de bico e pés alaranjados, foi escolhido a dedo pelo finlandês e cientista da computação Linus Torvalds, autor da façanha no mundo da tecnologia. Ao contrário de sistemas “proprietários”, como o Windows/Microsoft, essa forma de produção de software – cooperativa, descentralizada e “anárquica” – foi chamada, por Eric S. Raymond, de “método bazar”, como contraponto ao “método catedral”, “forma centralizada e controlada de se desenvolver software” e que “necessita de um arquiteto central” (A Catedral e o Bazar, 1999).

Ao tentar reconhecer as boas intenções da inteligência colaborativa, os projetos open source (código aberto) particularmente me animam, não só pelos avanços tecnológicos, mas principalmente por discutir um dos grandes nós do capitalismo informacional ou cognitivo: os encontros e os desencontros entre propriedade intelectual e liberdade criativa. Existe autoria puro-sangue no mundo, aquela capaz de separar o joio (cópia) do trigo (original) perfeitamente? Não é a leitura do outro que promove especialmente a escrita de si? O que dizer do novo se ele parte da velha vontade de mudar? Como lidar com o plágio incômodo e o autêntico trabalhoso? A tese defendida por Harold Bloom (1930-2019), sobre “angústia da influência”, qualifica o debate pela criação. A ânsia de invenção pode nos levar à euforia da “visão profética” ou da “imaginação visionária”, o que deprime a honestidade intelectual e a humildade sensível profundamente. Como indica a leitura segura de João Cabral de Melo Neto (1920-1999):

“Um galo sozinho não tece uma manhã:/ele precisará sempre de outros galos./De um que apanhe esse grito que ele/e o lance a outro; de um outro galo/que apanhe o grito que um galo antes/e o lance a outro; e de outros galos/que com muitos outros galos se cruzem/os fios de sol de seus gritos de galo,/para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo, entre todos os galos” (Tecendo a manhã, 1966). Uma leitura popular do poema já nos avisa da importância do trabalho em equipe para a realização de uma empreitada. Deveríamos saber que a leitura é individual, mas a autoria é coletiva. Os iluminados me cansam. Os ilustrados têm meu total apoio. Se hoje estamos sentindo o som e a fúria da Inteligência Artificial (IA), fazendo um barulho ensurdecedor, não foi por falta de aviso prévio. A Inteligência Humana vem perdendo o interesse pela realidade. Ficando com a virtualidade, alimentamos o conto da autossuficiência relacional que atende aos desejos e às necessidades de uma civilização baseada em controlar a energia erótica das pessoas. O desempenho é pornográfico; o encantamento é erótico.

“Numa época em que o único pendor do homem é para o egocentrismo, que o único verdor do mundo é a supremacia da máquina –, só poderíamos contar com a alteração dos processos de memorização. A memorização visual que ainda existe acaba ocorrendo com parcialidade. O indivíduo não quer mais intimidade, passeia com indiferença e, se manifesta alguma interação, a agressividade tem predomínio na hora de ele aproximar-se da natureza”. Essa declaração foi dada pelo escritor e jornalista Salomão Sousa, em livro super-recomendado. Momento crítico, publicado em 2008, revela o olhar arguto de um pensador fundamental para identificar o fácil enganoso e o difícil atraente. Além de honrar as melhores tradições ensaísticas, o autor investe na bela combinação entre literatura e filosofia para acolher achados e perdidos. O lado tóxico da Inteligência Artificial, por exemplo, nos afasta da Inteligência Afetiva e nos coloca diante da acídia contemporânea:

“Só no confronto com a natureza e com outras pessoas há a construção da consciência de que não somos o centro do universo. De que outro também constrói seu espaço, onde todos nós teremos de nos mover. Só o solitário acha que o mundo é todo dele. Ele acha que a corda está sobre o abismo só para ele. Temos de compreender: quando a corda partir, e a ela estivermos agarrados sobre abismo, só o outro para arremessar outra para nos soerguer”. Diante de tamanhas palavras, expressas por Salomão Sousa, proponho mais atenção e carinho aos princípios da Inteligência Alteritária, atitude que permite que a igualdade e a diferença deem um sentido mais feliz ao encontro entre as pessoas.

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* Membro da Academia Cruzeirense de Letras - ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade (NEIA/FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Comunicador Social formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Jornalista e autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023), além de participante do Coletivo AVÁ desde 2018.

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